Queria colocar todas as minhas convicções no filme, diz diretor de Tatuagem

Queria colocar todas as minhas convicções no filme, diz diretor de Tatuagem

 

Por Adriano Garrett, com colaboração de Ivan Oliveira

 

Embora tenha feito, com Tatuagem, sua estreia na direção de longas-metragens de ficção, Hilton Lacerda está longe de ser um novato na área. Roteirista de renome, ele trabalhou em Baile Perfumado (de Lírio Ferreira e Paulo Caldas), filme considerado um marco na retomada da produção cinematográfica pernambucana, e desde então escreveu o roteiro de diversos filmes com sucesso de crítica, entre eles Amarelo Manga, Baixio das Bestas e Febre do Rato, de Cláudio Assis, A Festa da Menina Morta, de Matheus Nachtergaele, e Árido Movie, de Lírio Ferreira, além de ter codirigido com este último o documentário Cartola – Música Para Os Olhos.

Consagrado em festivais como o de Gramado (quatro prêmios, incluindo melhor filme e ator) e o do Rio de Janeiro (cinco troféus, incluindo melhor filme pela crítica e pelo júri popular), Tatuagem se passa em 1978 – ano em que o Brasil começava a vislumbrar o fim da ditadura militar – e conta a história de um cadete do exército que se apaixona pelo líder de um grupo de artistas que provocava o poder e a moral estabelecida com seus espetáculos e interferências públicas. O filme será exibido nos dias 10 e 14 de novembro no 21º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade e chega ao circuito comercial brasileiro no dia 15.

Na entrevista a seguir, concedida por Hilton Lacerda ao Cine Festivais, o diretor e roteirista falou sobre essa nova fase em sua carreira, sobre o processo de criação de Tatuagem, sobre o conservadorismo do cinema e da sociedade brasileira em relação à temática da diversidade (“polêmico é alguém achar que esse tema ainda é polêmico”) e sobre o momento produtivo do cinema pernambucano, entre vários outros assuntos.   

 

Cine Festivais: Você fez carreira como roteirista antes de dirigir o seu primeiro longa-metragem de ficção. Há roteiristas, como Paul Schrader (Taxi Driver), que migraram para a direção em busca de se tornar autores plenos de seus trabalhos. Esse foi o seu caso? Qual é a sua opinião sobre o assunto?        

Hilton Lacerda: Existem situações muito específicas. Um filme é muito feito por estágios, por camadas. Eu acredito que no caso de Paul Schrader, principalmente em Taxi Driver, a autoria do filme fica obviamente quase toda com o Martin Scorsese, até pelo vulto que o Scorsese tem. Eu acho também que a própria indústria americana funciona de um jeito mais pragmático nesse sentido. Os roteiristas vêm conquistando agora esse espaço dentro da cinematografia americana.

No caso das parcerias que mantenho, na maioria esmagadora dos casos o trabalho que eu faço como roteirista é muito próximo do diretor. Próximo a ponto de ir para o set, de corrigir coisas, de conversar com os atores… É um processo mais de parceria e cumplicidade do que uma encomenda. Mesmo assim, a questão que mais me preocupava não era a autoria, mas eram os detalhes, as nuances do roteiro que você acredita que, se fossem respeitados, o filme ficaria mais interessante.

Eu já estou indo para o meu 15º longa-metragem como roteirista, a maior parte deles feitos com amigos muito próximos, casos de Matheus Nachtergaele, Lírio Ferreira, Claudio Assis. Também trabalhei com Toni Venturi, Kiko Goifman e vários outros diretores, mas mesmo dentro dessa cumplicidade tem alguns detalhes que fogem um pouco ao seu controle, até por causa da sua função. Não estou dizendo que esses filmes ficaram diferentes daquilo que tínhamos pensado no início, mas há o desejo de que algumas coisas sejam levadas a alguns extremos específicos no que diz respeito a detalhes e delicadezas. 

