Crítica: La Jaula de Oro

Crítica: La Jaula de Oro

 

Por Ivan Oliveira

 

A imigração ilegal de muitos latino-americanos para os EUA receberá tratamento raro e belo no longa mexicano La Jaula de Oro, que vem arrebatando prêmios pelo mundo durante as últimas semanas. No filme do estreante Diego Quemada-Díez, embarcamos numa viagem de trem (de carga), pegando carona com aqueles que querem tentar uma vida melhor no sul dos EUA. São muitos. Vários oriundos das favelas da Guatemala, caso dos adolescentes Juan, Sara e Samuel, grupo que iremos acompanhar nessa verdadeira odisseia.

No meio do caminho, em território mexicano, conhecem Chauk, jovem índio de Chiapas. Sem saber falar espanhol, ele conquistará gradualmente a confiança e amizade dos outros, fortalecendo o grupo, apesar de também criar conflitos, como o triângulo amoroso que forma com Juan e Sara.

Sensível e doce, mas sem deixar de mostrar o lado infernal dessa aventura migratória, La Jaula de Oro traz, em sua estrutura, dois dos maiores apelos do cinema atual: o on the road, acentuado pelo jogo metafórico vindo da figura do trem/trilho e pelas lindas paisagens (os imigrantes viajam em cima dos vagões o tempo todo, presenciando a  natureza em quase todos os registros de luz, da alta madrugada ao nascer do sol), e a trama de maturação, afinal são adolescentes  que estão descobrindo o potencial de uma amizade ao mesmo tempo em que sofrem perdas e sentem na pele as injustiças e desvios do sistema do qual fazem parte. O elenco é gracioso, composto por olhares expressivos e eficiente na impressão de ternura à amizade que, em diversos momentos, será o único alicerce no qual o grupo poderá se ancorar.

Particularmente, considero que o mais encantador nos filmes que mostram grandes percursos é descobrir que o deslocamento sempre é dúbio. Uma jornada dessas é agraciada com o maravilhoso sentimento de Ulisses, mas necessariamente significa também perder pedaços de si mesmo, deixar coisas para trás. No caso de La Jaula de Oro, a trilha até os EUA é ainda mais implacável do que as contradições naturais pois representa a busca por sair da margem, a busca por uma vida digna. E, contra isso, os obstáculos do caminho incluirão traficantes, assaltos, missões religiosas e gangues locais. Com muita fluência narrativa e cenas inspiradas, o filme de Quemada-Díez vai, melancolicamente, nos ensinar que, nessa missão, são poucos os que chegam até o final. 

Nota: 9,0/10 (Excelente)

 

Sessões do filme na Mostra:

1 comentáriopara“Crítica: La Jaula de Oro”

  1. […] Mais: escrevi sobre o filme La Jaula de Oro no Cine Festivais e você pode ler aqui. […]

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