É um filme de vingança declarada, diz diretor de Branco Sai Preto Fica

É um filme de vingança declarada, diz diretor de Branco Sai Preto Fica

 

Por Adriano Garrett

 

O destaque obtido como um dos cineastas mais interessantes do atual cinema independente brasileiro demorou a chegar. Como jogador profissional de futebol de equipes modestas, como Taguatinga e Ceilândia, Adirley Queirós viveu a realidade nada glamorosa que a maioria dos atletas brasileiros enfrenta: baixos salários, contratos rápidos, pouca estabilidade. O contato com o cinema viria anos mais tarde, quase que por acaso, quando ele resolveu entrar para a universidade com a ideia de “arrumar umas namoradas”.

Depois de se formar no curso de Cinema da Universidade de Brasília (UnB) em 2005, Adirley virou figura central para a criação da Ceicine (Coletivo de Cinema em Ceilândia), grupo em que moradores da cidade-satélite de Brasília discutem não só sobre cinema, mas também sobre literatura, música e várias outras questões. Foi a partir dessas discussões que o cineasta produziu os seus dois longas-metragens de ficção: A Cidade é uma Só?, eleito melhor filme na Mostra de Cinema de Tiradentes em 2012, e Branco Sai Preto Fica, que foi exibido na cidade mineira nesse ano e recebeu menção honrosa dos júris jovem e da crítica.     

O cinema de Adirley está intimamente ligado à história de Ceilândia, localidade em que mora há 36 anos. Em A Cidade é uma Só? o aniversário de 50 anos de Brasília serve para que a história de marginalização imposta à cidade-satélite venha à tona; em Branco Sai Preto Fica o hibridismo ficção-documentário e as discussões políticas, sociais e territoriais do filme anterior são radicalizadas, em uma história que tem como ponto de partida uma ação criminosa da polícia nos anos 80.

Branco Sai Preto Fica será exibido neste domingo (30), às 19h, no CineSesc (Rua Augusta, 2075), em São Paulo, como parte da edição paulistana da Mostra de Tiradentes. O Cine Festivais conversou com Adirley Queirós a respeito de sua trajetória no cinema, seu método de criação, seu discurso político e vários outros assuntos correlatos. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

  

Cine Festivais: Conte um pouco sobre como ocorreu o seu contato com o cinema. Você passou por alguma universidade?

Adirley Queirós: A minha relação com o cinema é um pouco mais tardia. Eu não fazia cinema e nem era cinéfilo até os meus 30 anos, tive uma trajetória um pouco diferente. Fui jogador de futebol profissional em times bastante pequenos, mas eu sobrevivi disso durante 12 anos, dos 16 aos 28 anos. Eu era volante, passei por vários times pequenos, como Ceilândia e Taguatinga. Era uma lógica de jogar três meses em cada time, renovando o contrato a cada campeonato, ganhando dois salários (mínimos), aquela coisa que seria hoje a Série D.

Quando parei de jogar futebol eu sobrevivi dando aulas particulares de matemática, física e química, que são matérias que eu gostava muito. Eu entrei na universidade por um acaso. A ideia de fazer Comunicação na verdade era pra ver se eu arrumava umas namoradas, para curtir. Aí eu me inscrevi no curso e dentro dele havia três seleções naquela época, Jornalismo, Publicidade e Cinema, que tinha o corte mais baixo. Eu entrei para o curso de Cinema sem ter a mínima noção do que seria aquilo. Cheguei ao curso em 1998 e me formei em 2005. Eu tinha 35 anos quando me graduei na Universidade de Brasília (UnB), então o meu contato com o cinema surge basicamente com 30, 31 anos.

 

CF: Como o coletivo foi fundado e como ele foi importante para você começar a fazer os seus filmes?

AQ: Em 2005 eu tinha que fazer um trabalho final para me formar na universidade. O filme que fizemos se chamou Rap, o Canto da Ceilândia. Demos muita sorte porque na época surgiu um projeto no qual as escolas de cinema iriam transformar um curta filmado em digital em película, para tentar colocá-lo em festivais. Naquele ano foi feito um concurso dentro da UnB e eu ganhei. Nós colocamos o filme no Festival de Cinema de Brasília, ele estreou lá e ganhou os dois prêmios de melhor filme, pelo júri oficial e pelo júri popular.

