Em O Prefeito, o ator Nizo Neto, filho de Chico Anysio, interpreta um prefeito que deseja separar a cidade do Rio de Janeiro do resto do Brasil, transformando-na em um país. Dependente de remédios, o personagem se ampara na figura populista de líderes políticos históricos como Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas. Encampa, por exemplo, a ideia de promover a revitalização urbana de uma cidade quebrada e, disposto a sentir a realidade do que está à sua volta, transfere seu gabinete para os escombros da Avenida Perimetral, via expressa elevada do Rio de Janeiro que foi demolida entre 2013 e 2014.

O longa de Bruno Safadi pode ser considerado uma parábola farsesca sobre a gestão pública no Rio de Janeiro (ou no Brasil) e também um vigoroso estudo de personagem. Nizo Neto é um comediante de múltiplas referências, com a fisicalidade dos atores teatrais da velha guarda e o timing próprio do humor popular das esquetes televisivas. Seu personagem é um homem perdido no tempo – e só aí já salta a crítica a figuras provincianas que insistem em habitar a política brasileira -, parece um conde do início do século, com gravata borboleta, bigode e cabelo penteado para trás.

Figurando entre o grotesco, a caricatura política e uma coleção ambulante de excentricidades, o prefeito é a âncora do roteiro, que usa o absurdo para nos provocar a respeito das relações entre o poder instituído, os vícios de nosso sistema representativo e a visão de cidade projetada para o futuro.

Em certo momento, para convencer os governadores e a presidenta a aceitar seu plano separatista, ele oferece ruas e bairros da futura cidade para cada um deles, na clara ilustração da política de favores, representativa do Brasil atual.

Em outras situações, alucina com uma mulher de branco, que chama de Alma Errante, supostamente capaz de lhe soprar os melhores conselhos. Esta inserção alude às superstições e mistérios que vários dos políticos mantêm em sua esfera pessoal – devemos concordar que, às vezes, parece mesmo que alguns são guiados por espíritos do além.

Não sei bem o quanto a ironia institucional proposta por Safadi não está desgastada, mas trata-se de um cinema com recursos estéticos suficientes para propor camadas de abordagens a problemas realmente sérios. E constitui uma resposta formalmente interessante ao desafio de tratar sobre política com humor, num filme com poucos diálogos e adepto de uma série de metáforas visuais.

Nota: 7,0/10 (Bom)

 

* Filme visto na 9ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte

 

O Prefeito também está na programação da 39ª Mostra de São Paulo. Veja abaixo os horários das sessões.

- Dia 24/10 – 21h15 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 2

- Dia 29/10 – 14h – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – AUGUSTA 1

- Dia 03/11 – 19h45 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – AUGUSTA ANEXO 4