Crítica: Outro Sertão

Crítica: Outro Sertão

 

Por Adriano Garrett

 

Baseado em uma extensa pesquisa histórica, o documentário Outro Sertão, dirigido por Adriana Jacobsen e Soraia Vilela, mostra ao público uma faceta diferente da vida do grande escritor brasileiro João Guimarães Rosa. A obra do autor serve apenas como pano de fundo longínquo para o filme, que investiga a atuação de Rosa como vice-cônsul do Brasil em Hamburgo em um período (1938-1942) em que os nazistas governavam a Alemanha e buscavam expandir sua influência para o resto do mundo por meio da Segunda Guerra Mundial.

O poliglota escritor brasileiro tinha especial apreço pela língua e pela cultura alemãs, o que tornou a sua estada naquele país ainda mais decepcionante. Através principalmente de correspondências e diários escritos por Rosa, o filme mostra como a sua empolgação inicial com a mudança para a Alemanha se transformou conforme entendia as barbaridades que estavam sendo cometidas pelo regime nazista, notadamente contra os judeus. É interessante e triste notar como o escritor, tão fascinado pela beleza das palavras e da vida, se vê abalado pelo horror que presencia.

Um documento do governo alemão repreendendo a postura de Guimarães Rosa aparece como indício de um descontentamento que saberemos mais tarde não ter ficado apenas no campo das ideias. O filme tem como revelação principal a sua atuação como uma espécie de Oskar Schindler brasileiro, que resolveu agir para proteger famílias judias do regime nazista. Alguns depoimentos e dados reveladores do período enquadram o escritor como responsável principal pela concessão de vistos de turismo para o Brasil a pessoas que tinham a intenção única de fugir da Alemanha de Hitler.

Entre as principais fontes do filme está uma entrevista que o escritor concedeu a uma televisão alemã em 1962. Entendendo perfeitamente as perguntas do apresentador e discorrendo em português sobre sua carreira, o brasileiro mostra indiretamente, através de suas falas, que a admiração pela cultura alemã não foi abalada pela situação que vivenciou quando morou em Hamburgo. A questão que fica para o espectador, então, é o quanto aquele período foi importante para a formação do escritor, que viria a se consagrar posteriormente com obras como Sagarana e Grande Sertão: Veredas, esta última claramente influenciada pelo Fausto do escritor alemão Goethe.

Contando ainda com uma boa pesquisa de imagens de arquivo que ilustram a sua história, o filme não se ressente de uma estrutura burocrática e acaba contando bem uma história que, por ainda não estar totalmente esclarecida, abre caminho para descobertas futuras sobre o caso.

Nota: 7,0/10 (Bom)

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