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“Meus filmes todos já são de pandemia”: uma conversa sobre Eu, Empresa

05/02/21 às 18:39 Atualizado em 25/08/21 as 10:34
“Meus filmes todos já são de pandemia”: uma conversa sobre Eu, Empresa

Já presentes em curtas-metragens como Feio, Velho e Ruim, Mamata e Joderismo, as desventuras de Joder, personagem criado e interpretado por Marcus Curvelo, ganham um novo capítulo em Eu, Empresa, filme que integrou a Mostra Aurora na recém-terminada 24ª Mostra de Tiradentes. Dirigido em dupla por Curvelo e Leon Sampaio (do documental Gente Bonita), o longa-metragem utiliza o arquétipo do esquerdomacho solitário, perdido em busca de um sucesso que nem sabe bem o que é, como elo com um mundo do trabalho precarizado, num leque que engloba desde youtubers e instagramers até motoristas de Uber e entregadores de aplicativo.

A informalidade permeia o filme desde a cena inicial, na qual o personagem faz uma chacota virtual com o patrão que acaba de demiti-lo. Sem oportunidades decentes de trabalho, Joder cria um canal no Youtube para tentar monetizar suas pequenas histórias de fracasso, enquanto presta serviços precarizados para empresas estrangeiras cujos patrões são hologramas inalcançáveis.

“Acho que Joder é um personagem que não faz esse processo de amadurecimento pleno, que não tem um olhar em perspectiva, que não tem essa dimensão histórica. E aí acho que isso é muito sintomático desta geração millenial da qual fazemos parte também, e o interesse em falar de Joder, em encenar esse personagem, encenar essas bobagens de Joder, vem também porque a gente se reconhece aí, sabe? Tem um lugar de amadurecimento da nossa geração que acho que foi muito tardio em relação a gerações anteriores”, comenta Leon.

Em entrevista ao Cine Festivais, os diretores discorreram sobre diversos pontos do processo de criação de Eu, Empresa.

Cine Festivais: Pra começar eu gostaria de voltar ao nascimento do Joder, que data de 2015, no curta Feio, Velho e Ruim. Aquele filme começa com uma voz off que enumera uma série de qualidades e de gostos (“eu sei nadar, eu sei desenhar, eu gosto de cachorro”), e para mim essa é uma fala que carrega uma ambivalência grande, porque ela poderia fazer parte tanto de uma entrevista de emprego, quanto de um post na rede social ou de um perfil em um aplicativo de relacionamentos. Acho que essas fronteiras nubladas entre vida profissional e vida afetiva perpassam os outros curtas com Joder (Mamata, Joderismo) e chegam agora ao Eu, Empresa…

Marcus Curvelo: É, cara. Lembro que quando fiz o Feio, Velho e Ruim acho que estava começando a estourar o Tinder… Dá para pensar como tudo foi se misturando ainda mais nos últimos anos. Uma das coisas que a gente falava no processo de roteiro – eu, Leon (Leon Sampaio), Camila (Camila Gregório) e Amanda (Amanda Devulsky) – é que “as empresas estão se comportando como pessoas e as pessoas como empresas”, alguém trouxe essa frase. E como você falou, esse texto do Feio, Velho e Ruim serviria para vários destinos: entrevista de trabalho, uma paquera, bio de Facebook e Instagram, uma apresentação de um influencer… É doido como nasce o Joder ali, né, sempre com essa visão sobre si mesmo partindo de uma coisa autoirônica. Pensando assim, é muito natural ele ter sido inserido nesse macromundo de empreendedores de si mesmos, influencers, trabalhadores precarizados, porque a maneira como o personagem se apresentou desde o começo sempre passou por essas ambiguidades. De querer se vender de uma forma que não necessariamente ele é, mas que você não sabe também se ele está falando sério, tentando ser legal, tentando se adequar, ou tá tirando sarro daquilo. Acho que é um personagem muito perdido, sem lugar mesmo, muito solitário.