Nessa época não tínhamos equipamento e usávamos o material da UnB, mas eu só podia pegar ele à noite ou nos finais de semana. A gente trazia esse material para Ceilândia, cidade-satélite de Brasília onde eu moro. Então quando eu vinha para Ceilândia era encantador ter aqueles equipamentos. Ao mesmo tempo em que fazíamos o filme, mostrávamos para as pessoas como funcionavam aqueles equipamentos. A partir dali foi surgindo a Ceicine (Coletivo de Cinema em Ceilândia). Essas pessoas que vinham ver os equipamentos nunca tinham tido contato com o cinema, não iam a salas de cinema nem produziam cinema, e eles começaram a se interessar pelo processo do cinema.

 

Adirley venceu a Mostra de Tiradentes em 2012 com o filme A Cidade é uma Só?

 

CF: O processo de criação dos seus filmes tem muito a ver com esse coletivo?

AQ: Todos os filmes que eu fiz até hoje, com exceção de um que foi feito em São Paulo, foram feitos na cidade de Ceilândia. Esse grupo que foi agregando com a gente tinha outras questões além do cinema. Algumas pessoas eram ligadas à literatura e muitas delas eram da música rap.

A Ceicine virou quase que um grupo de discussão motivado pelas questões de cinema, mas que faz discussões amplas sobre vários assuntos, como questões raciais, de gênero, de território. Então essas questões que circulavam nas discussões foram norteadoras para todos os filmes nossos na verdade, tanto na questão de como a gente vai escrever o filme quanto na direção ou na escolha dos atores. A Ceicine é fundamental nesse sentido, porque foi a partir dela que nossos filmes começaram a ter esse norte de que tipo de cara a gente quer, que tipo de corpo a gente quer, que território a gente quer, etc.

 

CF: A obra passa uma sensação de realidade muito grande para os espectadores. O quanto de roteiro e o quanto de improvisação há no processo de criação do filme?

AQ: Todos os filmes que nos propomos a fazer partem dessas discussões. A gente fica às vezes até um ano discutindo os filmes, e eu chamo de discussão desde os encontros para leituras até nossas saídas sociais. Conversamos sobre situações e o filme vai se construindo.

Meus dois filmes têm uma pesquisa até bem profunda. No caso do Branco Sai Preto Fica foi uma pesquisa de três, quatro anos. Ele nasce também de vários depoimentos sobre esse acontecimento do Quarentão (antigo baile black do DF), então a gente tinha uma pesquisa de várias pessoas depondo sobre essas questões, mas o roteiro especificamente não existe. As cenas foram construídas um dia após o outro. Todas aquelas situações que existem no filme foram surgindo em função da própria filmagem. O que a gente tinha bem claro era quem eram os três atores principais do filme e que queríamos um filme que dialogasse com o futuro através da ficção.

O Dilmar Durães era o detetive que vem do futuro; o Shokito era o cara da perna mecânica que nós relacionamos com o Cyborg e pedimos para ele internalizar esse personagem; o Marquim era um cara que vivia isolado e tinha uma rádio. Então a gente cria situações para eles e a partir daí vamos construindo o roteiro. A cada dia a gente planeja o que seria ideal para que o filme vá caminhando para frente. E obviamente que ainda há a montagem, mas esse não é um filme em que tudo se resolve na montagem. A gente começou a construir as pequenas chaves do filme dentro da própria filmagem.

Eu acho que a ideia de realidade que você fala vem do fato de os personagens trazerem a memória deles para o filme, mesmo tendo clareza de que estão atuando para a câmera. O Shokito nunca tinha feito um filme, então eu gravava com ele algumas cenas como exemplo e mostrava na tela como eram os planos, qual era a nossa ideia. Então ele foi aos poucos entendendo como era o processo de toda a equipe. Não era só a atuação sem uma compreensão de para onde ele estava indo em termos de linguagem.

A construção passa muito por isso. Nem A Cidade é uma Só? nem o Branco Sai… tinha um roteiro claro de falas e decorebas. As falas são muito espontâneas porque são situações que a gente joga para eles como se fosse um ensaio de teatro, mas tem toda uma pesquisa por trás.

