Homenageado da Mostra, Kubrick ganhou mais prestígio desde sua morte, diz crítico

Homenageado da Mostra, Kubrick ganhou mais prestígio desde sua morte, diz crítico

 

Por Adriano Garrett e Ivan Oliveira

 

O fã de Cinema que estiver em São Paulo no mês de outubro terá a oportunidade de aprofundar seu conhecimento sobre um dos grandes diretores da história da Sétima Arte: Stanley Kubrick.

Desde o último dia 11, o Museu da Imagem e do Som (MIS) abriga uma exposição com objetos, fotos e documentos originais das filmagens de Kubrick. O MIS também realiza entre 11 e 17 de outubro uma retrospectiva com 12 filmes do diretor. Em seguida, de 18 a 31 de outubro, a Mostra de São Paulo exibirá todos os filmes do cineasta americano, incluindo os curtas-metragens do início da carreira.

Para falar sobre a obra e o legado de Kubrick, o Cine Festivais realizou uma entrevista com o crítico de cinema Sérgio Rizzo (Valor Econômico e Folha de S. Paulo), que está ministrando neste mês, no MIS, um curso sobre a carreira do cineasta norte-americano.

 

Cine Festivais: Stanley Kubrick é ainda hoje um diretor cultuado pelos cinéfilos. Personagens como Alex, de Laranja Mecânica, ou mesmo o computador Hal 9000, de 2001: Uma Odisseia no Espaço, tornaram-se ícones da cultura pop. A que você atribui a popularidade de Kubrick e por que você acha que a exposição e a retrospectiva sobre o diretor devem ser eventos tão concorridos?

Sérgio Rizzo: O “ainda hoje” da pergunta sugere que o nome de Stanley Kubrick sempre teve o prestígio de que desfruta hoje. Não penso que seja verdade. A exemplo do que ocorre com Alfred Hitchcock, a estima pela obra de Kubrick vem crescendo desde a sua morte (ocorrida em 1999).

São um tanto misteriosos os motivos para o processo de “decantação” que, ao longo de décadas, favorece algumas filmografias em detrimento de outras. No caso de Kubrick, penso que devemos lembrar o elementar: como seu objetivo sempre foi o de conversar com grandes plateias, nada mais natural que muitos espectadores, de diversas gerações, ainda se sintam convidados a interagir com seus filmes (diferentemente de cineastas cujas obras soam como “áridas” para espectadores mais habituados às convenções do cinema narrativo industrial).

E também me parece que o apelo de Kubrick tem a ver decisivamente com dois filmes grandiosos, polêmicos, abertos a diversas interpretações e que, parafraseando uma das propostas de definição de “clássico” por Italo Calvino, ainda não terminaram de dizer o que tinham para dizer: 2001 e Laranja Mecânica.


CF: Em um artigo para a Revista Cult você disse que Kubrick foi um precursor dos filmes-evento antes mesmo que esse nome fosse inventado. Poderia explicar melhor essa ideia?

SR: A partir de Glória Feita de Sangue, a carreira de Kubrick passou a girar em torno de filmes ambiciosos que se obrigavam a reinventar gêneros e que, com frequência, lidavam com material polêmico. Isso o transformou, na ótica da mídia, em um cineasta especial, cujos filmes eram garantia de amplo interesse e de controvérsia. Mais do que apenas filmes de entretenimento, eram produtos culturais que adquiriam relevância na agenda social.

 

CF: Kubrick disse uma vez que era mais importante para um filme o fato de não fracassar (nas bilheterias) do que o de fazer sucesso, porque “os fracassos limitam as chances futuras de você fazer o filme que quer fazer”. Você acha que a escolha por temas polêmicos, com bom potencial de bilheteria, foi a forma que Kubrick encontrou para fazer filmes que lhe interessavam com a autonomia que queria? Há algum diretor na atualidade que consegue, assim como Kubrick fazia, aliar grandes orçamentos a projetos artisticamente interessantes e ambiciosos?