Entendo a primeira fala do Feio, Velho e Ruim como um autoelogio, uma tentativa de “vender o seu eu”, e por outro lado o filme termina com a autodepreciação, com Joder dizendo que não é uma pessoa boa. Esse caminho me parece se relacionar muito com o lugar do artista, né? Se a gente pensar esse campo mais restrito do cinema independente, do circuito de festivais, tem uma linha muito tênue entre ser selecionado/premiado/elogiado e não ser selecionado/receber críticas negativas/desaparecer do circuito. Esse pêndulo entre o autoelogio e a autodepreciação persiste nos outros filmes e é trazido também para o Eu, Empresa. Então gostaria que vocês comentassem essa questão sob dois aspectos: o desenvolvimento do personagem no filme e a relação de vocês com esse universo artístico.

Marcus: Pois é. No debate online do filme em Tiradentes teve uma parte em que a Amanda (Amanda Devulsky, roteirista) falou como o Marcus também usava isso. Virou uma persona só, Joder/Marcus. Acho que ela se referiu especificamente ao Festival de Brasília de 2017, com o Mamata. Eu estava no palco interpretando o Joder mesmo, fazendo as piadas. “Tô sem dinheiro, vendi ingresso do show”, umas coisas assim. E você falou dessa depreciação e desse elogio, e cara, lembro que nesse período rolou, acho que ainda rola, e no longa a gente quis explorar muito essa confusão entre eu e o personagem. No Feio, Velho e Ruim essa delimitação estava muito inconsciente, era um pouco indivisível. No Mamata acho que essa coisa do deslocamento do personagem ficou um pouco mais clara, que foi quando a Amanda começou a colaborar comigo. E aí foi uma das questões que a gente trouxe pro Eu, Empresa, principalmente na cena da coach, no começo, em que ela me chama de Marcus. Tem outras questões que guiam a narrativa, não é exatamente esse o conflito, mas a gente queria pontuar que era o Marcus fazendo o Joder, e como essa dualidade, essa confusão, ajudava e atrapalhava ele. O Marcus do filme, que não é o Marcus da vida real.

Leon Sampaio: É, eu tendo a concordar com um paralelo do mundo do cinema com o mundo das redes mesmo, com essa nova configuração do que é ser artista, artista capitalista hoje. Desde esse processo de performance em festivais, do que você tem que falar, como se portar… Essa doideira de aprovação, de ficar muito afetado por isso, pela impressão do que um crítico falou. E ontem foi bem doida a reação ao filme. Estrear um filme nesse contexto é uma grande maluquice, porque é isso… você não tá numa sala de cinema, você não tá vendo como as pessoas estão reagindo, e aí as reações vêm a partir das redes – alguém te compartilhando, alguém comentando alguma coisa ou outra. Então você não tem muito o termômetro da coisa, mas acaba sabendo de alguma forma. E aí no grupo da gente a Marisa (Marisa Merlo, produtora) falou assim: “ah, vou dar uma olhada no Letterboxd [rede social de cinéfilos]” Eu nunca tinha vivido essa sensação, de acompanhar a pontuação do filme, ver quem assistiu… Isso foi muito louco, essa lógica de produtividade, de pontuação, que é algo que tá dentro desse projeto neoliberal de “quanto mais você trabalha, mais você é valorizado, mais você é remunerado”… Então viver essa experiência de olhar para a pontuação do filme foi uma coisa muito doida também, sabe? E isso é um dos elementos que eu acho que tem muito paralelo sim com a vida de Joder, com a vida que a gente tem levado.

E sobre a pergunta anterior, fiquei pensando um pouco sobre essa ideia dos relatos de si. De alguma forma eles sempre existiram, a gente sempre foi interpelado a falar quem somos nós. Isso é algo que está dado na história das relações humanas. Mas na internet eu lembro que quando eu comecei, por exemplo, a ter conta no Orkut, nessas redes sociais, sempre tinha dentro da interface uma caixinha de “quem é você?”, “conte sobre você”. Isso é algo que só se acentuou, que está em todo lugar hoje. Essas exigências de que você fale sobre você – e hoje, nesse regime de verdade, de uma maneira que seja “autêntica”, “verdadeira”.

