Crítica: Democracia em Preto e Branco

Crítica: Democracia em Preto e Branco

 

Por Ivan Oliveira

 

Boa parte dos documentários brasileiros em competição no É Tudo Verdade 2014 busca um registro memorialista, adepto do recorte de um pedaço da história que tenta lembrar quem somos ou como chegamos até aqui. O cineasta Pedro Asbeg tematiza a questão unindo esporte e política ao realizar Democracia em Preto e Branco, que nos conta como o time do Corinthians do início da década de 80 se tornou um símbolo da luta pela democracia no país, no movimento que ficou conhecido como Democracia Corinthiana. 
 
Após uma odisseia que envolveu interrupção nas gravações, buscas por financiamento e demora no lançamento, a produção conjunta entre a ESPN, TV Zero e Miração Filmes finalizou um documentário sem grandes pretensões formais ou necessidade de se impor enquanto cinema. Com simplicidade, interessa mais a Asbeg reconstruir, com vídeos de arquivo e depoimentos, as ocasiões mais marcantes e estabelecer protagonismos. Nesse aspecto, assistimos ao destaque para a figura do sociólogo Adílson Monteiro Alves, escolhido pelo por Waldemar Pires (então presidente) para ser Diretor de Futebol do Corinthians. Foi ele quem promoveu no clube o ideal de participação em que jogadores, comissão técnica e demais funcionários tinham voz igualitária na tomada de decisões, tais como locais de concentração, contratações, escalação, entre outras. 
 
Entre os jogadores, o documentário exalta a força de três figuras emblemáticas para o movimento: um intelectual de esquerda (Sócrates), um negro filho da classe operária (Wladimir) e um jovem rebelde (Casagrande). O ex-goleiro Leão dá o contraditório ao questionar o termo “democracia”, dizendo que as decisões, na realidade, eram tomadas por uma minoria intimidadora e opressiva.
 
Os vídeos e imagens de arquivo têm sua força e funcionam mais para evocar lembranças do que os depoimentos, pouco inspirados. Ainda que a época tenha evidente valor sentimental para os entrevistados, mesmo os jogadores que participaram do movimento não saem muito da fala protocolar. Já a narração de Rita Lee é um afresco e dá leveza a um texto que já se pretendia informal. Além dela, é fácil reconhecer as outras vozes sublinhando imagens: Lula, Marcelo Rubens Paiva, Serginho Groisman, Washington Olivetto (criador do termo “Democracia Corinthiana”) e Juca Kfouri integram o já habitual coro de corinthianos ilustres.
 
Se o parentesco ideológico entre a Democracia Corinthiana e as greves operárias é mais sólido, a conexão com o rock nacional oitentista, pelo que é mostrado, carece de substância. Por ser um acontecimento contemporâneo ao movimento e também ter caráter transgressor, pertence ao contexto, mas não se vê maior justificativa para que abocanhe o tempo destinado a ele no documentário. Outra liberdade diz respeito às falas que atribuem à Democracia Corinthiana importância crucial para a redemocratização do país. O que vemos através das campanhas e gestos do movimento é uma relevância simbólica; o time levou ao povo conceitos e imagens importantes para a valorização da ideia de democracia. Já é suficientemente belo e foi muito além do que se esperava de um time de futebol. 

 

Nota: 6,5/10 (regular)

 

Sessões no É Tudo Verdade 2014

 

 

 

 

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