 

CF: Como o hibridismo ajuda você a construir o seu discurso político, histórico e de preservação da memória coletiva dos moradores de Ceilândia?

AQ: Acho que o hibridismo surgiu primeiro de uma necessidade. Há cinco anos eu pensava cinema com a ideia de um realismo naturalista, de buscar nossa verdade. A gente fez muitos trabalhos tentando ser mais realistas, mas começaram a chegar algumas questões que, no meu modo de entender cinema, não têm como ser contadas diretamente.

Como exemplo eu tenho a história do Marquim no Branco Sai Preto Fica, que é muito traumática porque é a história dele mesmo. Ele inventa um personagem para ele, mas quando a câmera chega nele e dá um start ele busca na memória o que ele foi de fato. Para ele era muito doloroso contar de maneira direta para a câmera como ele levou um tiro, é uma memória que ele não gosta de falar. Com o Shokito foi a mesma coisa, era uma memória muito dura de falar. Então a gente chega e fala que vamos fazer um filme em que eles interpretam um personagem.

Em A Cidade é uma Só? é a mesma coisa. A gente queria falar de politica de maneira clara, e a gente não chegaria nas questões em que queríamos chegar, que são questões mais surrealistas, de outro modo. Se ele de fato fosse um personagem não iria se expor para a câmera com aquela verdade, entendeu? Então ele traz aquele sentimento de querer ser um político no sentido de estar atuando sobre aquilo. Não é ele objetivamente que está na imagem.

O hibridismo eu acho que vem muito nesse sentido, da necessidade de a gente dizer coisas que não podem ser ditas de maneira direta se aquele personagem fosse daquele jeito. Funciona um pouco como a ideia do realismo fantástico: algumas coisas não tem como ser ditas sem ser dessa maneira espetacular.

E a outra relação é propor que esses personagens tenham uma aventura no cinema, que não sejam só depoentes, que entendam que vão ter uma trajetória e que, através do cinema, eles vão poder chegar a locais em que eles não chegariam na vida comum.

Foto: Divulgação

Branco Sai Preto Fica foi ovacionado pelo público e ganhou menção honrosa em Tiradentes

 

CF: Em relação a essa construção de discurso, eu vi o Branco Sai Preto Fica como uma radicalização do discurso construído nos curtas e no A Cidade é uma Só?. No sentido da segregação você coloca uma lente de aumento e de repente essa segregação está institucionalizada pelo passaporte necessário para entrar em Brasília. Você enxerga o filme como uma radicalização desse discurso?

AQ: É uma busca por essa radicalização. Eu acho que ainda falta muito para a gente chegar lá, mas a ideia é essa mesmo, de radicalizar. Eu acho que a gente ainda não conseguiu radicalizar o que a gente tem de construção para um filme. A gente está tentando chegar cada vez mais próximo. Mas a ideia é essa mesmo, radicalizar cada vez mais nessa figura do que é a relação de Brasília com a cidade-satélite e que vai pra tudo, questão de gênero, questão de território, enfim.

A questão do passaporte é uma questão basicamente territorial, que é o símbolo de Brasília desde a sua gênese. Eu falo isso porque eu moro em Ceilândia há 36 anos e o que mais implica na cidade é o trânsito. Circular não é tão fácil, e não é só por questões materiais. Ir a Brasília tem um simbolismo muito estranho, até para as gerações mais novas. Então a ideia do passaporte era tentar que isso fosse materializado nessa situação metafórica, mas que diz muito sobre a cidade. A gente tem que ter passaporte para entrar aqui, a gente não é bem-vindo no cotidiano do lazer, da cidadania…

 

CF: Mesmo tendo estudado em Brasília, essa sua relação com a cidade permaneceu a mesma?

AQ: Eu sempre tive esse sentimento angustiante que é o sentimento dos meus amigos e das pessoas da minha geração. A gente ia para Brasília em grupo e voltava sempre com muita angústia, com muitos sentimentos que a gente não nomeava. Quando eu fui para a Universidade de Brasília eu não buscava essas respostas, mas elas foram surgindo. Acho que lá se acentuou essa relação, porque numa universidade você lê coisas, está sempre em debates na sala de aula, e a gente começa a perceber como a cidade é estranha em relação à gente.