Pensando sobre isso, a grande onda de Joder – que é um personagem que me interessa e que tive o privilégio e prazer de construir pelo menos as nuances e situações nesse filme com Marcus – é a de pensar o quanto esse personagem é uma impossibilidade, né? Um personagem de… como eu posso dizer? Tô tentando responder um pouco a pergunta da Maria (Maria Bogado, crítica convidada do debate de Eu, Empresa na 24ª Mostra de Tiradentes): quais são as alianças possíveis a partir de Joder? Eu realmente não acho que existam alianças possíveis a partir desse personagem, porque ele é um personagem bastante alienado. Acho que se há uma aliança possível a partir de Joder é a aliança com Marcus. É Marcus tomando consciência dessas ações do personagem. Porque acho que Joder é a impossibilidade. É o cara que não é patrão, mas também não é um trabalhador clássico, é um personagem de classe média. E é um cara que não tem tanta consciência de classe, que não fez esse processo de elaboração sobre si, que vive nesse limbo, nessa ideia imediatista do sucesso. Ele entende que o fracasso dele é a possibilidade do sucesso, mas esse fracasso também tem um limite, e é por isso que eu entendo ele enquanto impossibilidade.

Você falou dessa ideia imediatista que o personagem tem, e me lembrei da cena da conversa com a coach, logo no início, em que ela fala para o Marcus que “não existe passado, só existe presente e futuro”. Acho que sem essa percepção de passado a consciência (de classe, de história) se torna justamente uma impossibilidade. Partindo disso, queria lembrar de um gesto do Feio, Velho e Ruim, de trazer o relato de Joder junto a fotos dele quando criança. Penso que tem um lado um tanto criança que permanece nesse personagem ainda no Eu, Empresa, sendo que a falta desse amadurecimento corrobora o imediatismo que você comenta…

Leon: Concordo demais. Acho que Joder é um personagem que não faz esse processo de amadurecimento pleno, que não tem um olhar em perspectiva, que não tem essa dimensão histórica. E aí acho que isso é muito sintomático desta geração millenial da qual fazemos parte também, e o interesse em falar de Joder, em encenar esse personagem, encenar essas bobagens de Joder, vem também porque a gente se reconhece aí, sabe? Tem um lugar de amadurecimento da nossa geração que acho que foi muito tardio em relação a gerações anteriores. Essa coisa de estar na casa dos pais até os 30. Uma série de privilégios de classe média que eu acho que são pouco abordados no cinema brasileiro. Tem um lugar que é de esquiva desses problemas, é um lugar vergonhoso. Falar das suas fragilidades é um lugar que sempre é muito tenso, falar do quanto a gente está comprometido com certas coisas que a gente não concorda. Então acho que é isso, tô de acordo contigo sim.

Marcus: É, o Joder é um personagem que tá só sendo empurrado e empurrando pra frente… “Consiga coisas, consiga um trabalho, consiga um job”. Não tem uma reflexão sobre o que ele está vivendo, de por que ele foi parar ali, de por que o contexto ao redor dele é desse jeito. Eu sinto muito isso no personagem e nesse modelo empreendedor. E inclusive muito desses vídeos com os quais a gente é bombardeado no Youtube têm aquelas chamadas super rápidas: “não desliga não! Você que tá aí desempregado, vou te mostrar! Eu ganho não sei quantos mil reais por dia fazendo day trade!” E tipo assim: “esqueça tudo o que fez até agora, esqueça seu fracasso” E eu sinto que muito dessa falta de reflexão de pessoas que trabalham nesse modo, e do próprio personagem no filme, tem a ver com isso. “Não reflita sobre o que tá dando errado, só vamos pra frente! Progresso!” Sabe? Tem muito disso.

