Opinião: Júri escolheu melhores longas, mas poderia inverter premiados

Opinião: Júri escolheu melhores longas, mas poderia inverter premiados

 

Por Adriano Garrett

 

Quem assistiu aos sete longas-metragens que participaram da Mostra Aurora, seção competitiva da 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes, não teve dúvidas quanto aos dois melhores filmes da programação. Seria uma aberração se os troféus não fossem atribuídos a Branco Sai Preto Fica, de Adirley Queirós, e A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa. Felizmente, tanto o Júri Jovem quanto o da Crítica premiaram a obra de Uchoa, dando menção honrosa para o longa de Queirós.

Não se pode falar, então, em nenhuma grande injustiça, mas eu teria ficado mais contente se os premiados fossem invertidos, com Branco Sai… levando os prêmios principais e A Vizinhança…, as menções honrosas.

O filme de Adirley Queirós foi o penúltimo a ser exibido na Mostra Aurora (leia crítica aqui). Ele parte de uma história real (a violência policial que vitimou dois participantes de um famoso baile black no DF dos anos 80) para propor um diálogo curioso e bem-sucedido com a ficção científica, tendo como pano de fundo a exclusão social imposta aos pobres e aos negros nas redondezas da capital federal – algo que pode ser estendido para todo o país. É uma obra forte, que provocou catarse coletiva no público de Tiradentes e certamente será ainda muito comentada nos próximos meses.

Já o filme de Uchoa foi o primeiro a ser exibido na Mostra Aurora (leia crítica aqui) e teve o seu impacto inicial confirmado dia após dia, principalmente quando comparado aos outros longas exibidos na competição até o último dia. A ficcionalização da vida de jovens da periferia da cidade mineira de Contagem, que foram filmados ao longo de cinco anos e participaram da feitura do roteiro, é extremamente curiosa e original, e consegue construir um discurso narrativo no qual a violência fica implícita no ambiente e nas ações dos personagens, ao contrário do que outros filmes brasileiros costumam fazer.    

Meu principal problema com a obra de Uchoa diz respeito à solução encontrada para finalizar o filme. A sensação de veracidade e de improviso de A Vizinhança do Tigre é tão grande ao longo da projeção que, quando chegamos perto do final, o caminho que o roteiro trilha para um dos personagens parece forçado e pouco consistente para amarrar todas as pontas de um filme tão potente. É claro que essa impressão pode ser mudada após uma revisão, mas foi essa a sensação que tive após assistir o filme em Tiradentes.

Em relação aos curtas-metragens, acabei perdendo a primeira sessão dos concorrentes à Mostra Foco, e por isso não posso opinar sobre a validade dos prêmios. Curiosamente, porém, os curtas dos quais mais tinha gostado foram premiados pelo Júri da Crítica.

Eleito como o melhor filme, o paulista E, de Alexandre Wahrhaftig, Helena Ungaretti e Miguel Antunes Ramos, faz uma abordagem curiosa sobre a mudança urbanística da cidade de São Paulo ao enfocar as construções de estacionamentos em locais que antes serviam para a circulação de pessoas, como uma sala de cinema. A especulação imobiliária, tão discutida no recente cinema pernambucano, é um dos alvos críticos do filme. Já Coice No Peito, de Renan Rovida, recebeu menção honrosa pelo sensível trabalho a respeito de um pai que acaba de perder um filho.

Fora da competição, outros destaques foram os filmes Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro; Depois da Chuva, de Cláudio Marques e Marília Hughes; e O Homem das Multidões, de Marcelo Gomes e Cao Guimarães, todos eles exibidos previamente em outros festivais.

O público de São Paulo poderá assistir a alguns desses filmes entre os próximos dias 24 e 30 de março, quando o Cinesesc exibirá, pelo segundo ano consecutivo, uma seleção com os destaques do evento mineiro.

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