Filmes tchecos denunciavam sistema repressor, diz curadora de mostra

Filmes tchecos denunciavam sistema repressor, diz curadora de mostra

 

Por Adriano Garrett

 

Começa nesta quarta-feira (19), no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, a mostra Nouvelle Vague Tcheca – O Outro Lado da Europa. O evento, que vai até o dia 3 de abril, irá exibir 21 longas-metragens do novo cinema surgido na antiga Tchecoslováquia nos anos 60, período em que o cinema mundial, tendo a França como cenário mais lembrado, passou por grandes transformações.

A programação, que terá apenas exibições em película 35 mm, abrange obras de diretores mais conhecidos no Brasil, como Milos Forman (Um Estranho no Ninho, Amadeus) e Vera Chityllová (Alguma Coisa de Outro), e também de realizadores menos populares, como Jan Němec (Diamantes da Noite) e Jaromil Jireš (A Piada). Os horários das sessões podem ser conferidos aqui e as sinopses, aqui.

Formada em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e mestranda em Meios e Processos Audiovisuais na Universidade de São Paulo (USP), Gabriela Wondracek Linck é a responsável pela curadoria do evento. Em conversa por e-mail com o Cine Festivais, Gabriela falou sobre sua relação com o cinema tcheco e apontou os principais destaques da programação.

 

Cine Festivais: Como surgiu o seu interesse pelo cinema tcheco?

Gabriela Wondracek Linck: É difícil dizer o que vem primeiro: a curiosidade pelos novos cinemas surgidos na década de 1960 ou a curiosidade pela minha origem. Meu bisavô nasceu dentro de um trem que vinha da Tchecoslováquia (então parte do Império Austro-Húngaro), e isso sempre me fascinou. Depois que me tornei tradutora a história de meus antepassados passou a me interessar ainda mais, porque eu não entendia direito o motivo de eles falarem alemão se eram tchecos. Em 2008, no Cinef (grupo de estudos de cinema da UFRGS), participei da organização de um ciclo dos novos cinemas dos anos 1960, ficando responsável pelo Novo Cinema Alemão. O Leonardo Bomfim, que era o responsável pela curadoria da Nova Onda Tcheca (e agora assina a organização do catálogo da mostra comigo e vai dar também uma palestra sobre o tema dia 27/03), me passou alguns filmes tchecos do período e eu fiquei bem impressionada, porque a Nouvelle Vague Tcheca abrange um grupo de filmes que é impossível dizer que se parecem com algum outro filme de fora da Tchecoslováquia.

Eram filmes diferentes de tudo que eu já tinha visto. E ao mesmo tempo também foi incrível reconhecer (principalmente nos filmes da Vera Chytilová) alguns estofados e tipos de móveis e louças da minha família que eu nunca tinha visto em lugar nenhum, com exceção da casa de meus avós. Os móveis e as louças tchecas são ao mesmo tempo simples e rebuscadas, famosas pela elegância, mas ao mesmo tempo denotam um kitsch bem pesado, e dá pra notar que os filmes também têm muito disso.

O mais peculiar do cinema tcheco é essa união entre o caráter prosaico e o denso (algumas vezes até mesmo assustador), a forma como estes filmes denunciam o sistema repressor no qual estavam embrenhados – aparentemente de forma discreta, ainda que pouco sutil. Mais do que um estilo, os enredos fragmentados dos filmes eram a única forma de denúncia na Tchecoslováquia daquele momento. Os cineastas estavam livres das amarras comerciais, porém extremamente coagidos pelas forças socialistas. Tanto que a maioria dos filmes exibidos na mostra foi imediatamente proibida pelo Governo e assim permaneceu por mais de 20 anos, até a queda do Regime Socialista.

 

CF: Como foi feita a seleção dos filmes para a mostra?

