Documentário premiado discute São Paulo a partir dos estacionamentos

Documentário premiado discute São Paulo a partir dos estacionamentos

 

Por Adriano Garrett 

 

Eles fazem parte do cotidiano da população de grandes cidades como São Paulo e, de tão comuns, raramente provocam estranhamento ou discussões maiores sobre o que significam para o espaço urbano. Os estacionamentos, que parecem se multiplicar a cada ano nas metrópoles, são o ponto de partida para as discussões levantadas pelo documentário E – letra que aqui representa o símbolo de permissão para estacionar, não a conjunção -, curta-metragem vencedor da última Mostra de Cinema de Tiradentes.

“O fato de São Paulo ter tantos espaços tomados por estacionamentos gerou choque e incômodo, mas ao mesmo tempo tínhamos uma certa atração por esses lugares que, apesar de feios, são interessantes. Tínhamos vontade de filmar esses locais”, diz Miguel Antunes Ramos, que codirigiu o filme ao lado de Helena Ungaretti e Alexandre Wahrhaftig, parceiros que conheceu durante o curso de Audiovisual da Universidade de São Paulo (USP).

Buscando um diálogo com a ficção científica, o documentário mostra imagens de construções, máquinas e locais de São Paulo sem que nenhuma pessoa apareça em tela – há apenas uma narração em off que traz depoimentos sobre a transformação de lugares que antes serviam para a circulação e encontro de pessoas, como uma sala de cinema, e hoje são utilizados para guardar carros. Seguindo esse caminho, o filme provoca uma reflexão crítica sobre temas como a especulação imobiliária.

O Cine Festivais conversou com Miguel Antunes Ramos a respeito do documentário, que será exibido nesta quarta-feira (26), às 21h, no CineSesc (Rua Augusta, 2075), como parte da programação da edição paulistana da Mostra de Tiradentes. O filme também foi selecionado para a mostra competitiva do festival É Tudo Verdade, que começa no próximo dia 3 de abril.   

 

Cine Festivais: O filme teve três diretores. Vocês têm gostos cinematográficos semelhantes?

Miguel Antunes Ramos: Tem coisas que todo mundo gosta, mas há referências específicas de cada pessoa que foram importantes para o projeto. A Helena (Ungaretti), por exemplo, achava que o filme tinha que dialogar com a ficção científica, e eu nunca tinha pensado nisso. O nosso documentário tem uma coisa de filmar espaço que dialoga com o (cineasta chinês) Jia Zhang-ke em especial, e um pouco também com o (italiano Michelangelo) Antonioni, com essa vertente do cinema.

 

CF: No filme não aparece nenhuma pessoa, só são mostrados carros, construções, etc. Como surgiu essa ideia?

MAR: Isso veio durante o processo. A gente se propôs a fazer um filme sobre estacionamento, ganhou o edital (Prêmio Estímulo, concedido pela Secretaria de Cultura do Governo de São Paulo) e depois, entendendo como seria esse filme, que veio a ideia. Veio menos de uma referência externa e mais de uma busca por uma ideia formal forte. Queríamos obter a melhor forma para tratar desse objeto, e aí veio essa ideia.

 

CF: Qual foi a principal motivação para a escolha do tema?

MAR: Duas coisas. O fato de São Paulo ter tantos espaços tomados por estacionamentos gerou choque e incômodo, mas ao mesmo tempo tínhamos uma certa atração por esses lugares que, apesar de feios, são interessantes e chamavam nossa atenção. Acho que foi um pouco a conjunção dessas duas coisas: uma ideia mais intelectual da importância disso para a cidade e também uma forma de atração por esse tipo de espaço. Tínhamos vontade de filmar esses locais.

 

CF: O documentário trata da especulação imobiliária e também da falta de convivência das pessoas no espaço público. Esse tema vem sendo muito tratado pelo cinema pernambucano. Vocês se inspiraram de alguma forma em filmes daquele estado?

MAR: A gente acompanha muito a produção de lá. Vemos com muito interesse, em especial os filmes do Kleber (Mendonça Filho) e do Gabriel Mascaro. São filmes que discutem a cidade, algo que o Jia Zhang-ke faz muito e que aqui no Brasil passa pelos filmes de Pernambuco. A gente olha para isso atentamente.

 

Miguel Antunes Ramos é um dos diretores do documentário E, premiado em Tiradentes 

 

CF: Essa discussão urbana é algo que a gente não vê muito em filmes paulistas. Por que você acha que esse é um tema que não é tão discutido nas produções de São Paulo?