Leon: Tem também uma ideia de ausência de ócio. A gente não vê o personagem em momentos de calmaria. Quase que não tem tempo morto no filme. E isso tá bem articulado com essa geração twitteira. Joder é um pouco a caricatura desse fenômeno. Eu fiquei pensando muito nas trocas de áudios dele com um amigo que dá um textão nele, fala que isso é vídeo de “classe média sofre”, white people problems, e o Joder responde de uma forma muito reativa. Isso está totalmente articulado à ideia do imediatismo dessa geração, de ter que responder em seguida, num tempo célere. É um personagem que vive acelerado. Dentro dessa temporalidade do capitalismo ele está em completa aderência. Essa ausência de ócio resulta em uma falta de reflexão; ele não se permite. E por não se permitir isso é que não se questiona também o que é fracasso e o que é sucesso. Por isso que isso é tão borrado. E uma das coisas que nos moveu nesse filme era questionar um pouco isso: que sucesso é esse?

Marcus: Pegando esse gancho da falta de ócio, uma coisa que nós quatro conversamos muito no processo do roteiro foi como todas as relações dele estariam de certa forma mediadas por uma ideia de trabalho. Todas as relações têm um quê de venda, de troca, que pode ser comercial. Até aquela cena que pode ser lida como uma paquera, com uma menina gringa, é seguida por uma queixa em relação ao chuveiro, ele tá trabalhando para ela no apartamento. O próprio Felipe Pedrosa, o cara da empresa que manda um áudio super carinhoso falando que não pode mais emprestar a câmera. O lance do tripé, de mediar esse aluguel de graça pela brodagem, mas ao mesmo tempo o cara virou terraplanista, então tem que fazer concessões para conseguir as coisas… Isso também tá dentro desse espectro do não-ócio, da não-reflexão. Que também vem da falta de relações pautadas pela amizade, né? Sem interesse, sem troca, sem like.

Isso foi uma coisa que pautou muito a gente quando estávamos escrevendo com a Camila e a Amanda. De pensar todas as trocas que ele vai ter sendo mediadas pelo trabalho. Inclusive quando ele chega pra conversar com os entregadores de aplicativo é através do canal dele. Ele não chega pra conversar com os caras de boa, para entender. Ele tá filmando, tentando transformar aquilo num produto também. É o tempo todo trabalho. Tinha até uma cena que eu chegava em casa depois do Uber e dormia, e a gente falou “não, não pode ter ele deitado”.

O Leon citou essa cena em que o amigo de Joder manda um áudio detonando ele, falando “do que você tá reclamando?”, “isso é white people problems”. Acho que tem dois ou três momentos no filme em que há uma interlocução com esse amigo, e como vocês falaram bastante no debate da mostra, o Joder se situa em vários entrelugares. Ele não é um trabalhador típico, mas também não é um cara rico. Como você coloca no Joderismo, a própria questão racial também se coloca num certo entrelugar. E aí fico pensando até que ponto esse recurso estilístico, de roteiro, tem a ver com a repercussão de outros filmes, como Mamata e Joderismo.

Marcus: Desde o Mamata houve vozes dissidentes, claro. No Festival de Brasília a gente teve uma recepção muito boa, mas até durante o festival, e sobretudo depois, houve algumas coisas desse tipo, que são: “esse cara aí só tá reclamando e fazendo merda”, “qual é a desse filme?”. Uma pessoa chegou a me perguntar: “por que você faz esse filme com esse cara fazendo merda? Qual é o sentido desse filme?”. Outra pessoa já falou: “mas esse cara tem o privilégio de ser idiota e fazer merda, uma pessoa com menos chances na vida não tem a possibilidade de dormir até de tarde, de fazer besteira…” Mas por outro lado também tem esse não-lugar do Joder. Principalmente no Joderismo foi uma coisa de tentar falar “ok, ele é babaca mesmo, de fato, ele é ignorante, mas também ele não tá nesse outro lugar de super privilégio, ele tá num entrelugar mesmo”. O que eu acho que a gente trouxe pra esse novo filme foi um pouco disso: beleza, ele realmente tem carro, trabalha de casa, computadorzinho, apartamento no Rio Vermelho, mas ao mesmo tempo não tá legal a vida dele. Dizer que não é fudidaço, que não tá caindo na rua e morrendo não quer dizer também que ele tá super feliz e prosperando.

No Eu, Empresa era um filme especificamente sobre trabalho, dinheiro, carreira, sobre se colocar nesse lugar de completa falta de segurança e perspectiva profissional. E isso é muito próximo da gente também, saca? Enquanto artistas, enquanto profissionais autônomos, enquanto pesquisadores… Até professores hoje em dia estão no fim da fila para serem vacinados. Ou seja, é um lugar de desmonte e de precarização muito grande, que abarca um espectro da classe média muito amplo. Mas ao mesmo tempo a gente queria fazer um contraponto [através do personagem do amigo], e falar assim: “a gente sabe que isso vai soar pra muita gente como idiotice”. E beleza. É idiotice até certo ponto também. É idiotice você ir pra praia ficar sofrendo e fazendo stories pedindo trabalho. Realmente ele pode ir pro SineBahia procurar emprego. Mas aí faz parte da performance também.

A coisa desse amigo que manda os áudios também tem um sentido do deboche, de não se levar a sério, que acho que é uma questão muito importante quando se fala de problemas de classe média. Era tirar um sarro disso, e ao mesmo tempo ser triste, porque é triste também, mas a gente sabe que não é o fim do mundo, a gente sabe que existem problemas maiores, a gente sabe que é ridículo até certo ponto, que é privilegiado até certo ponto, mas também é triste, melancólico. Então a gente quis deixar marcada no filme essa voz dissidente.

Leon: Acho que esse contraponto, essa voz dissidente que a gente insere no filme, também parte de um entendimento sobre o nosso público. A quem esse filme está tentando comunicar? Acho que isso é fundamental. Por isso eu reforcei no debate da Mostra sobre o processo do filme, que é fruto de uma série que é destinada a falar sobre jovens empreendedores. Então a gente resolveu fazer um corte [como longa-metragem], e a gente tem muito claro qual é a desse público. E acho que esse contraponto é a nossa possibilidade de ressaltar um pouquinho o que algumas pessoas, sobretudo da nossa geração, não compreendem. Tal qual Joder, que não tem tanta perspectiva histórica, tá dentro de uma insuficiência crítica mesmo. E acho que a maneira como a gente insere também é importante. É o textão do Twitter, não é o texto acadêmico. Então tem também um lugar de modular essa crítica. E bom, não sei se é suficiente no filme, se isso vai responder a todo espectador, mas é parte do nosso gesto.

E sobre o que Marcus falou aí, acho que todos nós temos algo do bobo, todos nós temos algo de imbecis, de idiotas mesmo. Algo de contraditório. Me incomoda muito esse lugar idealizado de que a gente não faz coisas equivocadas. Falar desse personagem é um pouco olhar pra gente, olhar pra nossa geração, pros nossos equívocos. É uma tentativa de colocar isso em primeiro plano e fazer com que a gente olhe com mais atenção, sabe?

Queria fazer uma pergunta voltada para o Leon, pensando como ele entra no projeto, nesse sentido de já haver um histórico do personagem Joder. Na sua carreira anterior como diretor, por exemplo no longa documental Gente Bonita, você retrata um modo de vida que pode ser entendido por um determinado público como algo frívolo, caricatural, etc. Ou seja, um documentário que caminha para a ficção, nem que seja para o absurdo do real. E nessa parceria com o Marcus no Eu, Empresa parece que o trajeto é contrário, adentrando esse personagem ficcional que vai levantar questões conjunturais do seu entorno, como o tema da precarização do trabalho. Como foi para você traçar esse novo caminho?

Leon: Bom, eu comentei no debate sobre uma certa vocação minha para um olhar um tanto sociológico. É algo que vem do meu lugar de formação, e também por estar hoje na pesquisa, na academia. Eu tendo a olhar muito para os fenômenos de uma forma macro, panorâmica, e já há algum tempo venho tentando atenuar um pouco esse gesto diagnosticante das coisas para me deter mais nas experiências. No meu trabalho artístico, desde o Gente Bonita venho pensando sobre isso. O argumento do Eu, Empresa nasce como um projeto parecido com o do Gente Bonita, com a ideia de olhar para esse fenômeno [da precarização do trabalho]. E quando eu encontro Marcus, quando a gente começa a trocar muito, percebemos vários interesses em comum, e aí da minha parte tem um processo de me deixar afetar pela experiência. O meu gesto é um recuo em relação a esse ímpeto de falar a respeito de algo estrutural de uma maneira um tanto distanciada. Então procurei uma aproximação com uma esfera mais íntima e de escuta, sobretudo das histórias de Marcus. O filme nasce muito a partir dessa troca, e aí acho que o filme se redesenhou.

E a Amanda (Amanda Devulsky) foi muito fundamental nisso, depois do projeto aprovado, porque teve uma coisa de tentar trazer mais da instância pessoal, da casa, dessa definição do espaço doméstico e do espaço de trabalho. No momento do projeto, quando eu e Marcus estávamos escrevendo, e Marisa (Marisa Merlo) estava colaborando também, a história estava situada mais num campo exterior, de trabalhos fora, e tal. E aí a partir da vivência de Marcus, das histórias que ele foi trazendo… por exemplo a ideia da EagleCorp, desse trabalho para um aplicativo de vozes, é algo com o qual Marcus trabalha até hoje. Tem esse patrão invisível, para o qual ele tem que cumprir metas, estar dentro de um regime de produtividade que eu não vivenciei. Eu vivencio em outra esfera, que é a esfera da academia, que também tem essas exigências de produtividade, de prazo, mas que é muito mais flexível do que um trabalho como esse de Marcus.

Então é isso, o meu gesto é mais de olhar para as experiências. E eu acho que o processo do Gente Bonita, o retorno que eu tive do filme, foi o que me marcou e me provocou no sentido de me aproximar mais do fenômeno, sabe? Ainda que ali eu estivesse aproximado também de alguma forma, por ter vivenciado durante muitos anos essas experiências de camarote, Carnaval, então era algo que não era tão distante pra mim.

Marcus: Pois é, no início era um edital para minissérie documental, mas acho que mesmo que não fosse a gente sempre quis trazer experiências minhas de trabalho, freela, esse tipo de coisa. O Ricardo Carvalho, que aparece no começo do filme com um cromaqui atrás dele, eu realmente trabalhei para ele, ele me mandou um e-mail de demissão e falou aquelas palavras que estão no filme: “vou procurar alguém que tenha espírito empreendedor”. Era um tipo de trabalho que ele tinha falado de me dar uma participação nos lucros, mas não tinha carteira assinada, e tal. Também já filmei casamento, já trabalhei em imobiliária, já montei vídeo para pequenas construtoras. E realmente tem um trabalho pela internet para uma empresa que não fica aqui no Brasil, então muitas das situações ali são reais ou então adaptadas pro filme, e a gente sempre quis usar essas situações reais para também ter esse gancho documental. Isso parte desse lugar de autoficção que eu já venho ensaiando há alguns anos, principalmente em parceria com a Amanda.

Pensando nesse trabalho da EagleCorp, queria que vocês falassem dessa solução de roteiro e produção de trazer esse recurso do cromaqui justamente no momento em que vocês estão falando dessa não corporeidade nas relações com essas grandes corporações multinacionais. Além de trazer humor a partir do absurdo, essa cena dialoga com uma certa precariedade de produção que vocês de alguma maneira afirmam ali.

Marcus: Isso partiu de a gente entender que esses patrões invisíveis existem mas são inacessíveis. Tem muito essa coisa do cara que trabalha para aplicativo ou que trabalha em casa, que é totalmente precarizado mas tem esse discurso romantizado de que “eu não tenho chefe, faço os meus horários”. E aí nesse momento em que você precisa de alguém pra conversar, de um feedback, saber por que foi demitido, ou se afastar porque está doente, não se consegue falar. Não tem uma apresentação humana, é tudo formulário. Motorista de Uber quando precisa resolver algum problema é tudo por formulário, link, ele não fala com uma pessoa, sabe? Então partiu dessa percepção de que ele nunca ia encontrar esse chefe. E acaba fazendo sentido com a trajetória do personagem que essa fabulação desse lugar que não existe seja uma construção tosca, kitsch, bizarra, um cromaqui de fotos do Google. Então como não existe esse lugar físico real, vai ser um lugar extremamente tosco, ridículo, porque até então é tudo o que tem sido colado nesse personagem, nessa trajetória.

Leon: O movimento do personagem é ir para essa capital, essa metrópole onde estão várias dessas corporações que lidam com trabalho imaterial, que contratam por exemplo o Marcus para trabalhar como avaliador de voz e anúncios. E são empresas que a gente não sabe onde ficam os escritórios. Então tem aí um lugar de o próprio capital conseguir se auto revestir. E vem daí um pouco a nossa dificuldade para implodir essa estrutura, porque a gente não consegue perceber nem mesmo onde ela está.

Semana passada teve o fenômeno das ações da GameStop, da galera no Reddit, e aí o Elon Musk soltou um tweet falando do Bitcoin… Pô, isso tem total a ver com o filme. Patrão que vai dar cota de emprego por BitCoin. Então tem um lugar aí de um território muito desconhecido pra gente que é usuário, que é servidor dessas grandes corporações; a gente não acessa mesmo.

E queria também comentar sobre a ideia da precariedade da sequência, que acho que se aplica ao filme como um todo. Desde o início a gente tinha muito claro que iríamos fazer um filme bem precário, porque esse é o universo do personagem. É um personagem mambembe, que não tem nem tripé direito pra filmar. Então a gente entendia que a maneira como filmaríamos Joder seria uma maneira que não estivesse num nível tão diferente da maneira como ele filma. Claro que tem uma coisa evidente relacionada a recursos, a equipe. Mas tem também as próprias escolhas estéticas. Por exemplo, é um filme muito ruidoso e a gente quase não teve equipamento de luz. Então era claro desde o princípio do projeto que a gente iria acompanhar essa vida de Joder com um grau de ênfase que fosse um tanto próximo dele. E isso também por conta das dinâmicas de cena, porque muitos dos personagens eram amigos de Marcus, eram pessoas conhecidas, não eram pessoas profissionais. Então tem algo de não engessar a produção, o procedimento de cena, a temperatura, o ambiente.

A gente tá falando dessas grandes corporações, e um tema que é muito atual é a ideia da uberização da vida – cujo termo é constituído a partir do nome de uma empresa. E junto disso veio um fenômeno bem importante, que foi a organização de trabalhadores de aplicativo durante a pandemia, a greve, o Breque dos Apps. A partir disso queria pontuar alguns momentos do Eu, Empresa: no início, de uma forma irônica e idílica, aparece um entregador indo levar um produto para o Joder; num segundo momento tem o Joder falando com o sobrinho dele, que é entregador e professor de skate, e ali ele faz uma brincadeira relativa à possibilidade de um AVC; e num terceiro momento, quando há essa entrada desses depoimentos de entregadores que se encaixam num regime mais documental, a piada anterior sobre o AVC vira um fato real. Então gostaria que vocês comentassem a respeito dessas inflexões, sobretudo no que se refere ao tom ideal para lidar com esse atravessamento do real.

Leon: Nessa sequência que você cita, do encontro com os entregadores, acho que ele vai ali movido por um interesse pelo canal dele, em tentar monetizar o fracasso da galera – que Joder lê como fracasso… Quer dizer, ele lê como sucesso o primo estar fazendo isso, mas ele sabe que ele não é capaz de fazer isso, e realmente acaba indo pra outro caminho depois, de fazer Uber. Mas no geral o que quis dizer é que ele não tá interessado em se deslocar, sabe? Ele não tá interessado em realmente escutar as pessoas ali. Realmente a impressão que eu tenho é que ele tá movido pelo interesse do canal dele, em ter likes. E eu acho que o final é muito explícito nesse sentido. O que esse personagem aprendeu? Ele aprendeu sobre modular esse discurso? Não fazer mais o discurso do fracasso e fazer o discurso da vitória? De alguma forma ele é punido por isso, a gente tenta apontar pra isso.

Marcus: Só para completar em relação a essa sequência: acho que quando a gente encontra esses personagens reais, tanto os motoristas de Uber quanto os entregadores, nós quisemos deixar eles falando. A gente pensou de essa performance Joder/Marcus estar mais contida naqueles momentos. Para além das motivações do personagem com relação ao canal, estávamos pensando em uma estratégia de encenação ali com eles. Acho que se fosse o personagem ali fazendo piada com eles não ficaria num bom tom pra gente.

