Crítica: O Grande Mestre

Crítica: O Grande Mestre

 

Por Ivan Oliveira

 

O kung fu, uma das artes marciais mais plásticas, virou colírio para os olhos de um dos estetas mais pop do cinema mundial. O estilo de Wong Kar Wai (Amor à Flor da Pele, de 2001) tem presença marcante: insistentes close-ups em contra-plongée (câmera de baixo para cima), corpos em contraluz, rostos sombreados, uso constante da câmera lenta, rigor na organização espacial das cenas e um cuidado particular com as cores. Em O Grande Mestre, tudo isso pinta um épico sobre Ip Man (Tony Leung), reconhecido mestre de kung fu, que orientou, entre outros lutadores, o lendário Bruce Lee.

O sul da China, nos anos 30 (em magistral recriação de época), é o cenário para Ip Man desafiar o honorável mestre Gong Yutian (Qingxiang Wang), pai da bela Gong Er (Hye-kyo Song). Em inusitada luta, Ip Man derrota o mestre, provocando a ira de Gong Er, que o confrontará. O intenso jogo entre os dois personagens será uma das melhores escolhas de Kar Wai, pois a dinâmica dos opostos vai além do óbvio (masculino x feminino), tocando em questões filosóficas e até na diferença, visível nos golpes, entre duas escolas de kung fu (norte x sul). Trata-se de um embate entre duas paletas de cores, duas almas distintas, mas que, em alguns suspiros, se encontrarão no comprometimento com valores nobres e numa arrepiante troca de olhares em meio a uma difícil luta.

O lindo conflito e a potente atmosfera de solidão que ameaça os dois personagens disputarão o foco narrativo do filme com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a consequente invasão da China pelos japoneses, uma traição inesperada, a contextualização histórica do sudoeste chinês na 1ª metade do século XX e a recuperação, em paralelo, da trajetória e evolução do kung fu e das artes marciais chinesas. Não são apenas tópicos da ambientação de uma grande história, a de Ip Man, mas caminhos de tramas que, em várias vezes, conversam mal entre si.

Reconhece-se em Wong Kar Wai a capacidade de trabalhar com múltiplos focos narrativos, mas, em O Grande Mestre, a construção dilacerada de personagens mais enfraquece os afluentes da narrativa do que fortalece o todo. Como seus protagonistas não são tão desenvolvidos, a força dramática tende a ser menor e muitas das transformações do filme chegam de paraquedas e parecem arbitrárias.

Se podemos pleitear unidade e coesão de uma cinebiografia, o filme de Wong Kar Wai padece de raízes importantes para a qualidade épica à qual aparentemente se propõe. Se o objeto imperasse como um quadro de pinceladas abstratas – e Kar Wai sempre terá essa desculpa na manga – estaríamos diante de um lindo filme.

Nota: 7,0/10 (Bom)

 

Sessões do filme na Mostra:

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