A 13ª CineBH começou com uma belíssima homenagem à produtora Filmes de Plástico, seguida da exibição de A Vida Invisível, novo trabalho de Karim Aïnouz. Se em No Coração do Mundo, mais recente longa-metragem do grupo mineiro, Contagem é cantada por MC Papo como o motherfucking Texas – afinal, toda aldeia é um mundo –, no filme de Karim o mundo é o Rio de Janeiro. Um Rio de Janeiro de cores saturadas, de subúrbio rodrigueano, de conflitos além-mar.

A Vida Invisível é um filme de distâncias: distância de tempo (década de 1950 – século XXI), distância de espaços, distância de laços familiares. As cartas trocadas (ou não) entre as irmãs materializam os afastamentos como uma ponte entre tempos e espaços. Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler) são separadas e aproximadas pela condição de ser mulher – neste mundo e em todos os outros.

O confessionalismo da escrita epistolar – forma consagrada por nossos irmãos portugueses, personagens basilares do livro de Martha Batalha no qual o roteiro se baseia – atravessa o oceano imaginário que separa as personagens ao mesmo tempo que conversa ao pé do ouvido com os espectadores de 2019. Não há o encontro, nem de corpos, nem de corações, a não ser em um futuro virtual.

A distância também marca uma cisão. Em determinado momento, um esperado reencontro passa a não ser mais possível neste mundo, e então a relação com o melodrama se torna mais intensa. As cores suburbanas se amainam, a câmera se fixa levemente e as personagens se encaminham para a invisibilidade, cada uma a sua maneira, para reaparecerem na dança final da juventude perdida.

O encontro, ou o não encontro, torna-se fundamental também para pensarmos de que formas este universo tão carioca, tão pós-guerra, tão minuciosamente figurado nas paredes e costumes da época, chega aos nossos olhos. As molduras não mentem: estamos diante de quadros. A textura pictórica das imagens frequentemente recortadas por portas, janelas, espelhos e frestas corre o risco de fixar os destinos das personagens em sua década. Se isso não ocorre é porque, para além de convocar lamentações diante dos infortúnios de uma época, A Vida Invisível nos convida à universalidade do tema, em boa medida graças às atualizações das personagens.

Ouviu-se na repercussão pós-sessão na CineBH que no livro no qual se inspira o roteiro as reações de enfrentamento de Eurídice, por exemplo, seriam impensáveis no corpo da personagem da obra escrita. Nesta, a protagonista resiste às opressões através do amor aos projetos frustrados; no filme, as reações de Eurídice são mais frontais e explícitas, com direito a ataques de raiva e faíscas de manipulação. Em entrevistas, as atrizes sublinham a recomendação de Aïnouz para não lerem o livro antes das filmagens; o feliz resultado são quadros de época com movimentos e timbres atuais. É aí que Karim Aïnouz revisita O Céu de Suely (2008) sob as cores de Nelson Rodrigues.