No último dia da Mostra Aurora – quando A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa, se mantinha com sobras como o melhor filme da seção competitiva da 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes -, um terremoto atendendo pelo nome de Branco Sai Preto Fica abalou as estruturas do festival e se tornou o centro das atenções. O novo trabalho de Adirley Queirós tem uma força e uma inventividade que deveriam transformá-lo em um importante objeto de estudo dentro da filmografia recente do país.

Assim como vários outros filmes dessa mostra, Branco Sai… não atende às classificações clássicas de ficção ou documentário que aparecem, por exemplo, no catálogo do evento, no qual a obra é apontada como documental. O longa-metragem tem como mérito justamente a subversão dos rótulos e das expectativas do espectador, conseguindo fazer isso sem cair na transgressão vã.

Na primeira cena do filme vemos um cadeirante chegar à sua casa, ligar o microfone de uma espécie de rádio pirata e começar a falar com desenvoltura sobre uma situação ocorrida no passado. Algumas imagens de fotos antigas, somadas às inserções de sons de sirenes e helicópteros, são suficientes para entendermos o peso histórico daquela situação: uma intervenção policial durante um baile black no Distrito Federal dos anos 80.

A potência da sequência inicial já é enorme. As grades que cercam o apartamento de Marquim servem como metáfora para uma prisão que ele vivencia desde que se viu obrigado a andar de cadeira de rodas. Mesmo sem mostrar inicialmente as imagens de entrevistas, ouvimos em off os comentários do personagem central e de uma outra pessoa que, percebemos, também está envolvida com o incidente no baile black. Há mais um homem que surge em um contêiner e demora um pouco para ter a sua função narrativa revelada.

O que poderíamos esperar, então, seria a sequência de um documentário que, mesmo abrindo mão do formato tradicional de entrevistas e imagens de apoio, manteria seu conteúdo ligado à ocorrência levantada inicialmente. Na tela, porém, o que se vê é uma obra que toma um caminho completamente diferente.

Sem falar muito sobre os desdobramentos tomados – para não estragar a experiência do futuro espectador – é possível dizer que o caminho encontrado pelo diretor é o da ficcionalização a partir de histórias e personagens reais. Um exemplo disso é o tema da discriminação racial – visto por muitos brasileiros como algo do passado – que ganha no filme uma lente de aumento que transforma a separação invisível (geográfica, trabalhista, etc.) de negros em apartheid institucionalizado. Se a visão de presente do filme é assim, imagine como será a sua ideia de futuro…

O trabalho de Adirley Queirós é fundamental para que a proposta ousada do filme não resulte em firulas narrativas enfraquecedoras. Há uma cadência documental e uma ambientação realista que, por paradoxo, acentuam o mal-estar advindo de um cotidiano embrutecedor. O diretor parece entender que, quanto mais aquelas pessoas e lugares se assemelhem ao nosso mundo (local onde efetivamente estão), maior será o desconforto e a identificação do espectador com aquelas dificuldades.

É possível citar uma aproximação da obra com os últimos filmes de Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios e Django Livre) no que se refere a uma reescrita da História que resulta em uma catarse coletiva. A cena que engloba esse aspecto provocou muitos aplausos na sessão do filme em Tiradentes.    

Assim como seu título, que adquire um significado no começo da projeção e pode ser interpretado de forma completamente diferente após o final, Branco Sai Preto Fica é um filme que provoca diversas camadas de reflexão, que certamente não chegam perto de serem esgotadas em uma primeira visão. O que posso afirmar agora, porém, é que meu primeiro contato com o longa de Adirley Queirós foi extremamente impactante.

Nota: 8,5/10 (Ótimo)

 

* Filme visto na 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes