Assim como na equipe de curtas, o processo de programação de longas-metragens do 6º Olhar de Cinema – que acontece de hoje (7) até o dia 15 em Curitiba – contou com dois novos membros: Aaron Cutler e Eduardo Valente.

Aaron realizou recentemente, em parceria com Mariana Shellard, a curadoria da mostra Cine Sin Limites, dedicada a artistas de vanguarda do cinema experimental argentino; Eduardo assumiu no ano passado a curadoria do Festival de Brasília, e também contribui com outros eventos, como o Festival Guarnicê de Cinema. Completa a equipe Antônio Junior, um dos criadores do Olhar de Cinema e atual diretor de programação do festival.

Na entrevista a seguir, realizada por e-mail, os membros da equipe de programação de longas-metragens do 6º Olhar de Cinema falam sobre os caminhos traçados para esta edição.

 

Cine Festivais: Acompanhando o Olhar de Cinema como espectadores em outras edições, que tipo de perfil curatorial vocês entendem que o festival conseguiu construir em sua trajetória até aqui, comparativamente a outros eventos do tipo no País? Que tipo de mudanças o acréscimo de vocês à equipe de longas traz à concepção do evento?

Eduardo Valente: Estive três vezes no Olhar antes deste ano, mas nas duas primeiras estava ainda trabalhando na Ancine (Agência Nacional do Cinema), e passei bem pouco tempo. Pude perceber a força da proposta do evento na qualidade dos debates e dos convidados internacionais presentes, além de conhecer o trabalho do Gustavo Beck e sua seriedade. Fiz vários elogios públicos em redes sociais e afins por acreditar que era um evento realmente diferente no panorama nacional.

Ano passado fui jurado na mostra Novos Olhares, junto com dois grandes nomes lá de fora (Dennis Lim e Boris Nelepo), e aí pude realmente acompanhar uma edição de perto, reforçando a impressão anterior. Creio que a conexão entre mostras históricas, filmes internacionais e brasileiros é bastante única na maneira como o Olhar as organiza.

Até por isso, foi com alegria, mas também com um senso de responsabilidade grande, que recebi o convite do Antônio para trabalhar na programação do Olhar, pois apesar de ter uma prática cinéfila de vida toda, e de crítica e programação em outros momentos, eu não fazia programação de um evento internacional há muito tempo – o que é bem diferente de programar festivais totalmente voltados para o cinema brasileiro. Então para mim foi realmente um processo novo, que me pediu uma reciclagem de olhar e de prática, e nesse sentido o convívio com Aaron e Antônio no processo foi essencial para eu “desenferrujar”.

Digo isso porque é preciso nesse trabalho não só ver os filmes e formar opiniões, mas estar bem informado sobre os realizadores, o que andam fazendo nos últimos anos, o cenário internacional, ainda mais num festival como o Olhar, que propõe um recorte bastante especial. Creio, nesse sentido, que nesse ano mais aprendi e me renovei do que qualquer coisa, e tentei apoiar os colegas com um olhar que se atentou muito ao todo da programação, ao diálogo entre os filmes, à composição das diferentes mostras, etc. Esse meu lado pragmático, para além do cinéfilo, acho que é a marca que eu pude trazer.

Aaron Cutler: Fui para o Olhar de Cinema pela primeira vez em 2014, como crítico para o agora extinto site Fandor Keyframe, boa parte graças aos esforços do ótimo ex-programador do Olhar, Gustavo Beck. Fiquei impressionado com o esforço que vi do festival para trazer descobrimentos e novidades de boa qualidade para um público, dentro de um contexto organizado o suficiente para poder destacar cada filme de uma maneira ou de outra. Achei a construção cuidadosa do evento rara para qualquer festival, seja no Brasil ou no exterior.

O Antônio Junior me convidou para trabalhar no festival pela primeira vez este ano, após a saída do Gustavo e também do programador William Biagioli. Não me vejo, de maneira nenhuma, como um substituto para estas duas pessoas talentosas. O que trago comigo é o meu gosto pessoal e, também, o autoconhecimento que tenho dele. Isto significa que posso oferecer uma justificativa para a presença de cada longa-metragem na seleção (inclusive aqueles pelos quais não sinto paixão), e também entender porque alguns filmes que amo tinham de ser deixados fora. O resultado, eu acho, é uma seleção não apenas rica, mas também diversa. Esperamos que ela possa agradar a uma grande variedade de gostos.

 

Entre o grande número de festivais brasileiros, são poucos os que, como o Olhar de Cinema, apresentam um perfil mais propositivo, no sentido de exibirem filmes inéditos que apresentem novos autores. Olhando para a lista de longas na mostra competitiva do ano passado, nota-se que poucos daqueles trabalhos tiveram grande circulação em outros festivais brasileiros (no caso dos filmes internacionais isso talvez seja ainda mais evidente). Dentro de um circuito de festivais em que é recorrente a reclamação de que os selecionados “são sempre os mesmos”, este fato pode ser enxergado como algo positivo? O que ele sugere sobre o lugar alcançado pelo Olhar de Cinema nestes seis anos de festival?

Antônio Junior: Todo mundo ganha com o ineditismo. Para os espectadores, existe a oportunidade não apenas de assistir a bons filmes, mas também de comparecer a eventos históricos. O festival ganha com o aumento de atenção – tanto do público, quanto da imprensa – que o ineditismo inevitavelmente atrai. E, também, os filmes e seus realizadores ganham com o aumento de oportunidades para estrear uma obra dentro de um contexto privilegiado, e assim atrair atenção que pode estimular interesse em futuras exibições do filme.

Uma reclamação comum sobre ineditismo é que a qualidade de uma seleção sofre por sua causa. No nosso caso, os programadores trabalham para buscar filmes de qualidade em um grande número de lugares. Se você for atentar para a seleção geral de longas-metragens do Olhar de Cinema neste ano, por exemplo, você vai encontrar filmes que estrearam em Berlim (Forum e Generation), Locarno, Roterdã, Toronto e Veneza, mas também estreias de Busan, Cinéma du Réel, CPH:DOX, DokLeipzig, FICUNAM, FICValdivia, FIDMarseille, IDFA e Visións du Réel, entre outros festivais estrangeiros, junto com estreias mundiais.

A política de ineditismo no Olhar de Cinema e o olhar expandido que ela exige de seus programadores também torna mais viável uma diversidade de expressões na seleção. Por exemplo, os seis longas-metragens brasileiros nas mostras competitivas do festival (quatro estreias mundiais e duas estreias nacionais) já compartilham entre si uma variedade de abordagens entre os gêneros de ficção, documentário e experimental, com todos estes tipos de gestos sendo privilegiados igualmente pelos olhos dos organizadores do festival. Dois dos seis filmes são dirigidos por mulheres, e mais três deles são dirigidos em parceria entre mulheres e homens. O único dos seis que foi dirigido exclusivamente por um homem trata de um tema pouco visível no cinema contemporâneo – o lugar da religião organizada na vida diária – de uma maneira instigante. O ineditismo nos ajudou a descobrir e selecionar estes filmes, e a seleção é mais rica com a presença deles.

Ineditismo ajuda a atrair atenção para os outros filmes também. Levando em consideração a seleção brasileira do festival como um exemplo novamente, podemos ver dois longas brasileiros recentes que estrearam em outros festivais no País e que agora ocupam lugares de honra na mostra Exibições Especiais (Modo de Produção, de Dea Ferraz, e Rifle, de Davi Pretto). Mais um está destacado merecidamente como o Filme de Encerramento (Baronesa, de Juliana Antunes). Celebramos todos estes filmes no festival, e queremos mostrar para o mundo que eles merecem continuar a ser celebrados após suas sessões aqui.

São mais filmes bons sendo feitos hoje em dia do que em qualquer outro momento da história do cinema até agora, e, junto com eles, são mais espaços brasileiros surgindo com a capacidade de mostrá-los, mesmo com as complicações financeiras e sociopolíticas do nosso momento atual. Esperamos então que todos os filmes que passem no Olhar de Cinema este ano – seja lá qual for seu país – não sejam exibidos apenas aqui, mas que eles também possam estar em outros espaços brasileiros. Cada sessão de cada filme no Olhar de Cinema faz parte de uma conversa que esperamos que outros programadores e exibidores brasileiros possam continuar.

 

Na última Mostra de Tiradentes a inclusão de um filme infantil (Um Filme de Cinema) na seção competitiva de longas causou estranhamento em muita gente e levantou ao menos uma questão que paira por aí: o que seria o cinema infantil autoral? Esta pergunta impactou de alguma forma a criação e a concepção da mostra Pequenos Olhares? Quais tipos de parâmetros nortearam as escolhas desses filmes?

Antônio Junior: A mostra Pequenos Olhares é uma vontade antiga nossa. É uma possibilidade de abrirmos espaço para um outro público estar no festival. Há filmes que poderiam estar na Pequenos Olhares, mas que estão em outras mostras do festival. Para nós, a partir do momento em que acreditávamos que um filme deveria estar no festival, sempre vinha uma indicação da mostra que ele poderia estar.

A Pequenos Olhares é para o público infanto-juvenil. Ela traz temas, questões, personagens que estabelecem um diálogo direto com esse público. Acreditamos na potência desses filmes, como na dos filmes de qualquer outra mostra do festival. Assim, como a Novos Olhares tem por característica trazer um cinema com maior radicalidade em suas propostas estéticas e a Olhar Retrospectivo, trazer a obra de um grande nome do cinema mundial, a Pequenos Olhares é voltada ao público infanto-juvenil. A mostra é composta por um longa-metragem recente e mais três programas de curtas-metragens.

 

Em um post no Facebook, Eduardo Valente relatou uma fala da curadora do DocLisboa, Cintia Gil, sobre como o público daquele festival aumentou quando ela resolveu começar a editar e reescrever as sinopses dos filmes que exibia com a ideia de contar para o espectador o que era o filme. Lendo algumas sinopses dos filmes do Olhar de Cinema, fiquei com a impressão de que houve uma mudança nesse aspecto na edição deste ano, com textos de apresentação mais diretos e inclusive opinativos (“Reha Erdem é um cineasta brilhante”). Houve realmente a implantação de um “novo conceito” na escrita das sinopses? Por que quando se fala em incentivo à formação de público ações tão simples quanto essa são geralmente ignoradas?

Antônio Junior: Foi algo que começamos este ano: fazer sinopses que acreditávamos que poderiam facilitar o contato com o público. Assim, ao invés de termos um texto geral dos filmes de uma mostra, optamos por nos dedicarmos a essas sinopses de cada um dos longas e curtas do festival, porque o nosso maior objetivo é que as pessoas sejam atraídas a assistir esses filmes. Queremos que as pessoas frequentem o festival, e às vezes sinopses de uma linha, lacônicas, não têm apelo com o espectador.

Uma coisa que já havíamos notado das edições anteriores é que, quando um filme está com o trailer disponível, há uma relação direta com o público presente na sessão. Assim, nos esforçamos ao máximo para que os filmes estejam com o trailer. Acreditamos que a sinopse é uma ferramenta a mais para o público se guiar e montar sua programação.

Vale a pena mencionar: para as mostras Foco e Olhar Retrospectivo, a gente usou sinopses preexistentes, com novos textos escritos para o catálogo. Para as outras mostras (Olhares Clássicos e filmes recentes), a guia de programação conta com sinopses dos representantes dos filmes, enquanto o catálogo e o site do Olhar de Cinema contam com sinopses escritas pelos curadores. São informações que se complementam e adicionam algo a mais para o público que está montando sua programação.

Também acreditamos que as sinopses tinham de ser curatoriais por natureza, quer dizer, elas tinham que ser bem escritas, e também tinham que trazer um olhar para ajudar ao espectador entender não apenas porque o filme está no festival, mas também porque ele deve ser visto dentro do contexto específico em que o festival apresenta.

 

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*A foto acima é do filme Rey, de Niles Atallah, selecionado para a mostra competitiva de longas-metragens do 6º Olhar de Cinema