Tatuagem é o primeiro filme de ficção dirigido por Hilton Lacerda (foto)

Outra coisa é em relação àquilo que você escreve. Acho que em todos os trabalhos que escrevi eu uso muito uma referência afetiva, uma lembrança, alguma coisa do mundo que me cerca para utilizar de alguma forma dentro dos personagens, das situações. É um trabalho emocionalmente muito desgastante. Quando você tem a possibilidade de ser diretor, de “propor o jogo e ser o dono da bola” ao mesmo tempo, a situação fica muito mais confortável por esse lado. Por outro lado você não tem muita saída, no sentido de não ter mais em quem colocar a culpa sobre qualquer coisa que seja criticada dentro desse processo.

Naquele momento, até porque eu estava escrevendo muito, eu queria ter tempo para fazer uma história na qual eu fosse diretor e pudesse colocar dentro do filme todas as minhas convicções no sentido narrativo, da construção dramatúrgica, dos valores que estou vendo e do comprometimento com o que seja uma atitude política em relação ao Cinema. Me interesso pelo uso do Cinema como um elemento provocador, de conflito, de embate. Ele não é só uma diversão, ele pode te levar para outros lugares também, como qualquer outro tipo de manifestação artística. Isso é o que mais me demoveu no caso do Tatuagem a estar com todas as rédeas na mão.

 

CF: Gostaria que você comentasse a sua ligação afetiva com o Tatuagem. Como o filme se relaciona com a sua vida? Como surgiu a ideia para o filme?

HL: Tatuagem tem uma inspiração muito forte de um grupo de teatro marxista que existiu em Pernambuco nos anos 70 chamado Vivencial Diversiones, que foi uma referência na minha vida. Eu não participava do grupo, mas era algo meio lendário na própria cidade, meus irmãos mais velhos comentavam, então essa é uma lembrança muito marcante para mim no sentido afetivo.

Outra coisa importante foi o ano de 1978. Naquela época eu tinha 13 anos, mesma idade de um dos personagens do filme (Tuquinha, filho do protagonista Clécio). Essa foi a idade em que eu me autodeclarei autônomo em relação ao mundo, em que eu comecei a refletir sobre ele. Também foi o momento em que a ditadura militar estava chegando ao fim e existia uma discussão intelectual e cultural muito forte no país. Uma porta estava se abrindo e parecia outra vez que o Brasil ia dar certo.

Era um momento de expectativa, e essa construção de futuro sempre foi uma coisa que me preocupou bastante. Depois de acompanhar durante tanto tempo alguns processos, na minha cabeça algumas questões já teriam sido resolvidas quando a gente chegasse ao ano 2000, entre elas essa definição de gênero, que pra mim já deveria estar completamente ultrapassada.  Essa seria uma discussão que seria palpável somente pelo mundo conservador, e na verdade parece que o mundo conservador virou a voz oficial das coisas. Acho esse processo que houve muito preocupante, então falar de 1978 era uma forma de pegar o passado e moldar ele no sentido dessa discussão.

A ideia é que Tatuagem não seja um filme de época. Ele se passa em determinada época, mas a discussão era para ser completamente contemporânea. É essa a intenção do filme, e foi isso que mais me fez levar esse projeto adiante.

 

CF: Como você relaciona aquele Brasil com o Brasil atual? Você acha que a sociedade está ficando mais conservadora?

HL: Eu acredito que há algum tempo estamos passando por um processo de afirmação, e isso nem sempre é positivo, já que essa afirmação pode ser de grupos de pressão. Se hoje nós formos fazer uma leitura de como essas relações estão sendo colocadas, eu acho que existe uma caretice muito maior do que era a possibilidade que foi plantada no passado. A falta de cultura e a ignorância têm direito a uma voz muito ativa, que faz parte, mas ao mesmo tempo isso termina criando grupos de pressão muito esquisitos, onde as discussões não estão em pauta.

Nós vivemos em um país católico que, paradoxalmente, é muito conservador, apesar de toda essa cara de liberdade. As pessoas não discutem as coisas a partir dos fatos e das práticas, mas a partir de uma convicção que nem elas entendem direito. Eu acho que houve um retrocesso nesse sentido, mas ele também faz parte de uma política que foi articulada durante o tempo inteiro. As pessoas se colocaram muito à mercê de qualquer tipo de acordo. Para conseguir determinado status, deram voz para determinadas coisas, talvez achando que isso não fosse tão perigoso. Isso resultou em uma articulação bastante conservadora, que agora tem o poder de voz em prol desse conservadorismo.

