Parece que vivi sete anos em dois, diz atriz premiada em Brasília

Parece que vivi sete anos em dois, diz atriz premiada em Brasília

 

Por Adriano Garrett

 

As tentativas de fazer calar o latido incessante de um cachorro proporcionaram à atriz Maeve Jinkings uma visibilidade que ela nunca havia experimentado. O sucesso no papel de Bia em O Som ao Redor – lançado em 4 de janeiro deste ano nos cinemas brasileiros – foi um ponto marcante de um período extremamente prolífico para a artista, que participou de quatro filmes em um curto espaço de tempo.

Além da aclamada obra de Kleber Mendonça Filho, ela também trabalhou em Era Uma Vez Eu, Verônica (de Marcelo Gomes), Boa Sorte, Meu Amor (de Daniel Aragão) e, por último, em Amor, Plástico e Barulho (de Renata Pinheiro), que lhe proporcionou o prêmio de melhor atriz no último Festival de Brasília e faz parte da programação da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

“Parece que eu estou no olho do furacão, sabe? Começou pelas viagens que O Som ao Redor me proporcionou, o contato com outros artistas, o olhar dos outros sobre aquilo que a gente está produzindo. A sensação que eu tenho é que nesses últimos dois anos eu vivi sete. Tem sido tudo muito denso, e às vezes eu tenho dificuldade até de processar tanta coisa que acontece junto”, conta a atriz, em entrevista ao Cine Festivais.

“É evidente que isso provoca um amadurecimento pessoal muito grande, uma qualidade de produção e reflexão sobre o trabalho que me amadureceu muito como atriz. E o prêmio de Brasília é sim o ápice disso, é uma honra gigantesca. Eu não consigo imaginar uma honra maior do que receber um prêmio de atuação em Brasília, que é um festival que eu respeito muito”, completa.

Maeve ganhou o prêmio de melhor atriz no último Festival de Brasília

Desafios do brega

Em Amor, Plástico e Barulho a atriz interpreta Jaqueline Carvalho, uma decadente cantora de música brega que atingiu outrora o status que Shelly (Nash Laila), uma das dançarinas de sua banda, quer alcançar. É um filme que fala sobre a fugacidade do sucesso, característica que chamou especial atenção de Maeve.

“As filmagens aconteceram no momento em que O Som ao Redor estava fazendo uma trajetória muito bonita pelos festivais e eu estava vendo uma exposição do meu trabalho que ainda não tinha experimentado. Discutir isso fazendo o filme da Renata foi um privilégio, um meio de refletir sobre essa coisa descartável com a imagem, com a ideia que a gente tem do sucesso, a expectativa que nós temos sobre isso”, afirma.

Brasiliense de nascença, mas paraense de criação, Maeve cresceu em uma família de classe média em Belém tendo muito contato com a música brega. Esta ligação afetiva foi um dos chamarizes para que a atriz se interessasse pelo projeto, mas o processo de preparação mudou o imaginário que tinha sobre o gênero. O som sempre alto e as letras com forte teor erótico não combinavam com as músicas que ela se recordava de ouvir durante a infância e adolescência.

“Na preparação para o papel eu fui ver o show de uma musa do brega, mas antes de ela entrar teve o show de uma outra banda com um MC. Eu estava muito irritada vendo aquele show, achando a música um lixo, agressiva, violenta, uma letra horrível, estava julgando muito. Eles tinham uma pegada bem de funk, extremamente erótico, mas tinha alguma coisa ali naquela música que, quando eu percebi, meu joelho começou a balançar no ritmo da música. Nesse momento eu me dei conta que a minha cabeça estava brigando com o meu corpo e parei de tentar construir a personagem racionalmente. Minha cabeça julgava enquanto que meu corpo reagia com prazer àquele som. Foi um ponto de virada na preparação”, recorda.

Outro ponto que chamou a atenção da atriz foi o papel da mulher em um meio extremamente machista. Segundo Maeve,  o que o brega faz é mostrar tudo de modo superlativo. “É como se ele deixasse muito cru uma característica que não é do brega, é de toda a sociedade. Essa relação com o sexo, com o corpo. A mulher tem sim a sexualidade explorada, mas elas têm consciência disso. Elas estão sendo usadas, mas também passam a usar. Elas têm consciência dessa arma e utilizam isso para tirar vantagem também”, afirma a artista.

Em Amor, Plástico e Barulho a atriz interpreta uma decadente cantora brega 

Recifense por opção

Apesar de ter raízes em Brasília, Belém e São Paulo, a ligação profissional mais visível de Maeve Jinkings é com o Recife. Os quatro filmes recentes em que trabalhou foram realizados por diretores pernambucanos, e a capital do estado se tornou local usual de trabalho (embora ainda mantenha residência na capital paulista).

O encontro entre artista e cidade se deu em um momento efervescente do cinema pernambucano, que revelou um grande número de diretores talentosos e é considerado por boa parte da crítica brasileira como a cinematografia de maior qualidade e inventividade do país. Mesmo distintos, cineastas como Kleber Mendonça Filho, Marcelo Gomes e Renata Pinheiro têm ao menos um tema de interesse comum em suas obras: a especulação imobiliária ocorrida no Recife.

“Eu acho que quase todas as cidades no nosso país estão passando por um processo de transformação urbana, mas se juntou no Recife uma cena cinematográfica particularmente produtiva, um conjunto de realizadores que tem vontade de falar sobre essas mudanças que a cidade está vivendo. Eu acho que eles têm uma natureza combativa e buscam discutir como tudo isso afeta a gente. É nesse sentido que isso atravessa essa produção audiovisual recente no Recife. A própria produção está crescendo, mas o que interessa é discutir como esse crescimento se dá”, opina Maeve.

A atriz já está escalada para atuar em Valeu, Boi, primeiro longa-metragem de ficção de Gabriel Mascaro (Doméstica). Os ensaios para o filme, que falará sobre o universo dos vaqueiros no interior de Pernambuco, estão marcados para ter início em fevereiro de 2014. Será mais um capítulo de uma frutífera relação de trabalho entre a atriz e diretores pernambucanos que, felizmente, não tem data para acabar.

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