Crítica: A Mentira de Armstrong

Crítica: A Mentira de Armstrong

 

Por Adriano Garrett

 

Era para ser um filme consagrador. Lance Armstrong, o ciclista que havia vencido por sete vezes a tradicional Volta da França depois de superar um câncer testicular, voltava a competir e buscava mais um título do evento francês. O retorno do atleta foi registrado de perto pelo cineasta Alex Gibney, que com o passar do tempo teve que alterar a concepção de sua obra devido a um fato que mudava tudo: Armstrong estava dopado em todas as suas principais conquistas, o que resultou na cassação dos seus títulos, no banimento do esporte e em uma já famosa confissão no programa de Oprah Winfrey. Como seria possível, então, dar prosseguimento ao documentário?

A Mentira de Armstrong é um filme que se questiona constantemente. Gibney, que narra o filme em primeira pessoa, apresenta um misto de indignação e atração em relação ao personagem principal. Indignação porque, por muito pouco, o seu documentário não exaltou como herói uma pessoa que se revelou, para se dizer o mínimo, um especialista em mentiras. O diretor se sente traído não só como pessoa, mas como documentarista, atentando para o fato de que Armstrong buscava “dominar” a narrativa de seu filme. Por outro lado, há uma atração clara por desvendar os pensamentos do ciclista, que era tido como um herói nacional por causa da sua trajetória de superação e do trabalho de apoio a crianças com câncer, e que sempre se defendeu enfaticamente, inclusive na Justiça, das acusações de doping.

O principal questionamento que guia o filme e traz ares enigmáticos para Armstrong diz respeito aos motivos que levaram o ciclista, que se aposentou como um ícone do esporte e escapou das denúncias de que competia dopado, a retomar a carreira. Era bem provável que nada viria à tona se ele permanecesse longe dos holofotes, mas a volta reacendeu as suspeitas sobre o atleta nas entidades reguladoras e despertou a indignação de ex-colegas que sabiam das suas práticas ilegais.

Armstrong achava que não seria descoberto? Acreditava que o doping, por ser comum no ciclismo, não era imoral? Queria provar que poderia competir “limpo” e ganhar (se é que realmente não se dopou no retorno)? São algumas das perguntas que se sucedem e que ficam sem uma resposta clara em boa parte das vezes. Isso, longe de ser um problema, apenas reforça o interesse do espectador pelo personagem, evitando o que poderia ser uma condenação rasa e simplória do ciclista.

Há, no fundo, uma grande disputa de narrativas entre o ciclista e o diretor: Armstrong continua tentando acobertar a sua grande mentira, mas parece mais preocupado em construir uma nova página heroica na sua carreira – ele pede desculpas por “estragar” o filme de Gibney quando percebe que não vencerá a Volta da França em 2009; o cineasta, por sua vez, tem o dever de contestar a narrativa que imaginara para o documentário – que até tinha um “final perfeito” separado – e seguir adiante desconstruindo a narrativa de Armstrong, fazendo uma espécie de mea culpa em relação à obra que tinha planejado.       

É verdade que o filme sente um pouco a duração de mais de duas horas e apresenta problemas de ritmo principalmente em sua parte final, algo que poderia ser resolvido com um corte final menor. Apesar de não esgotar completamente as dúvidas sobre o seu personagem, o documentário destaca-se justamente por entender e refletir sobre suas limitações.   

Nota: 7,5/10 (Bom)

 

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