Eu acho que esse é um momento de colocação, de embate mesmo. A ideia do Tatuagem é se colocar não como uma bandeira ou como uma obra de propaganda nesse sentido, mas ser um filme que articula a discussão, que traz dúvidas. Tudo isso a partir de uma visão afetiva sobre o cinema brasileiro. Todos os filmes que estão impressionando e impregnando a gente tem um pouco desse Cinema, um pouco do Cinema Novo, do Cinema Marginal, tudo isso alinhavado por uma linha narrativa muito clara. Essa era mais ou menos minha estratégia pensando o filme.

Trupe Chão de Estrelas foi inspirada em grupo teatral pernambucano dos anos 70

 

CF: Em Tatuagem há a inserção de um filme dentro do filme. Essa foi uma maneira de indagar sobre a evolução do cinema brasileiro desde aquela época? Como você vê o conservadorismo no cinema brasileiro atual?

HL: Essa ideia do filme dentro do filme tem a ver com uma visão geracional, a visão daqueles agitadores culturais da época que faziam filmes no formato Super 8. Minha pergunta era como eu poderia trazer aquilo para um discurso mais contemporâneo. Então, quando o professor Joubert (Sílvio Restiffe) articula aquele filme dele, ele está na verdade jogando toda aquela discussão sobre o futuro, que seria quase o nosso presente. Ao mesmo tempo eu gostaria de ver que tipo de liberdade de linguagem a gente pode se dar, que tipo de liberdade o próprio corpo, visto como um instrumento de mudança, de confronto, pode ter. Esse Cinema dentro do Cinema tem a função de fazer o invólucro dessa narrativa, já que no fundo o que me interessa é o discurso cinematográfico. 

Quando você compara isso com o Cinema feito hoje no Brasil existe uma coisa muito contraditória. Eu acho que talvez o Brasil esteja nesse momento, dentro de um circuito específico, em um de seus melhores momentos produtivos, pela qualidade e pela quantidade de possibilidades que estão sendo injetadas na cabeça das pessoas sobre pensamento cinematográfico. Por outro lado, nunca se teve tão pouca visibilidade e acesso a esse material produzido. Parece que se produz bastante coisa interessante e a falta de contato com esse público cria um distanciamento.

Fora do contexto desse Cinema que chamam de autoral, eu acho que o cinema brasileiro é extremamente careta em geral. Ele tenta se adequar a soluções técnicas já resolvidas pelo Cinema no resto do mundo para dar cabo de uma experiência que não é nem inovadora, nem excitante. Ao mesmo tempo, ela tem um valor mercadológico bastante tênue, rápido, o que torna a possibilidade de discussão cultural a partir do Cinema muito boba.

Eu acho que o cinema brasileiro, como qualquer outro tipo de cultura feita aqui, tem que ser apreciado por aquilo que as pessoas fazem aqui, e não por tentar adequar o seu discurso àquele que é feito lá fora, seja o discurso comercial americano ou o discurso intelectual europeu. As pessoas vão se interessar por o que você faz, não por aquilo que você é capaz de imitar do outro. Penso que isso enfraquece bastante o cinema brasileiro enquanto representação cultural.

 

CF: Nesse sentido, você vê o atual cinema pernambucano como um foco de resistência a esse cinema pouco inovador que você citou?

HL: Eu acho que tem uma algo muito interessante acontecendo em Pernambuco, mas a principal coisa nesse aspecto é uma conquista de classe. É você ter editais que conseguem incentivar uma produção bastante autônoma, que não está ligada a uma leitura de Estado. Ela não é um braço de nenhum governo ou representação do Estado. São filmes extremamente críticos, principalmente em relação a Pernambuco.

O processo de maior visibilidade ocorre por causa dessas leis de incentivo, por conta de você ter uma produção constante, de uma qualidade interessante, que tem tido um impacto muito grande tanto de crítica quanto de público. Apesar de pequeno, esse é um público formador de opinião. Isso traz uma nova possibilidade, um novo encantamento.

