Crítica: Curtas de Stanley Kubrick

Crítica: Curtas de Stanley Kubrick

 

Por Adriano Garrett

 

É natural que olhemos para a obra de Stanley Kubrick com bastante expectativa. Dono de uma filmografia invejável e ímpar, o diretor americano consolidou o seu nome na galeria dos grandes da Sétima Arte ao realizar 13 longas-metragens em cerca de 50 anos de carreira. A sua produção em curtas-metragens, porém, deve decepcionar aqueles que estão acostumados com o seu padrão de qualidade.

Kubrick começou a carreira artística como fotógrafo da revista Look antes de se tornar diretor de cinema. Um desses trabalhos no fotojornalismo – o ensaio Prizefighter – serviu como base para o seu primeiro curta-metragem, chamado Day of the Fight. Nele, o cineasta americano conta exatamente aquilo que o título sugere: a rotina de um boxeador (Walter Cartier) nas horas que antecedem a sua luta.

O curta não apresenta nenhum tipo de diálogo entre os personagens, o que o faz parecer um filme mudo no qual os intertítulos dão vez à constante narração em off. Há alguns momentos interessantes, como quando o protagonista brinca com um cachorro no mesmo momento em que o narrador destaca as suas qualidades como boxeador, ou quando ele se olha no espelho testando a sua aparência caso tenha o nariz quebrado durante a luta.

A preocupação estética do diretor é notada principalmente na cena da luta de boxe, na qual ele se mostra inventivo ao utilizar um plano contra-plongée (câmera baixa apontando para cima), mas o realismo pretendido não chega a ser alcançado graças à falta de um bom trabalho de som e de um ensaio melhor dos golpes.

O interesse pela rotina de um homem comum e pouco valorizado retorna em Flying Padre, no qual Kubrick conta a história de um religioso que trabalha em uma área rural e utiliza um avião para atender ao maior número possível de fiéis. A estrutura é a mesma do filme anterior, com a narração dando um tom grandiloquente às ações do protagonista.

De relevante, é interessante notar o gosto de Kubrick pelos closes de rostos de pessoas comuns, algo que certamente ele adquiriu ao trabalhar com a fotografia. Um traço do humor do diretor também surge quando o narrador pontua uma atitude de um garoto após se reconciliar com uma menina a pedido do padre.

Se nesses dois filmes é possível achar um traço autoral do diretor aqui e ali, em The Seafarers essa missão fica mais difícil. De curioso há apenas o fato de este ser o primeiro filme em cores de Kubrick. Tirando isso, a obra não passa de uma peça de propaganda arrastada do Sindicato Internacional de Marinheiros, que pretende retratar a organização como um verdadeiro Paraíso na Terra. A única importância que posso atribuir a essa produção – e que não é pequena – é a de ter gerado receitas para que Kubrick prosseguisse na carreira de diretor de cinema.

Nota para Day of the Fight: 6,5/10 (Regular)

Nota para Flying Padre: 6,0 (Regular)

Nota para The Seafarers: 4,0 (Ruim)

 

Sessões do Programa Kubrick (curtas + A Morte Passou Por Perto) na Mostra:

Dia 31/10

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.

*