Diretora de “filme brega” fala sobre carreira, música e “rolezinhos”

Diretora de “filme brega” fala sobre carreira, música e “rolezinhos”

 

Por Adriano Garrett, de Tiradentes

 

Diretora de arte importante do recente cinema brasileiro, tendo atuado em filmes de cineastas como Cláudio Assis (Amarelo Manga), Selton Mello (Feliz Natal) e Hilton Lacerda (Tatuagem), a pernambucana Renata Pinheiro estreou na direção de longas-metragens de ficção com Amor, Plástico e Barulho, filme que está na programação da 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Depois de dirigir os premiados curtas-metragens Superbarroco e Praça Walt Disney (em parceria com Sérgio Oliveira), Renata trata em seu primeiro longa de uma história passada no universo da música brega de Pernambuco, no qual uma cantora experiente (Maeve Jinkings) e uma novata (Nash Laila) vivenciam de maneiras distintas a fugacidade do sucesso.

“É mais um filme de personagens do que sobre a cena brega”, esclarece a diretora. Em entrevista ao Cine Festivais, Renata Pinheiro falou, entre outras coisas, sobre a sua carreira, o interesse pelo brega, a discriminação social revelada pelos gostos musicais e até sobre os “rolezinhos” – encontros em shoppings centers agendados por jovens da periferia de São Paulo que causaram grande polêmica no país. Veja a seguir as principais partes da conversa.

 

Você trabalhou como diretora de arte em filmes importantes. O que você levou dessa experiência para a direção de Amor, Plástico e Barulho, levando em conta a criação de um universo particular? 

Nesse filme eu não tive que reinventar um universo, já que ele existe atualmente e está no seu melhor momento no Norte e Nordeste. Eu tive a preocupação de não fazer uma caricatura dessa realidade do show business  musical. A personagem da Nash Laila tem seus sonhos, está começando uma carreira, tem suas ilusões, e isso me permitia construir esse mundo de sonhos dela, mas quando eu tratava da realidade desse meio eu queria esquecer um pouco tantas recriações que eu fiz em outros filmes. O filme oscila muito entre uma crueza da realidade e esse sonho dela, que é uma recriação baseada no brilho, na luz, e que, na verdade, mostra ainda mais a precariedade desse ambiente.

O filme também tem momentos de documentário. Eu coloquei os atores nos lugares onde, de fato, acontecem as cenas, então eu precisava desse equilíbrio. Eu acho que cheguei a isso também por causa de meu amadurecimento como diretora de arte, porque quem está começando na direção de arte gosta muitas vezes de mexer em coisas que não precisavam de mudanças. A minha maturidade me ajudou a estabelecer esses limites

 

Como foi esse processo de transição entre a direção de arte e a direção?

Esse exercício de conceituar o filme eu sempre fiz nos meus trabalhos como diretora de arte. Muitas vezes eu pensava em soluções que o diretor não havia pensado e isso me ajudou muito agora, como diretora. O Superbarroco (primeiro curta dirigido por Renata) é um filme extremamente visual, mas que  tem uma profundidade narrativa bem forte também, e o fato de fazer sucesso com esse primeiro filme me fez querer continuar.

A direção de arte é um ofício que eu aprendi a fazer, e eu acredito que ainda tenho muito a aprender sobre direção, então isso me instiga bastante a estudar, ver filmes, ler livros. Acho que isso é uma coisa que não tem mais fim, não vou mais deixar de querer dirigir meus projetos.

 

Como cineasta, o que chamou a sua atenção no universo brega? Por que você quis contar essa história?

Eu sempre gostei do brega justamente pelo lado que as pessoas mais criticam, que é o da sexualidade e do erotismo. Acho que é uma característica extremamente brasileira e que esse nosso lado tem que ser vivido. No filme eu exploro a coisa das músicas sensuais e românticas, e ao mesmo tempo as personagens principais são as mulheres, que nesse caso são as maiores cumplices desse jogo do que é ser sensual, do que é vender a sensualidade com o seu corpo e, ao mesmo, também se apaixonar, sofrer e ser sensível.

Não acredito que as mulheres são inocentes nisso, não as coloco como vítimas, mas como ativas nessa relação. Talvez isso seja algo inovador. Eu sempre gostei dessa capacidade do brega de fazer poesia com o cotidiano e com casos amorosos, e isso me instigou a fazer o filme.

 

O filme tem inserções de imagens de internet com baixa qualidade. A intenção era falar sobre a banalização das imagens e a descartabilidade do sucesso?

Era sobre isso tudo. Cheguei a essa conclusão no segundo corte do filme. Essa é uma música que se faz conhecida pela divulgação na internet, e eu não poderia deixar de tratar disso. Eu achei que teria que passar para uma linha sensorial para tratar desse Brasil pós boom econômico, em que as pessoas das classes menos privilegiadas melhoraram de vida e passaram a ter uma maior autoestima com a melhora de vida e assumiram mais os seus gostos, inclusive os musicais.

 

O documentário Vou Rifar Meu Coração trata de um estilo diferente do brega, mas também vê a música como um elemento importante de afirmação social e de memória coletiva. Como você compara esses dois tempos diferentes?

O brega de antigamente falava de amor de uma forma exagerada. A elite sempre achou que os sentimentos mais fortes não poderiam ser expostos dessa forma e rotulou o estilo de brega. Nessa nova geração existe um despudor para falar dessas relações, há uma atualização desse comportamento, assumindo não só o romantismo, mas também a vida sexual, e mais uma vez a mídia oficial não aceita isso.

Hoje os músicos do forró, do funk, se dizem brega, então não há mais essa coisa de dizer que o brega é cafona. Houve uma valorização de ser do movimento brega, eles estão pouco se lixando se a classe média não gosta, já que eles têm um público muito grande. É uma pena que fiquem julgando o estilo por um conceito tão moralista, já que é uma expressão muito verdadeira.

 

O funk tem uma relação muito grande com o brega, principalmente em Pernambuco. Em São Paulo, recentemente o prefeito vetou uma lei que proibia os bailes funks em lugares públicos, e a questão dos “rolezinhos” ganhou viés preconceituoso quando um diretor das associações dos shoppings centers disse que “shopping não era lugar para baile funk”. Como essas situações representam essa discriminação que ainda há entre classes sociais?

É uma pena, mas essa divisão de classes é muito forte no Brasil. É natural que você vincule sempre a arte com uma ação política, então vincularam o funk a essa ação política dos “rolezinhos”, e esse é o preço que se paga por se ter atitude política, por querer mudar as coisas ou simplesmente por querer dizer “eu existo”. Isso é tão forte quanto você colocar aquelas músicas altas no carro e passar por um lugar onde ninguém ouve música brega. Aquilo também é um ato político, não é só um incômodo ou uma falta de educação. Vincular a música a um ato político é o preço que pagamos, mas a música não vai morrer por causa disso, nem os atos políticos. É uma briga de classes mesmo.

 

Quais são os seus próximos projetos?

A gente está finalizando um longa que se chama Superorquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos, que se passa no sertão contemporâneo com uma orquestra de baile que tem 60 anos de existência. É um filme que desmistifica um pouco esse sertão puro, do ritmo de raiz. Eu chamo de documentário, mas tem muita intervenção, os animais falam e cantam, é um misto. Também vou começar a filmar no final de maio meu próximo filme de ficção, que se chama Açúcar e fala um pouco da escravidão, mas principalmente do que vivemos hoje.

 

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