No Brasil inteiro você encontra cineastas incríveis, mas quando a gente fala desses estados nos referimos ao que é mais massificado. Então quando você pega o que é feito hoje, além de Pernambuco, no Ceará e em Minas Gerais, é incrível como essas pessoas estão revendo o cinema brasileiro e como estão se aproveitando das possibilidades. Essas novas tecnologias de edição, edição de som, captação, tem dado para um determinado grupo um acesso imenso à possibilidade de manipular narrativas, de provocar o olhar, o que é uma das coisas mais interessantes que existem no Cinema.

 

CF: Você consegue listar algum conjunto de características comuns a esse grupo de realizadores pernambucanos ou você o considera muito heterogêneo?

HL: Eu creio, e isso me deixa bastante feliz, na heterogeneidade desse grupo, no sentido de como essas pessoas pensam Cinema. Há discordâncias, discussões, mas tudo dentro de uma linha muito específica, que é meio combativa sobre a possibilidade de construção narrativa.

Uma coisa que existe no cinema pernambucano, e talvez tenha sido fundamental, é a capacidade de ter criado um discurso produtivo muito específico e interessante, que consegue, dentro da realidade existente, produzir alguma coisa que tenha impacto.

Essa linha de produção para mim é muito importante. Uma característica é uma linha de produção muito bem estruturada, que já existia pronta no Rio e em São Paulo e que, como não cabia estruturalmente dentro do que a gente fazia, teve que ser readequada à nossa realidade. Isso foi extremamente importante, talvez tenha sido a mola propulsora dessa discussão audiovisual que existe hoje nesses lugares.     

Protagonista de Tatuagem, Irandhir Santos também trabalhou em Febre do Rato (foto), filme roteirizado por Hilton Lacerda e dirigido por Cláudio Assis

 

CF: Você identifica a sua obra com algum dos realizadores pernambucanos? Você vê relações não só com o Cláudio Assis, mas com cineastas como Marcelo Gomes e Kleber Mendonça Filho?

HL: Uma relação temática que a gente pode ter talvez seja um determinado olhar crítico, apesar de isso estar voltado para vários eixos. Temos essa preocupação de ver a cidade como espelho do mundo de certa forma. Obviamente há uma grande proximidade com quem eu já trabalhei junto, como o Cláudio Assis e o Lírio Ferreira, mas em termos de discussão cinematográfica eu gosto muito dos curtas do Kleber (Mendonça Filho), que acho sensacionais. 

De fato, eu continuo achando que essa pluralidade de olhar é talvez o maior gancho dado por essa unidade. Essa capacidade crítica que não é apenas social, mas também no sentido até de construção do que seja a narrativa.

 

CF: Em Tatuagem, a trupe Chão de Estrelas faz uma resistência ao regime militar de modo indireto, através de uma atitude libertária e do uso do humor. Por que você optou por não mostrar o conflito direto entre o grupo e o Estado?

HL: Acho que há várias formas para mostrar como se deu esse conflito. Narrativamente, o que era interessante para mim era construir um tipo de situação na qual, sensorialmente, você tivesse colocado uma possibilidade, e quando essa possibilidade era acabada você praticamente não precisa ver como isso se representa. Levei um monte de coisa em consideração: qual é a capacidade que eu tenho de fazer desse enfrentamento uma coisa que seja verossímil e interessante? A violência que eu quero empregar me pareceria maior se fosse feita do jeito que eu articulei ou se ela tivesse contato direto? E a terceira coisa é sobre o que de fato eu estou falando.

O personagem do soldado Gusmão, por exemplo, tem uma função muito clara, de um desejo equivocado, ignorante, que não sabe muito bem o que fazer. Eu estou falando de um corpo de 18 anos, em ebulição sexual naquele momento, e que representa um pouco dessa ira, dessa intransigência, dessa intolerância, e isso para mim era interessante, porque esse estado policialesco nunca se resolveu de fato. Acabou o regime militar, mas o militarismo sempre esteve presente. Talvez ele tenha desaparecido no inicio da produção intelectual, mas ele nunca esteve ausente nas regiões periféricas do Brasil, sempre cumpriu a função de evitar um diálogo, de sempre ter um enfrentamento. É disso que vem essa conduta, e é uma coisa até de conhecimento cinematográfico: como você pode criar um embate sem necessariamente esse embate aparecer? O Cinema mundial está cheio disso, e essa foi uma tentativa que construí. O resultado disso fica por sua conta para saber se deu certo ou não, mas foi uma opção pessoal de construção da narrativa.

