Crítica: O Bagre Africano de Ataléia

Crítica: O Bagre Africano de Ataléia

 

Por Adriano Garrett, de Tiradentes

 

Segundo longa-metragem exibido na Mostra Aurora, O Bagre Africano de Ataléia é mais uma obra que pouco se encaixa nos já defasados rótulos de ficção ou documentário. Como o título deixa claro, o filme de Aline X e Gustavo Jardim tem como ponto central a suposta existência, propagada pelos moradores da cidade mineira de Ataléia, de um peixe de grandes dimensões, capaz de engolir até motos e motoqueiros. Para efeito de comparação, o tal bagre seria a versão brasileira do Monstro do Lago Ness.

O longa começa com cenas de um filme de aventura mudo e em preto e branco. O cinema, em qualquer época, é um meio de propagação de uma memória coletiva, e a colocação de uma obra fake que remete a outros tempos é uma forma de impor essa reflexão sobre o imaginário popular que está no cerne da obra.

Apoiado em um ritmo lento, que reflete a rotina dos personagens mais velhos, o filme usa a história do bagre como artifício para discutir as mudanças geracionais. As histórias imaginativas dos pescadores idosos se chocam com as preocupações comerciais dos habitantes mais jovens. Nesse sentido, a obra em si já constitui um ato a favor da tradição e da coletividade ao retratar personagens distintos como parte integrante de uma mesma narrativa.

Sem grandes pretensões, o filme usa o gênero fantástico e a metáfora da caça para tratar dos anseios e dos medos de seus personagens. A ideia é provocar mais questionamentos que respostas, deixando incompletas as trajetórias de seus personagens e possibilitando ao espectador um papel mais ativo na construção da obra. Era desnecessária, portanto, a intervenção didática de um cineasta em um momento importante do longa.

Nota: 7,0/10 (Bom)

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