Crítica: Miss Violence

Crítica: Miss Violence

 

Por Ivan Oliveira

 

Uma porta se abre e, junto a balões, vestidos brancos e uma mesa repleta de doces, somos apresentados a uma família em festa. Dançam “Dance me to the end of love”, de Leonard Cohen. É a celebração do aniversário de onze anos de Angeliki (Chloe Bolota). Mas ela se afasta do grupo e chega à varanda do apartamento. Olha para a câmera (para nós, público), dá um sorriso e se joga.

O grego Miss Violence, de Alexandros Avranas (Leão de Prata de Direção em Veneza), começa assim, descortinando um momento festivo e nos tornando cúmplices de um suicídio precedido por um incompreensível sorriso. No que se segue, buscamos, assim como a assistência social, entender o que causaria tal tragédia em uma família aparentemente normal.

O apartamento de classe média onde vivem é preenchido por tédio e apatia, elementares nas sequências iniciais, que são descosturadas e produzem algumas dúvidas (demoramos um pouco a entender os parentescos dispostos ali, por exemplo) e estranhezas. A câmera de Avranas explora lacunas, cantos de parede, portas entrefechadas e perdura em planos geometrizados na mesa de jantar ou no sofá quadriculado, explorando a dinâmica de como esses espaços são ocupados pelos membros da família. A ausência de trilha, a economia de falas e a fotografia lavada e descolorida sugerem alguma esterilidade: há um desafeto, há algo de estranho ali.

A sensação não mente. E Avranas irá impor um doloroso ritmo de descoberta ao espectador, que, aos poucos, desnuda o que o silêncio e a enorme tensão presente nos olhares estavam insinuando. O que se revela por meio de pancadas das quais não conseguimos levantar tem como centro a figura nefasta do avô de Angeliki (o amedrontador Themis Panou, premiado com o Coppa Volpi de melhor ator em Veneza) e gera ápices dramáticos extremamente perturbadores.

Aliando a violência física ao seu consequente imperativo psicológico, Miss Violence possui pelo menos três marcas estéticas que abrilhantam o filme e lhe conferem enorme intensidade: a minuciosa escalada de emoções, encadeada por um roteiro que tenta nos levar ao cume; a secura dos planos estáticos, que aqui serve para nos machucar; e as olhadas para a câmera, em especial as da personagem da avó (a excelente Reni Pittaki), recurso que há muito tempo não era usado de maneira tão expressiva – ora somos cúmplices, ora provocados, ora convocados a prestar socorro em olhares arrepiantes.

Sob influência da crise financeira vivida pela Grécia atual, Avranas eleva o mal estar a graus maiores, querendo enunciar uma crise moral e desumana. Consegue gritar através do impacto do pior tipo de violência; aquela que, de tão perversa, não pode ser compreendida ou relativizada. Os dilacerantes 98 minutos de Miss Violence e um desfecho aberto e provocante (para o desespero de muitos) tornam o filme uma obra pungente e inesquecível.

Nota: 10/10 (Excelente)

 

Sessões do filme na Mostra:

Dia 31/10
18:20 – CINE SABESP

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Reni Pittaki em um dos olhares para o público em Miss Violence

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