   

CF: Os personagens de Irandhir Santos em Febre do Rato e Tatuagem eram libertários. Em Tatuagem, o personagem de Jesuíta Barbosa aparece pela primeira vez no filme com as barras de um beliche simulando uma prisão. Como você encara a questão da liberdade, em seus vários níveis (individual, político, sexual), e por que esse tema te interessa tanto?

HL: Essa recorrência do discurso da liberdade é muito importante para mim. Mais uma vez ele está colocado em várias possibilidades. No caso do Tatuagem, a imagem é muito importante para mim. Estou partindo do princípio que a pessoa está vendo o filme pela primeira vez e não sabe exatamente o que a imagem significa. Você parte da imagem de uma prisão e depois descobre que aquilo não é uma prisão, mas que ele está preso de outra forma. Tem um pensamento dentro da cabeça dele que o som tenta colocar através das guitarras distorcidas. De qualquer forma, eu vejo o personagem de Jesuíta como um personagem de mudança completa. É um personagem que entra na história para modificar a vida dele. Clécio (Irandhir Santos) até acredita que está corrompendo Fininha (Jesuíta Barbosa), o que não é verdade, mas aquele universo é novo para ele e abre uma janela incrível para a vida dele. O que interessa é que dentro de qualquer estrutura que você estabeleça onde a liberdade é possível, mesmo que você pague mais caro por isso, vale a pena abrir esse portão.

Se você pegar o Febre do Rato e o Tatuagem, eles representam dois momentos inversos de quase uma mesma possibilidade. O Febre do Rato é um filme que se passa nos dias de hoje com um personagem que tenta manter uma aura libertária fora de um esquema que já está estabelecido. Ele provoca essa sociedade, mesmo que depois tenha que apanhar dela e levar porrada o tempo inteiro. No Tatuagem você tem essa possibilidade de construção do espaço livre, jogando isso para o futuro. O filme inteiro é pautado por essa possibilidade. Primeiro a gente entra com a navalha e depois o público vem com a gramática. Essas coisas estão todas pautadas por uma possibilidade de leitura que as pessoas vão ter.

Eu acho que nenhum desses filmes resolve o problema da liberdade, eles instigam a discussão. Talvez seja o momento de nós discutirmos como a gente volta hoje à questão da liberdade. Esse conservadorismo de articulação de massas, que de início parece interessante, pode virar um grande balão de afogamento. De certa forma você está calcado em uma coisa legal. Se a maioria tem primazia sobre a minoria, como está voltando a ter, você legalmente pode colocar os esgotamentos. Tanto que a minha visão política sobre o que acontece hoje no Brasil, a respeito das manifestações de rua, é que parece que não está começando uma nova coisa, mas que um processo todo está se esgotando. E as coisas quando se esgotam elas não fazem isso de maneira muito suave. Transição é uma coisa, esgotamento é outra. Essa é mais ou menos a ideia que eu sempre tento colocar nas coisas que eu escrevo ou que dirijo.

 

CF: Como se deu a escolha para o elenco do Irandhir Santos, um ator já consagrado, e do Jesuíta Barbosa, um jovem que está começando a carreira agora e parece ter um futuro promissor?

HL: Quando eu estava escrevendo o roteiro o corpo do Irandhir já era uma possibilidade para mim. Eu acho que ele tem uma versatilidade muito grande em relação à interpretação que me interessava. Eu só o chamei para trabalhar no filme depois que tinha acabado o roteiro. Ele já tinha feito o Baixio das Bestas (filme de Cláudio Assis roteirizado por Hilton), o processo do Febre (do Rato) não tinha começado, mas a gente era muito próximo. Eu acho ele um ator extraordinário, poderia passar horas falando sobre Irandhir, mas acho que ele já está confirmado como esse grande ator. Eu acho que no Tatuagem o grau de entrega que ele se impõe é realmente bem impressionante.

Eu precisava de alguém que pudesse dialogar com o Irandhir na mesma altura. O personagem de Fininha era muito importante, porque se esse ator não fosse capaz de estar de igual para igual com o personagem de Clécio (Irandhir Santos), Clécio talvez tivesse que se remoldar para poder caber o outro personagem. 