SR: De modo geral, a estratégia utilizada por Kubrick para obter autonomia criativa passou pelo que você sugere em sua pergunta, ainda que envolva também outros fatores. E hoje não consigo identificar nenhum cineasta inserido na indústria norte-americana com o perfil dele, o que tem muito a ver com o cinema e o espectador médio de hoje. Quero com isso dizer que as condições atuais de funcionamento do sistema cinematográfico industrial não são as mesmas  da época em que Kubrick atuou.


CF: Kubrick é considerado um diretor que aposta bastante na força das imagens. Em making-offs, é notável sua preocupação com o processo fotográfico em si, sendo ele mesmo responsável pela câmera em diversas cenas. Certa vez, em entrevista à Rolling Stone, disse ser a montagem a única forma de arte realmente original e peculiar nos filmes. É possível destacar um elemento que Kubrick valorize mais em seu cinema? Quais são as marcas de autoria que unem filmes tão distintos quanto Doutor Fantástico, O Iluminado e Laranja Mecânica?

SR: Conversa longa, essa. A meticulosidade na concepção visual dos filmes, que abarca aspectos como fotografia e cenografia, responde por um certo padrão. Há recorrências temáticas, como o olhar cético para um mundo em que o livre arbítrio e o humanismo entram constantemente em choque com a brutalização do homem provocada pelo próprio homem, e instrumentalizada, com frequência, por instituições cujo objetivo é conformá-lo.

Todos os filmes de Kubrick estarão na Mostra de São Paulo

CF: É provável que Kubrick tenha sido o grande cineasta que mais filmou roteiros adaptados. Praticamente todos os seus filmes se baseiam em obras literárias. Por que você acha que ele tinha essa preferência e como Kubrick conseguiu imprimir as suas marcas de autoria mesmo quando contava histórias de outros escritores?

SR: Essa é uma tradição do cinema industrial dos EUA. Hitchcock, entre muitos outros, também a seguiu. E, assim como a obra de Hitchcock, a de Kubrick demonstra que uma coisa é a matéria-prima do argumento e outra, muito diferente, o filme produzido a partir dela. Isso é cinema, nos EUA ou em qualquer outro quadrante.

 

CF: Considerando a importância que tem na história do Cinema, pode-se dizer que Kubrick foi um cineasta pouco premiado. Além de só ter recebido um Oscar pelos efeitos especiais de 2001, ele não chegou a participar de festivais importantes como Cannes e Berlim, e recebeu o prêmio pela carreira em Veneza. Como você explica essa ausência de prêmios?

SR: Não ter recebido o Oscar de direção coloca Kubrick em companhia de Alfred Hitchcock e de Howard Hawks. Ótima companhia, por sinal — dois dos 10 maiores diretores da história. E não me parece que a lógica de distribuição dos seus filmes exigisse, naquele tempo, a participação em festivais. Era um fator completamente dispensável. Hoje, imagino que as coisas seriam diferentes, e que o estúdio brigaria para inscrever um filme de Kubrick na mostra competitiva de Cannes ou, ao menos, para que ele tivesse o privilégio de abrir o festival, o que rende mídia planetária.

 

CF: Recentemente, Steven Spielberg anunciou que pretende transformar um roteiro não filmado de Kubrick, Napoleão Bonaparte, em minissérie para a TV. Muitos grandes diretores, como Martin Scorsese e David Fincher, se seduziram com as possibilidades da TV de hoje e estão por trás de séries bem avaliadas (respectivamente, Boardwalk Empire e House of Cards). Na sua opinião, Kubrick, se estivesse vivo, seria um potencial diretor a contribuir para uma TV que está se reinventando?

SR: Imagino que, se houvesse convite, ele se sentiria tentado a desenvolver projetos para a TV, sim. Como eu disse anteriormente, o mundo atual (e, dentro dele, a indústria do audiovisual) é muito diferente daquele em que Stanley Kubrick trabalhou.

 

CF: Quais são os seus filmes preferidos de Kubrick e quais deles você recomenda para quem pretende assistir à retrospectiva de sua obra?

SR: Gosto muito de cinco ou seis de seus filmes, e revejo com interesse todos os outros. 2001 e Laranja Mecânica são pontos de visitação obrigatória, mas Glória Feita de Sangue, Lolita, Doutor Fantástico e Barry Lyndon podem ser descobertas prazerosas para jovens espectadores que ainda não os conhecem.

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