Crítica: Bernardes

Crítica: Bernardes
 
Por Ivan Oliveira 

Muitos especialistas consideram o arquiteto Sérgio Bernardes um dos grandes nomes da arquitetura moderna brasileira. Da geração de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, Bernardes notabilizou-se pela construção de residências inovadoras, como a casa de Lota Macedo Soares, primeira do Brasil a ser feita com estrutura metálica, e mansões para celebridades, como a do cirurgião plástico Ivo Pitanguy. Eclético e workaholic, passou a projetar também para órgãos públicos, ganhou diversos prêmios importantes, idealizou projetos de cidades futuristas e, já com décadas de carreira, ingressou na política. Ficou estigmatizado, contudo, ao trabalhar para a ditadura: construiu o Mausoléu de Castello Branco (1968) e o Pavilhão das Bandeiras (1969), considerado uma ousada interferência na Praça dos Três Poderes (Brasília), onde apenas Oscar Niemeyer, exilado em Paris na época, tinha colocado a mão. 

 
12 anos após sua morte, Bernardes é figura central do documentário homônimo conduzido por Thiago Bernardes, neto de Sérgio, que contou com a direção de Gustavo Gama Rodrigues e Paulo de Barros e co-produção da GNT. É Thiago quem entrevista, quem nos mostra a obra de Bernardes e quem parece querer deixar um registro que preserve a memória e o legado de seu avô, aparentemente ignorado pela academia devido à relação com os militares. 
 
Por estruturar-se a partir de uma longa linha do tempo ilustrada e comentada, o documentário carrega consigo várias das questões em torno da construção de uma identidade. Na mais interessante delas, o fato de Thiago também ser arquiteto, conhecer de longa data boa parte dos entrevistados (vários são amigos e familiares) e a opção que estampa o sobrenome da família no título do filme não enganam: compreender quem foi o avô é também buscar a si mesmo. Visitando as obras mais relevantes de Bernardes, Thiago funciona como um guia emotivo e passional, dialogando sobre a obra do avô, mas também buscando nela significados pessoais. 
 

A condução que nos apresenta o personagem é assumidamente laudatória. Mesmo com a presença de especialistas afastados do convívio pessoal com Sérgio, como o arquiteto e crítico Guilherme Wisnik, a atmosfera que se cria com os depoimentos é de encantamento: além de todas as qualidades de um arquiteto polivalente e inventivo, Sérgio era “sedutor, sonhador, obstinado, corajoso, visionário”. Em meio aos elogios, as falas ganham expressão quando ressaltam particularidades do retratado – como a espantosa memória que o fazia lembrar nome e sobrenome de todos que conhecia – ou quando relatam casos curiosos – em um deles, Sérgio, surpreendido por um ladrão que invade sua casa, pede para que o sujeito leve os objetos de que não gosta mais e ainda lhe arranja um emprego. 

O peso do envolvimento de Bernardes com a ditadura fica, discutivelmente, em segundo plano. Na operação da narrativa audiovisual, a ordem dos fatores altera o produto: quando sabemos dos feitos de Bernardes para os militares, já estamos seduzidos pela figura do arquiteto enérgico e criativo. Rapidamente, amigos e especialistas dão a entender que é injusto o antagonismo simbólico com Niemeyer, politizado e comunista, e que o preço que a reputação de Bernardes pagou foi alto demais. Mas, como se quisesse mostrar que o arquiteto foi “muitas outras coisas”, o documentário segue adiante e a questão, relevante para obra e vida do arquiteto, ganha tom menor, em oposição ao tratamento que recebe fora do documentário. 

Nota: 6,0/10 (regular)

Sessões no É Tudo Verdade 2014

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