MAR: Eu acho que cada vez mais há filmes paulistas que tentam discutir isso. Tem um curta chamado Aluga-Se (de Marcela Lordy) que vimos recentemente e trata desse assunto. Cada vez mais há filmes falando disso, porque é uma coisa muito gritante em São Paulo. Mas de fato existe uma certa imagem da cidade de São Paulo como essa metrópole dos anos 80, com aqueles viadutos do centro, que uma parte dos filmes ainda usa muito e não representa bem a imagem da especulação imobiliária. A gente estava tentando também olhar para uma outra cidade, para a São Paulo do Itaim (Bibi), da (avenida Luís Carlos) Berrini, desse lado violento do dinheiro crescendo. Isso eu acho que talvez ainda se olhe pouco, não sei bem por quê.

 

CF: O estacionamento é um lugar que aparece no filme quase como um não-lugar, algo que já foi alguma coisa no passado e no presente não é mais ocupado, parece que não tem mais vida. Como vocês trabalharam esse simbolismo no filme?

MAR: O estacionamento, apesar de ser um não-lugar, também é um espaço muito comum, algo quase banal no dia a dia. Então a gente tentou filmar de um jeito que deslocasse o olhar de uma visão cotidiana, buscando quase um estranhamento por aquele espaço. Usamos muitos quadros fixos e não mostramos pessoas para tentar descolar a visão de uma cotidianidade e revelar esse aspecto fantasmagórico de não-lugar que ele tem.

 

CF: Um dos momentos mais marcantes do filme ocorre quando é mostrado um antigo cinema de rua que hoje virou estacionamento. Como essa diminuição brusca dos cinemas de rua nas grandes cidades impactou a visão de vocês para o filme?

MAR: A gente soube que uma parte da história que a gente queria contar tinha o carro tomando espaço das coisas e das memórias. Havia a ideia de mostrar um cinema que virou estacionamento e de uma casa que virou estacionamento. Ao mesmo tempo, tentamos não fazer um filme nostálgico. Queríamos colocar esse problema de uma forma mais contemporânea: até onde vai essa loucura do carro, de você ter um carro na sala, de shopping centers gigantescos terem milhares de vagas? Tínhamos esse desafio de não fazer um filme muito saudosista.

 

CF: O filme usa a ironia em alguns momentos…

MAR: Acho que por um lado as pessoas costumam rir daquela personagem que para o carro na sala do apartamento e da lista de cores dos carros, mas às vezes a ironia tenta esvaziar o objeto, como se ele não tivesse importância e a gente estivesse rindo dele. Acho que, pelo contrário, a gente está tentando dar importância ao objeto. Por mais que tenha algo de cômico, é totalmente absurdo parar o carro na sala do prédio, então tem um pouco da tentativa de abordar o cômico no sentido do absurdo, mas não para esvaziar aquilo quase como se não fosse verdade.

 

CF: Alguns críticos não aprovaram a mudança temática que o filme faz dos estacionamentos para a especulação imobiliária. Como você avalia esse aspecto?

MAR: É um pouco difícil comentar uma critica que eu não li e que eu não ouvi mais longamente. Acho que a gente começou o filme com a explicação de que São Paulo tinha muitos estacionamentos porque tem muitos carros, que é um pouco como o filme começa, mas fomos percebendo no processo que, na verdade, São Paulo tem muitos estacionamentos porque tem muitos prédios. É claro que tem muitos carros, mas o Rio também tem e o número de estacionamentos lá é muito menor.

No fundo, a história e a geografia dos estacionamentos é também a historia e a geografia dos impasses jurídicos, de onde vai ser construído o prédio, de onde foi demolida uma casa. O tema surgiu não porque a gente quis tratar, foi quase que uma necessidade. Nesse sentido, para mim não faz sentido separar quando o filme está tratando de estacionamento ou de especulação imobiliária. Acho que é uma coisa só e foi isso que tentamos mostrar no filme.

 

CF: Quais são os seus próximos projetos?

MAR: Eu e o Alexandre (Wahrhaftig) estamos terminando um curta daqui a um mês, tem outro curta que vou filmar com um amigo meu do Ceará e ainda tem a finalização de um filme que ganhamos com o prêmio de Tiradentes. Estamos pensando qual filme podemos fazer de uma forma barata, simples, para poder usar o prêmio como estimulo para outro filme de nós três.

Esses filmes que estão em andamento passam pelo interesse com a cidade, com os espaços, acho que dialogam bastante com o E, são filmes desse mesmo universo. Falam sobre a cidade de São Paulo, as visões que se tem dela. Um dos filmes é sobre pessoas que trabalham no mercado financeiro, sobre esse universo do dinheiro em São Paulo.

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