Eu lembro que eu pegava um ônibus bem cedo, saía por volta de seis horas da manhã para chegar às oito, e o ônibus vinha lotado. Quando ele chegava na universidade, que era o último ponto, sobravam cinco ou seis pessoas que eram estudantes, e essas pessoas meio que se negavam, um não olhava mais para o outro. Eles não queriam mostrar que eram de Ceilândia.

Dentro da cidade a gente começava a ver toda essa tensão. A gente não circulava por Brasília, mas mesmo o espaço da universidade era muito tenso. A universidade que acentuou essa minha relação de ver a questão do território. Até os 30 anos eu não ia muito para Brasília. Quando eu tive esse cotidiano de ir todo dia para lá e voltar, foi aí que se acentuou essa ideia de territorialismo. O ônibus nada mais é do que uma senzala em movimento. Essa coisa de pegar ônibus lotado na ida e na volta todos os dias, aquela angústia de perceber quanto isso era longe, quanto cansava. Então foi mais em Brasília que isso se acentuou.

 

CF: Eu vi uma busca por reescrever a própria história do povo de Ceilândia e ao mesmo tempo algo de vingança no final do Branco Sai Preto Fica. Relacionei isso com os últimos dois filmes do Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios e Django Livre). Você faz essa relação?

AQ: Engraçado você falar isso, porque a gente estava conversando sobre isso outro dia na Ceicine. Eu vi no cinema o último filme do Tarantino, Django Livre. Eu acho o Django original, do (Sergio) Corbucci, o melhor filme do mundo. Ele passava muito aqui em Ceilândia quando só tinha uma sala de cinema. Sempre passava uma sessão pornô e outra de karatê ou bangue-bangue na sequência – a gente chamava de sessão sex-karatê – e constantemente repetia ou o Django ou o Punhos de Aço, do Bruce Lee.

Devo ter visto o Django do Corbucci umas cem vezes, e aí eu fui ver o Django do Tarantino e achei muito massa justamente a vingança que ele faz contra a casa-grande. A cena final para mim é uma coisa impressionante. No outro filme dele (Bastardos Inglórios) o cara matar o Hitler é fantástico. A gente sabe que ele não morreu daquela forma, mas ter o prazer de ver a possibilidade de ele ser morto desse jeito é maravilhoso.

O Branco Sai… é um filme de vingança declarada. Na primeira conversa que eu tive com o Marquim (ator do filme) ele me falou que queria um filme de vingança, uma vingança em relação a tudo isso que aconteceu. Então uma das palavras motivadoras do filme para os atores era a vingança. A gente fez um filme chamado Dias de Greve que acaba em um vazio existencialista, e essa era a proposta dele, a ideia de que a gente não consegue dar um passo adiante. Nesse novo filme eu não queria que esse sentimento ficasse, a ideia era que a gente chegasse às nossas mudanças simbólicas.

Na semana passada estávamos discutindo justamente os filmes de vingança, como era massa ter essas vinganças, pelo menos no campo simbólico. Os filmes do Tarantino não surgiram necessariamente como inspiração, o Branco Sai… surgiu a partir dessa discussão que a gente teve sobre o passado. Eu gosto muito do Django Livre e obviamente ele estava no meu inconsciente, mas isso não foi feito de maneira consciente. Acho que tem muito disso, mas não tínhamos a intenção de fazer um filme que parecesse com o Tarantino.

 

CF: Você vê semelhanças do seu filme com A Vizinhança do Tigre, que venceu a Mostra de Tiradentes?

AQ: Eu acho A Vizinhança… um filme fantástico. Estava na sessão em Tiradentes e saí muito feliz com a ideia do filme, com a busca do filme. É talvez o melhor documentário que eu vi nos últimos anos. Eu me sinto muito próximo a ele, muito ligado à estética do filme. Tem uma coisa no filme que é muito engraçada, porque ele termina com uma música de um grupo que é de perto da Ceilândia, e eu termino meu filme com a musica de um grupo de Minas Gerais, que poderia ser de Contagem (local onde A Vizinhança do Tigre foi filmado). E fora toda aquela ambientação do filme dele, aquela coisa de aprofundar em personagens muito próximos dele. Ele também está narrando a rua em que ele mora, o bairro em que ele mora, e eu acho muito lindo aquilo lá.

