Las Analfabetas se insere no debate sobre a educação no Chile

Las Analfabetas se insere no debate sobre a educação no Chile

 

Por Adriano Garrett

 

Os grandes protestos organizados por estudantes chilenos a partir de 2011 em prol de melhorias na educação demonstraram o descontentamento de boa parte dos cidadãos daquele país com um sistema educacional que não sofreu grandes mudanças após a queda da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Aproveitando esse tema de maneira indireta, o filme Las Analfabetas, do diretor Moisés Sepúlveda, apresenta a história de uma senhora analfabeta que, com alguma relutância, decide se alfabetizar com o auxílio de uma professora recém-formada. Dessa relação ocorre uma troca mútua entre mulheres com conhecimentos distintos.

Leia a seguir uma entrevista do Cine Festivais com o diretor do filme chileno, que está sendo exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

 

Cine Festivais: De onde surgiu a ideia para o filme?

Moisés Sepúlveda: O filme é baseado em uma peça de teatro que também se chama Las Analfabetas, escrita por Pablo Paredes, que estreou no Chile em 2010 e também passou por outros países, como Argentina e México. As filmagens da adaptação para o cinema foram feitas em 2011.

 

CF: O que chamou a sua atenção para a história?

MS: Eu me apaixonei pelo trabalho de Pablo Paredes vendo a peça Las Analfabetas. Há pouco tempo eu me dei conta que o que mais gostei na história foi o final, que destroça o espectador. Acho que tem a ver com a valentia do aprendizado tardio, da valentia de aceitar o quanto não sabemos.

Por anos, em paralelo à minha trajetória como diretor, eu trabalhei como mágico profissional, e nesse ofício eu tive que enfrentar muitas vezes o desejo das pessoas de conhecerem os segredos do mágico. A verdade é que é muito legal fazer mágicas, mas é muito triste saber como elas são feitas. Elas são feitas de modo muito simples, e saber isso é algo decepcionante. Por isso só se deve ensinar mágica para alguém que quer ser mágico.

É muito doloroso simplesmente saber, e isso é um pouco o que essa personagem enfrenta. Quando vi o final percebi que essa mulher analfabeta estava olhando para o chapéu do mágico. Ela pensa que está fechando um ciclo, mas na verdade está iniciando outro.

 

CF: Como foi o processo de trabalho com as atrizes principais?

MS: O filme manteve as duas atrizes que faziam a peça (Paulina Garcia e Valentina Muhr). Por um lado isso foi bom, porque elas tinham uma química muito boa e um ritmo muito interessante. As duas travam um duelo particular, e isso faz com que o filme seja muito divertido, apesar da dramaticidade. Por outro lado, tive que fazer um filme realista, coisa que a peça não era. Então era um pouco difícil para tirar a teatralidade das atuações, mas conseguimos encontrar boas soluções e estou muito satisfeito com o trabalho delas.

 

CF: Houve um debate recente muito grande sobre educação no Chile. Como isso influenciou o filme, que discute diferentes formas de conhecimento?

MS: Para mim o filme é justamente sobre dois tipos diferentes de educação. A educação de vida trazida pela analfabeta e a educação da professora, que de alguma forma é uma crítica dura a um tipo de educação competitiva que está instalada nas Américas, que se baseia em rankings, memorizações, aprovações em provas. Acho que essas duas educações se chocam no filme.

Quando fizemos o filme sempre pensamos em falar sobre educação, que é um tema que se discute muito no Chile, e opinar sobre esse tema.   

Sim, nós falamos sobre analfabetismo, mas na verdade estamos falando sobre a educação formal, fazendo uma crítica a um modelo educativo baseado na competição, que segrega as pessoas. Então eu acho que é um filme que opina sobre a educação chilena de uma maneira indireta.

 

CF: A que você atribui o sucesso recente do cinema chileno, que se destacou internacionalmente em filmes como No (de Pablo Larraín, indicado ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira) e Gloria (de Sebastián Lelio, vencedor do prêmio de melhor atriz no último Festival de Berlim)?

MS: O cinema chileno está produzindo filmes que estão sendo vistos no mundo e que tem feito sucesso dentro do país. Durante a ditadura Pinochet (1973-1990) se chegou a filmar apenas um ou dois filmes por ano. A partir dos anos 90 abriram-se 40, 50 escolas de cinema no país. Nós formamos muitos profissionais. Havia filmes experimentais, mas eram poucos os filmes nacionais que enchiam as salas de cinema.

Hoje acho que alguns diretores de cinema, entre os quais gostaria de ser incluído, estão pensando em temas mais abrangentes, deixando de trabalhar para seus colegas e fazendo filmes para as pessoas, com temas interessantes.   

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