"Eu acho o Jesuíta (Barbosa) um dos atores mais empolgantes qye eu vi aparecer no Cinema"

Eu acho o Jesuíta (Barbosa) um dos atores mais empolgantes que eu vi aparecer no Cinema”

Foi um processo muito longo de procura. Eu queria alguém que coubesse naquele papel e tivesse a idade do personagem (18 anos). Ele (Jesuíta Barbosa) era um pouquinho mais velho, estava com 19 anos na época, o que não faz muita diferença. O Jesuíta, que mora em Fortaleza, veio quase como uma encomenda dentro do papel. Seja pela carga de interpretação que ele tinha ou pelo talento nato para o Cinema. Quem trabalha com Cinema sabe que segurar um close em uma cena de tensão com uma máscara no rosto é muito difícil, ainda mais para quem não tem essa experiência prática do dia a dia de um set de filmagem. Tivemos seis semanas de preparação de elenco e trabalhamos com dois níveis de interpretação bem difíceis: o teatral, que é escrachado, e um cotidiano muito delicado. Todo esse trabalho foi feito e, quando esse personagem de Jesuíta foi se encaixando com o personagem de Clécio, para mim foi o ponto alto do processo inteiro de produção do filme, porque isso era muito importante para o filme existir como a gente gostaria que ele fosse. 

Os dois atores mais surpreendentes no sentido de quanto eles aparecem e quanto não são conhecidos são Jesuíta e o Rodrigo Garcia. É engraçado que as pessoas começam a perder a noção entre o que é personagem e o que é ator, e o Rodrigo vai a muitas pré-estreias e não é reconhecido, porque as pessoas acham que ele é igual ao personagem Paulete. Demora um tempo para as pessoas perceberem que eles estão atuando, e eu acho que isso é o mais empolgante. É um trabalho de aprofundamento de atuação muito interessante, e que é muito feliz. Eu acho o Jesuíta um dos atores mais empolgantes que eu vi aparecer no Cinema. E ele saiu dessa primeira experiência e já foi trabalhar com o (diretor) Karim Ainouz e trabalhar com Wagner Moura. Ou seja, ele está em uma escola bem pesada de atuação (risos).

 

CF: Recentemente o diretor Kleber Mendonça Filho defendeu Tatuagem da acusação de “querer chocar” através das cenas homossexuais. Como essa questão pode contaminar a recepção do filme, que fala de tantas outras coisas? Como eventos como o Festival Mix Brasil, no qual Tatuagem será exibido, podem elevar o debate sobre esse tipo de questão?

HL: O filme ainda não pegou um público que seja menos direcionado do que o público de festivais, mostras e pré-estreias. A recepção que a gente tem tido até agora é bastante interessante. Eu pensei até que haveria mais questões conflituosas em relação a isso. Claro que tem uma coisa dentro do filme que é a tentativa de construir uma história circundante na qual aquilo fique completamente neutralizado pelo olhar mais afetivo do que pelo olhar pornográfico. Não seria minha intenção chocar alguém por causa de imagem de sexo, até porque eu nem acredito que alguém ainda fique chocado com imagem de sexo. Alguém falou para mim que os temas do filme são polêmicos e eu respondi que polêmico é alguém achar que esse tema ainda é polêmico. Isso para mim é que a verdadeira polêmica.

Ainda estou esperando (a recepção no circuito comercial) e estou super bem preparado em relação a isso. É uma discussão que me interessa no Cinema, que não está pautando só o cinema brasileiro, está pautando o Cinema no mundo. Várias cinematografias têm vindo com essa questão do comportamento, do que se mostra, o que é o corpo, até onde o corpo do ator pode ir. O que é mais interessante é que o mercado da violência banalizou tanto a violência que o ator que está encarnando um assassino ou algo do tipo não é confundido com o próprio personagem, isso não coloca o ator em evidência, mas o corpo coloca.

Alguém me falou depois de ver o Tatuagem que adorou as cenas de sexo, mas que elas não foram o que ficou do filme. Essa era uma intenção da gente, de fazer um trabalho de corrupção do olhar. A ideia é, em vez de você fechar janelas, você abrir janelas, e para você abrir janelas e conquistar o olhar você tem que ser muito sincero com o que faz. Transformar uma coisa em pública não é adequar o gosto do público ao que você está fazendo, inclusive porque esse público é muito variado, sei lá que gosto tem esse público, não interessa. Interessa sim saber pelo que essas pessoas vão se interessar vendo esse filme e vão ser chamadas para assistir.

