Crítica: Tatuagem

Crítica: Tatuagem

 

Por Adriano Garrett

 

Na primeira aparição de Fininha (Jesuíta Barbosa) em Tatuagem, estreia de Hilton Lacerda na direção de filmes de ficção, o personagem é enquadrado de um modo que faz com que as barras de um beliche se assemelhem, em um primeiro momento, às grades de uma prisão. Logo descobrimos que aquele local é um alojamento do exército, e não um centro de detenção, mas a discussão sobre a liberdade em seus mais variados níveis (político, artístico, individual, sexual), seja ela metafórica ou não, permeará toda a obra.

O filme se passa em 1978, ano em que o Brasil ainda tinha o regime militar no poder, mas no qual já se começava a vislumbrar um processo de abertura política rumo ao retorno da democracia. Nesse contexto, um grupo de artistas faz apresentações irreverentes que vão de encontro à moral regente na época. Seu líder, Clécio (Irandhir Santos), conhece Fininha (Jesuíta Barbosa), um cadete do Exército, e desse encontro surge um relacionamento que os une.

A história se divide basicamente em três núcleos distintos: o do grupo Chão de Estrelas, que engloba as apresentações teatrais e a vivência em uma espécie de república; o do quartel onde Fininha mora; e o da casa da família de Fininha no interior de Pernambuco. O trabalho de direção de arte e figurino ajuda a diferenciar e a caracterizar cada um desses ambientes: as cores fortes e a “bagunça organizada” da trupe contrastam com o ambiente asséptico e simétrico do Exército e com a casa reduzida e decorada com objetos religiosos na qual Fininha aparece cercado/oprimido por mulheres.

Não por acaso, a construção desse universo particular do grupo de artistas deve muito à diretora de arte Renata Pinheiro, que realizou algo semelhante no que concerne à ambientação em Amor, Plástico e Barulho, seu filme de estreia na direção, que trata sobre a cena da música brega em Pernambuco.

Como a cidade propriamente dita só é vista tangencialmente, e um choque efetivo da trupe com a ditadura é mostrado apenas na sala de um censor, o grupo se torna quase outro país, uma nova possibilidade de futuro que, em algum momento, será confrontada.

Em um plano mais superficial, o conflito se restringe ao encantamento de Fininha pelo novo mundo descoberto, algo que provoca um amadurecimento que só virá através de escolhas que fatalmente lhe trarão consequências. As possibilidades de leitura do filme, no entanto, são ampliadas quando pensamos que ele trata da expectativa acerca de um futuro que nada mais é do que o nosso presente, e que essa discussão pode englobar temas diversos como política, valores da sociedade e o próprio fazer cinematográfico.

Esse último aspecto é tratado através da inclusão do personagem do professor Joubert (Sílvio Restiffe), um intelectual que grava filmes em Super-8 e busca um novo tipo de linguagem através da experimentação. Isso acaba levantando uma indagação indireta a respeito da evolução da produção audiovisual brasileira daquela época até os tempos de hoje, notadamente a respeito da falta de originalidade e ambição naquilo que é realizado em grande parte dos filmes que obtêm sucesso de bilheteria atualmente, a exemplo das “globochanchadas” (comédias com estética televisiva e atores conhecidos de outras mídias, geralmente da TV Globo).

Sem deixar o discurso libertário se transformar em exibicionismo estéril, o diretor Hilton Lacerda compõe planos belos e simples, como aquele em que Clécio parece estar se apresentando apenas para Fininha, ou aquele em que o líder da trupe tem uma conversa séria com Paulete (Rodrigo Garcia) e o zoom da câmera nos aproxima aos poucos dos personagens.

Contando ainda com um elenco inspirado – com Irandhir Santos na melhor atuação na carreira e Jesuíta Barbosa fazendo um impactante primeiro papel no Cinema -, Tatuagem é um filme coerente com seu próprio discurso, surgindo como uma afronta aos mais variados tipos de conservadorismo sem a necessidade de soar panfletário. É, em suma, um dos melhores filmes brasileiros do ano.

Nota: 8,0/10 (Ótimo)

 

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