GL: Em primeiro lugar, é preciso dizer que cortei os filmes eslovacos. Por isso a mostra se chama Nouvelle Vague “Tcheca”. Apesar de serem filmes realizados na então unificada Tchecoslováquia, a diferença cultural, e inclusive linguística, entre tchecos e eslovacos nunca deixou de existir. Portanto, eu me detive apenas nos filmes tchecos.

Ainda assim, a lista é de mais de 60 filmes produzidos no período. Então me inspirei em um recorte tradicional, já sugerido por alguns estudiosos do cinema tcheco (como Peter Hames), que parte dos diretores  recém-graduados na FAMU (Escola de Filmes de Praga) e que começaram a filmar no início dos anos 1960. Esse recorte toma como base também a juventude de seus diretores, que é uma das características que em geral une todos os novos cinemas da década de 1960.

Já ouvi reclamações de que faltam Jaroslav Papousek e Pavel Jurácek (e muitos outros), mas eles estão representados nos procedimentos estéticos dos filmes da onda que vamos acompanhar na programação, e algumas vezes até participam dos filmes em outras funções, ainda que não como diretores. E como até mesmo Peter Hames considera meio capenga esse recorte da “juventude” (Chytilová e Forman, por exemplo, eram mais velhos), meio pautado na Nouvelle Vague Original (francesa), acrescentei ainda dois diretores que não são considerados parte da Nouvelle Vague Tcheca, pois começaram a filmar já bem antes dos anos 1960: Vojtech Jasny e Frantisek Vlácil. Destes cineastas escolhi, respectivamente, Um Dia, um Gato e Marketa Lazarová, principalmente por causa do modo como o primeiro trabalha as cores e do modo como o segundo trabalha o P&B, procedimentos que influenciaram muito os outros diretores que fazem parte da seleção.

Pode-se dizer que os filmes da mostra se dividem em quatro grupos: o primeiro, que inclui títulos como os primeiros filmes de Forman, Alguma Coisa de Outro de Vera Chytilová, O Choro de Jan Nemec  e o único filme de Ivan Passer,  é o grupo ainda voltado para uma estética mais próxima do realismo, centrada na rotina, nas ações cotidianas, nos pequenos gestos e nos ritmos urbanos. O segundo grupo é o dos filmes mais próximos a uma estética que dialoga com a literatura existencialista, talvez o único grupo de filmes que possa ser comparado a outras cinematografias europeias, como os filmes de Evald Schorm (próximo dos filmes da década de 60 de Antonioni e Fellini) e o Marketa Lazarová, muito comparado aos filmes de Bergman e Tarkovski, e até mesmo com os de Glauber Rocha. O terceiro grupo de filmes abrange  os 3 filmes de Jiri Menzel, que é um caso à parte, por se tratarem de comédias bem regionais e peculiares. Por fim, o quarto grupo e de maior destaque é aquele influenciado pelo surrealismo das artes plásticas, que inclui os dois filmes de Vera Chytilová pós-66 e Valerie e Sua Semana de Deslumbramentos, de Jires. Mas essas divisões não são rígidas, e todos os filmes se relacionam esteticamente. Diamantes da Noite, por exemplo, é um caso difícil de encaixar nessas categorias, pois une a estética realista com a surrealista de modo único.

 

Cena de As Pequenas Margaridas, de Vera Chityllová

Cena de As Pequenas Margaridas, de Vera Chityllová

 

CF: No fim dos anos 50 e início dos 60 o cinema mundial passou por grandes transformações. O exemplo mais famoso disso ocorreu na França, com a geração dos “jovens turcos” (François Truffaut, Jean-Luc Gpdard, etc.). Quais são os principais fatores para as novidades cinematográficas surgidas naquela época? O que liga a Nouvelle Vague Tcheca a outros movimentos ocorridos em diversos pontos do mundo, e o que a diferencia das demais correntes?

