Mostra com filmes sobre religião começa em SP; leia entrevista com curador

Mostra com filmes sobre religião começa em SP; leia entrevista com curador

 

Por Adriano Garrett

 

Começa nesta terça-feira (3) em São Paulo a nona edição da Olhares Sobre o Sagrado – Mostra Internacional de Cinema e Religião. Com sessões no Centro Cultural São Paulo (CCSP) e no Museu da Imagem e do Som (MIS) até o próximo domingo (8), o evento exibirá 36 curtas, médias e longas-metragens que, além do Brasil, vêm de países como Israel, Itália, Afeganistão, Turquia, Bolívia e Espanha. A entrada é gratuita no MIS e custa R$ 1,00 (sem meia-entrada) por sessão no CCSP.

A programação deste ano, que pode ser conferida neste link, tem como tema “Religião e Diversidade: a preservação do planeta”. O intuito do evento – que busca abordar todas as manifestações religiosas, sem preconceito ou restrições -, é o de exibir filmes que fujam dos clichês sobre religiões e mostrem como essas instituições lidam com a necessidade de preservação do meio ambiente.

O Cine Festivais conversou com o curador e idealizador da Mostra Internacional de Cinema e Religião, César Augusto Sartorelli. Conheça um pouco mais sobre o evento, que é produzido pela Mamute Filmes, na entrevista a seguir.

 

Cine Festivais: Como surgiu a ideia para a Mostra Cinema e Religião e qual é a intenção do evento?

César Sartorelli: Estava fazendo mestrado em Ciências das Religiões na PUC e era bolsista da CAPES (agência do Governo Federal que outorga bolsas de estudo). Trabalhava no Centro Cultural São Paulo na Coordenadoria de Eventos, que tinha como diretor o Carlos Augusto Calil (professor do curso de Audiovisual da ECA-USP), e deveria oferecer uma contrapartida à bolsa que recebia. Como sempre tive interesse nas relações entre Arte e Religião, resolvi criar a Mostra de Cinema e Religião.

Minha intenção era mostrar a ampla diversidade de aspectos das Religiões e suas faces pouco óbvias. Posteriormente, na elaboração do site da mostra, adotou-se o nome “Olhares Sobre o Sagrado”, porque definia melhor o objetivo dela.

 

CF: O que mudou – na reação do público e nas obras exibidas – ao longo dos anos em que a mostra vem sendo realizada?

CS: De início eu trabalhava com muitas obras de acervo e hoje a produção e contato com novos diretores está muito mais facilitada pela internet e plataformas digitais de transmissão e inscrição de filmes. No começo os filmes tinham referências à religião e hoje estou focado naqueles em que ela é tema central do filme todo.

O público permanece estável, mas se construiu um circuito “blogueiro” e “cult” que frequenta a “Olhares”.

 

CF: Qual é o público-alvo da mostra? É importante ter ligação com alguma religião para se interessar pelos filmes?

CS: Pessoas curiosas sobre as religiões, não necessariamente praticantes. Os que são praticantes podem descobrir aspectos novos de suas religiões. Os de outras podem ver com outros olhos menos preconceituosos as que desconhecem.

 

CF: Como funciona a seleção de filmes para o evento?

CS: Recebo inscrições pelo site e pela plataforma de inscrições clickforfestivals, a partir deste ano. Há também uma parceria com a Movibeta, e pretendo ampliar as plataformas parceiras para receber filmes na edição de 2014.

Também recebo indicações dos festivais internacionais parceiros: Reilgion Today (de Trento, Itália), Internacional de Cinema de Dakha (Dakha, Bangladesh) e Insight Film Festival (Manchester, Inglaterra).

Além disso, estou sempre atento, e surgem filmes vistos em outros festivais ou citados por reportagens, estudos e amigos inclusive.

 

CF: Como foi escolhido o tema desse ano e qual é a importância dele?

CS: O tema é “Religião e Diversidade: a preservação do planeta”. Procuramos mostrar através dele como as religiões encaram a preservação do meio ambiente de nosso planeta. Também é importante ressaltar outro aspecto do tema, já que, além da biodiversidade das espécies animais e vegetais, devemos preservar a memória, pelo menos da diversidade religiosa. Na mostra temos uma religião em extinção na Turquia, com 400 adeptos no país, os Yazidis. No mundo todo são 800.000 adeptos, mas que tendem a desaparecer com as migrações e casamentos mistos, porque só pode ser Yazidi quem nascer de pai e mãe Yazidi. 

 

CF: Quais são os destaques da programação desse ano?

CS: Temos um bom número de filmes sobre o Candomblé por todo o período da “Olhares”, com destaque para sexta-feira, dia 6 de dezembro, no Centro Cultural São Paulo, com um dia dedicado à religião. Teremos abordagens de cultos bem diversos, dos Orixás, dos Ancestrais, da Natureza, através de formas de filmar também diversas, que se encerram com a palestra do Prof. Reginaldo Prandi, aposentado pela FFCLH da USP, e um dos maiores estudiosos do Candomblé no Brasil.

Para o ano de 2014 a ideia é ampliar a Olhares e abranger, além de cinema, também música, dança e artes plásticas, transformando num Festival de Cultura e Religião . O tema de 2014 será Religião e Arte e já estamos aceitando inscrições pelo site.

 

CF: O Brasil é um país com muita diversidade religiosa. Qual é a sua opinião sobre a atual produção de filmes brasileiros sobre religião e como é possível fazê-los atingir um público maior?

CS: Quando são feitos, viram um sucesso de público, e geralmente um fracasso de crítica. O que contribui é que os jornalistas e a imprensa em geral tem formação muito ruim no que tange às religiões. Falta conhecimento verdadeiro e capacidade de fugir dos clichês: a religião arrancando dinheiro das pessoas, “o Papa veste Prada”, todas as religiões Evangélicas e o Islamismo são sinônimos de fundamentalismo, etc. e tal. Parece que a imprensa vive num país paralelo de pessoas céticas, enquanto a imensa maioria da população brasileira, jovens inclusive, é muito religiosa.

A produção está muito focada em documentários. Falta explorarem melhor as várias faces da religião em filmes de ficção, como o pertencimento que traz acolhimento às pessoas socialmente, o de organizador e estruturador de identidade, de provedor de valores éticos, etc… Basta olhar para o que está ao nosso lado o tempo todo e criar roteiros que abordem estes fatos, como o fato de termos um fenômeno tipicamente brasileiro, de pessoas que frequentam mais de uma religião.

Tem muito chão a ser percorrido neste sentido de ampliar a produção, não só de fazer “cine favela” ou “cine estética global”. Há muita distância entre os roteiros e as possibilidades de abordar o tema que o mundo real inspira.

Um pouco de humildade aos cineastas, procurando despir-se de preconceitos para olhar o que está à sua volta, é o primeiro passo.

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