Reflexão sobre a criação artística, abrangência na seleção e visibilidade a filmes menos celebrados é o que promete o curador Pedro Butcher para a 9ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte, que ocorre entre os dias 15 e 22 de outubro. Jornalista e crítico de cinema, Pedro repete a dupla de curadores do ano passado ao fazer par com o professor e pesquisador Francis Vogner dos Reis.

Em conversa com o Cine Festivais, ele contou detalhes do processo de seleção, esclareceu critérios e falou sobre as sensações de quem precisa ver muitos filmes e achar uma identidade para a mostra: “A CineBH é um festival de buscar coisas, de sair catando. Não vou negar que você fica meio saturado, mas há filmes que vejo e penso: ‘ah, esse eu quero de qualquer jeito!’”.

Nesse aspecto, um dos títulos mais importantes da busca foi Horas de Museu (foto), filme austríaco dirigido pelo cineasta afegão Jem Cohen. A trama se passa no Museu de História da Arte de Viena, onde o vigilante Johann conhece a estrangeira Anne.

“Acho que a partir do amor que tivemos pelo filme a seleção foi se delineando. Fomos assistindo aos longas e percebendo que vários deles dialogavam com outras artes, muitas vezes abordando lugares institucionais da cultura: museus, escolas, cinematecas, universidades. O conjunto acabou trazendo uma reflexão sobre o papel das artes hoje e uma visão do cinema enquanto arte agregadora, por sintetizar todas as outras. Acho que podemos pensar o cinema assim”, explica Pedro.

Outros exemplos de filmes selecionados que tratam diretamente do fazer artístico são o documentário americano História Natural, de James Benning, também sobre um museu; o espanhol Academia das Musas, de José Luis Guerín, que aborda o ambiente universitário; e o argentino A Princesa da França, de Matías Piñeiro, que narra o retorno de uma companhia teatral à ativa.

Unida ao redor do tema “Criação e Resistência: O Cinema Contra a Barbárie”, a dupla de curadores se coloca contra o que define como “mercado do cinema de autor”, quando nomes de cineastas badalados ajudam a promover o festival, numa relação de trocas comerciais. “Da mesma forma que existe o fetiche pelo blockbuster, pelo filme que faz sucesso e consegue alcançar o público, no universo dos festivais há um certo fetiche pelo autor”, opina.

Uma das subversões da Mostra CineBH está na data dos filmes. Entre os longas da Mostra Contemporânea, a maioria das produções é recente, mas algumas chegam ao Brasil com atraso de três ou quatro anos.

“Não nos preocupamos muito com data, não é necessário que os títulos sejam absolutamente atuais, nem que sejam inéditos. A gente procura dar visibilidade a obras que, por algum motivo, passaram batidas mesmo em festivais alternativos do chamado ‘Cinema de Arte’”, esclarece o curador. 

Escudo de Palha, de Takashi Miike, filme produzido pela Warner Bros. japonesa, é um desses casos. “Ouvimos falar muito mal dele quando esteve na competição de Cannes em 2013. Mas Francis e eu achamos que o filme tem uma potência incrível. Ele também está ali para mostrar que a indústria pode ser interessante”, revela Pedro.

Já o francês País Bárbaro (2013), de Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi, surpreendeu a curadoria por ainda não ter sido exibido no país. Usando imagens de arquivo, o documentário explora a presença de Benito Mussolini na África para refletir sobre fascismo e colonialismo.

 

Diálogo com o presente e o passado

A CineBH convive, há 6 anos, com o Brasil CineMundi – International Coproduction Meeting, evento facilitador de parcerias de coprodução, meetings, debates e estudos de caso. A diretora Anita Rocha da Silveira participou do CineMundi em 2012, com o projeto de longa Mate-me por Favor. Realizado, o filme já foi selecionado para o Festival de Veneza e abocanhou o prêmio de Melhor Direção no Festival do Rio. Agora, volta à Belo Horizonte para abrir a mostra. “A ideia é que o CineMundi e o CineBH conversem. Não significa que teríamos condições de montar um festival só a partir das coproduções, mas a conexão é importante”, diz Pedro.

Para ele, a diretora argentina Lucrecia Martel, homenageada do evento, também faz essa ponte: “Lucrecia estar voltando a filmar depois de anos justamente em uma coprodução com o Brasil é uma coincidência muito feliz. Como o festival é muito frequentado por jovens autores e produtores, a ideia é que eles possam aproveitar o programa intensivo de debates e diálogos com esses cineastas. Lucrecia está encantada com os atores brasileiros, por exemplo”.

Outra maneira de aparelhar o repertório cultural do cinéfilo e dos jovens cineastas é através da mostra Diálogos Históricos, que trará obras mais antigas em sessões acompanhadas por palestras. “Acho que, em geral, falta perspectiva histórica. Parece que os filmes não nasceram hoje e não existe experiência anterior. Então vamos exibir filmes do passado, mas que estão muito vivos. Em vários casos, eles terão relação com filmes da Mostra Contemporânea”, explica Pedro.

Quando perguntado sobre o que espera da reação do público que frequentar cada uma das sessões da CineBH, o curador vai direto ao ponto: “Eu espero que aconteça com o público o que acontecia comigo. Em alguma sessão, eu era completamente surpreendido por algum filme que me mostrava que o cinema também podia ser aquilo.”

Mais informações sobre a 9ª CineBH podem ser obtidas em seu site oficial.

 

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