Em relação ao caminho que a gente está percorrendo nessa história de território, de personagens próximos, de histórias próximas, eu me sinto muito contemplado no filme dele. Daí vem a minha admiração pelo filme. É um filme que eu gosto muito, acho que mereceu ganhar o festival. Acho que A Vizinhança do Tigre poderia ter sido filmado na Ceilândia tranquilamente, assim como o nosso filme poderia ter sido filmado em Contagem.

 

CF: Na sessão em Tiradentes houve uma espécie de catarse coletiva, principalmente na cena final. Que tipo de reação do público chegou a você após a exibição em Tiradentes? Qual será o caminho do filme a partir de agora?

AQ: O público gostou muito do filme. A impressão era muito forte, mais do que eu poderia supor. O filme é sempre mais ou menos do que a gente pensa, nós nunca temos domínio sobre ele. Vimos que, de modo geral, o público sente essa catarse. Mesmo na montagem já sentíamos isso em alguns momentos, principalmente no começo e no final do filme.

As pessoas chegam para mim com várias questões que eu sinceramente não tinha pensado. É um filme de atmosfera, que a gente pensou em um monte de coisa, mas as pessoas trazem outras questões. Cinema é isso também, as pessoas veem o filme de acordo com os sentimentos que têm no momento.

Eu ainda não inscrevi o filme em nenhum outro festival e quero ver qual é o melhor caminho para que ele circule pelo circuito de festivais. Depois vou tentar colocá-lo nas salas de cinema, o que é muito difícil. Eu tenho muita vontade de colocar esse filme junto com A Vizinhança do Tigre, queria fazer sessões no circuito comercial em que os dois estivessem juntos, porque eu acho que o diálogo entre eles é muito forte.

 

CF: Como você encara a questão da distribuição de filmes independentes?

AQ: Eu encaro como uma questão política. Não ganhamos nada com isso em termos econômicos, só perdemos. Em uma publicidade espontânea a gente consegue no máximo um público de 2500 pessoas, entrando em uma sala em cinco capitais durante duas semanas, por exemplo. Isso não é nada. Mesmo se a gente conseguir encher as salas, o que é improvável, a gente vai chegar a esse público de 2 mil, 3 mil pessoas, que não paga nem as cópias que se faz em DCP. Eu acho que é muito mais uma questão política, porque o cinema não pode ser privilégio de um grupo. Na minha cabeça, inclusive, cada cidade deveria ter uma sala de cinema pública, que cobrasse no máximo dois reais por exibição, sabe? Tentar popularizar o cinema, não só no sentido de as massas irem ao cinema, é dar oportunidade para um cara que mora em Ceilândia, em Contagem ou em uma favela de São Paulo ter acesso em uma tela grande a outro tipo de filme, que ele possa também compreender que existe uma outra possibilidade de fazer cinema.

Para mim é só uma questão de visibilidade, de entrar na sala de cinema para ter a chance de subir no palco e falar que a forma de distribuição de cinema é muito perversa e a gente tem que lutar por esse espaço também. É um espaço político, cheio de lobby, em que era possível sim que outros filmes pudessem entrar, com uma outra lógica de preço, uma outra lógica de publicidade, então eu só encaro nesse sentido. Não tenho ilusão nenhuma que um filme meu possa dar uma rentabilidade ou possa ter um público enorme. Com o tipo de estratégia e nossas possibilidades, não dá.

Eu moro em uma cidade que tem muita escola pública, e em quase todas elas os moleques gostam de cinema, fazem filmes com celulares, promovem festivais entre eles. Essa experiência coletiva de ver filmes ainda é insubstituível. Você pode criar uma cinefilia na sua casa, baixando filmes da internet e vendo na sua televisão, mas a experiência coletiva de ver filmes eu acho que é uma coisa catártica e política. É a partir daí que a gente pensa em conjunto, vê situações coletivamente.

Todo filme tem seu espaço. Todo filme deve ser visto, mesmo que seja para ser vaiado ou criticado, porque se não a gente começa a entrar na onda de que a gente nunca vai entrar em sala, vai ficar restrito a um certo ambiente, e isso é o discurso que esses caras adoram. A própria RioFilme fez um discurso assim, de que as massas gostam de filmes de ação, etc. 

 

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