Nesse sentido, quando você tem um festival como o Mix, que eu respeito bastante e tenho acompanhado, talvez ele tenha a função muito interessante de levar essa discussão para o universo gay também. Eu sou gay, mas não me interessava fazer um filme gay. Eu não sei o que é um filme gay, não sei exatamente definir o que é isso. Eu já assisti muitos filmes na minha vida que nunca foram pautados desse jeito. Passei minha adolescência assistindo Pasolini, Fassbinder… Ninguém nunca chamou um filme de Pasolini de filme homossexual. Os filmes tinham outra função, e eu acho que temos que voltar a estabelecer essa função.             

Eu acho que o Mix tem um papel importantíssimo de colocar a diversidade sexual em evidência e também para começar a mostrar que essa diversidade sexual não existe mais pela diferença, mas pela corrupção do olhar e pela capacidade que a gente tem de resgatar novos olhares sobre a produção que a gente está fazendo. Talvez um passo a frente fosse a gente discutir mais o pós-gênero do que o próprio gênero. Isso é algo que me interessa bastante.

 

CF: Qual é a expectativa de público que o filme tem e como você lida com isso?

HL: A gente tem um Cinema que é bastante controlado do ponto de vista da visibilidade, e isso me preocupa muito. Nós temos um monte de leis no Brasil inteiro e nos estados e prefeituras que estimulam a produção cinematográfica, mas há muita pouca coisa no sentido de estimular a visibilidade desses filmes. Obviamente nós vivemos em um país capitalista no qual as pessoas trabalham por uma questão de dinheiro, mas há uma lei que é muito canhestra e mesquinha em relação ao que podemos conseguir. Na verdade há muito mais uma reserva de mercado para outros mercados do que para nós mesmos.

Eu entendo muito pouco de mercado, sou muito intuitivo nesse sentido. Então apostar sobre que público é esse que a gente vai conquistar eu não sei, agora obviamente eu queria conquistar muitos olhares e muitas pessoas. O Brasil é um páis muito grande, e quando eu falo desses olhares talvez eu esteja falando de olhares específicos, formadores (de opinião), um público mais jovem, mas mesmo esse público tem feito muita falta nas salas de cinema. Um filme como o Febre do Rato não chegou a fazer 50 mil espectadores, e é um filme que teve uma certa publicidade espontânea. Nós temos muito poucas janelas de exibição. E além de tudo, como você computa esse público? Só é computado esse público a partir de uma bilheteria específica de cinemas específicos.

Nós temos que se movimentar para tentar criar novas janelas de visibilidade, e eu acho que a gente vai tentar fazer um pouco disso. Tem a raia normal que você corre com os cavalos que já estão ocupando essa raia, mas a gente vai tentar criar outras raias. Esse paradigma do acesso do público tem que ser mudado na figura cinematográfica brasileira. O Tatuagem é um filme que nesse momento está muito voltado para ser discutido dentro do Brasil. Nós queremos muito que isso tenha um resultado prático aqui dentro, até pela atitude cinematográfica de toda a equipe do filme, que está empenhada nisso.

 

CF: Quais são os seus próximos projetos?

HL: Eu terminei um roteiro há pouco que é uma adaptação de um livro do Cristovão Tezza chamado Juliano Pavollini, que eu adaptei junto com Francisco Guarnieiri e Ana Carolina Francisco e será o primeiro trabalho solo de Caio Blat como diretor. Devo fazer o último tratamento do roteiro do novo filme de Cláudio (Assis), que é o Big Jato, uma adaptação de um livro do Xico Sá, e estou preparando um projeto novo muito calmamente. Não tem título definido ainda, mas eu espero até o meio do ano já estar com esse projeto pronto. No momento, porém, o meu principal foco é o Tatuagem.          

 

CF: Você pretende seguir dirigindo filmes de ficção?

HL: Sim, esse próximo projeto que estou fazendo será o segundo filme de ficção que vou dirigir.  

 

 

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