Os entregadores estão ali falando, e quando falam disso [do trabalhador que teve um AVC em horário de trabalho] falam sério, e depois falam das suas peripécias também, “a bicicleta quebrou e chamaram outro cara”, eu dou risada, o personagem dá risada, mas tá todo mundo ali falando de uma forma também jocosa e tal. Acho que a gente tentou dosar isso. Porque com o meu sobrinho eu tô fazendo graça. Por mais que seja um menino que estava fazendo tudo aquilo realmente, eu coloco ele no meu guarda-chuva social. Mas quando a gente vai para os outros entregadores a gente quis mais ouvir e rir com eles, não ficar fazendo piada.

Leon: Também tem uma gradação, uma diferença de abordagem da nossa câmera para a câmera de Joder.

Uma coisa que está presente nos curtas do Marcus mesmo sem o Joder é uma interlocução com personagens que o espectador não vê, parecido com isso que a gente estava falando das grandes corporações. No Ótimo Amarelo o personagem manda mensagens o tempo todo e a gente nunca vê ou ouve o retorno, no Mamata e no Joderismo isso também aparece, como no caso da ex-namorada, e aí o longa me parece que trazia um desafio de compor esse grupo mais próximo com quem esse personagem tá fazendo essas interlocuções. Queria que vocês comentassem como foi compor esse núcleo duro de outros personagens. Acho que são desafios diferentes.

Marcus: Aí a gente volta pra parte do desejo de pautar relações pelas mediações, sejam elas comerciais, profissionais, ou de pequenos interesses. Mas também são relações permeadas por muita solidão. Tem o Baumga, que mora com ele, é seu fiel escudeiro. Tem a Lu que é essa personagem que chega e vai, viaja muito. A gente pensava muito em um personagem solitário. As pessoas que estão no filme, tirando o Baumga, são muito passageiras e quase escadas para que ele consiga seus objetivos profissionais e comerciais e empreendedores. Não tem uma relação que ele tá ali só tomando uma cerveja falando da vida. Quando a gente estabelece isso com o próprio Baumga, também está atravessado pelo interesse em relação à influencer, e mesmo essa conversa é interrompida pela chegada do turista argentino.

Leon: Acho que o personagem de Baumga é essa escuta de Joder, é essa possibilidade maior de reflexão. Mas por outro lado a primeira conversa deles no filme se dá de forma um tanto complicada, com Joder pedindo um tripé emprestado. Em outros momentos Baumga é essa figura amiga, que vai filmar com ele, que apoia, que escuta. E Baumga é um personagem que é funcionário público, né? O que traz essa ideia de alguém estabilizado, que apesar de estar dividindo apartamento está noivo. Ele é uma espécie de contraponto de Joder em alguma medida.

E gostei muito do que você falou, Marcus, da ideia do personagem solitário, do distanciamento, que é uma dinâmica que a gente pensava na época que concebeu o filme, e hoje em dia a gente vê o quanto isso se consolidou, essa ideia de virtualização das relações. E também pensar como o filme está sendo lançado nesse contexto em que a gente está vivendo essa doideira de estar só, de estar confinado.

Marcus: Eu sinto que esse mundo dos empreendedores de si mesmo é muito solitário, né? Eles estão o tempo todo interagindo com a tela. Tem que estar produzindo conteúdo, tem que estar respondendo story, tem que estar engajando, e isso é solitário pra cacete. Por mais que haja essa sensação de estar falando com muita gente, isso no final gera um esvaziamento doido. E eles se gravam em casa.

E me parece que já em outros filmes havia várias cenas em que o Marcus estava olhando pra tela e a gente não tinha esse contraplano, essa interlocução. Então me parece que o Joder já era um personagem confinado antes mesmo da pandemia. Você acha que faz sentido?

Acho que sim! Recentemente teve até uma amiga que me perguntou se eu tinha feito um “curta de pandemia”, e eu respondi: “mas meus filmes todos já são de pandemia!” (risos)

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