GL: Um dos principais fatores é a já referida juventude dos diretores, o que leva muitos recortes a serem pautados por isso, embora não seja a característica mais relevante. O mais notório é, com certeza, a vontade de mudança que vem embutida nesse novo cinema dos jovens turcos. O fato de os jovens turcos serem também, além de diretores, críticos de cinema é o que talvez melhor explique o fenômeno. Isso quer dizer que eram diretores que antes de tudo estavam pensando sobre o cinema e que, como se diz grosseiramente, “trocaram a máquina de escrever pela câmera.”

Schiller tem uma frase que o diretor Alexander Kluge, um dos principais diretores do novo cinema alemão da década de 1960, usa muito: “Eu escrevo pensamentos”, é o que o poeta dizia quando perguntavam sobre seu processo de criação. Analogamente, muitos dos cineastas das novas ondas dos anos 1960 (Kluge e os diretores da Nouvelle Vague Tcheca inclusive) parecem “filmar pensamentos.” Antes de qualquer coisa, são correntes ligadas a um cinema de reflexão, sobre o contexto político também, mas antes de tudo sobre o próprio cinema e suas potências e fraquezas. Talvez essa seja a característica que une todos esses movimentos da década de 60.

O que diferencia a Nouvelle Vague Tcheca dos outros cinemas que aconteceram na mesma época em outras partes do mundo é a influência surrealista que fica muito aparente nos filmes tchecos, principalmente da vanguarda do país nas artes plásticas. Se pensarmos nos filmes eslovacos isso talvez seja ainda mais acentuado, e não podemos esquecer que essas duas cinematografias também se inspiraram mutuamente, tanto que O Sol na Rede é um filme eslovaco resgatado por críticos tchecos e que influenciou muito a nova onda de filmes da região.

 

CF: De modo geral, o cinema tcheco ainda é pouco conhecido no Brasil. Quais diretores merecem ser mais bem descobertos?

GL: Falando só da Nouvelle Vague Tcheca,  os mais desconhecidos que estão na mostra são Evald Schorm, Ivan Passer e Juraj Herz. Jiri Menzel é ganhador de Oscar e relativamente famoso por aqui. Forman e Chytilová idem. Mas em geral acho que todos ainda merecem mais atenção, principalmente Jan Nemec e Jaromil Jires, que se destacam muito dentro da tendência surreal-anarquista. Valerie e Sua Semana de Deslumbramentos tem imagens muito fortes, assim como Diamantes da Noite. Os cineastas da Nouvelle Vague Tcheca que não estão na mostra (ao menos não como diretores) e merecem ser ainda descobertos são: Ester Krumbachová, Jaroslav Papoušek, Antonín Máša, Zdenek Sirový, Drahomíra Vihanová, Pavel Juráček e Jan Schmidt.

 

CF: Quais são os destaques da programação da mostra?

GL: Os destaques não poderiam deixar de ser os filmes da “primeira dama do cinema tcheco”, Vera Chytilová, infelizmente falecida na semana passada. Vera Chytilová  foi a única mulher da Tchecoslováquia  a ter destaque internacionalmente no mundo do cinema. Ela estudou antes arquitetura, fotografia e filosofia, e seus filmes são como explosões experimentais de tudo isso. As Pequenas Margaridas e O Fruto do Paraíso são dois dos filmes mais importantes do movimento.

Pensando em quem não conhece os filmes da Nouvelle Vague Tcheca, indicaria, além dos filmes de Vera, os primeiros de Milos Forman, os dois de Evald Schorm e ainda  Trens Estreitamente Vigiados , A Festa e Os Convidados e O Cremador. Para os que já conhecem e querem se aprofundar, com certeza os destaques são os mais raros Mártires do Amor, O Choro, Iluminação Íntima e as duas comédias coloridas de Jiri Menzel, Andorinhas por um Fio e Um Verão Caprichoso. Mas lindo mesmo será ver Valerie e Sua Semana de Deslumbramentos e Marketa Lazarová em 35mm. Ou seja: pergunta difícil. Tudo é destaque. Depende do escopo.

 

CF: Milos Forman acabou se tornando o nome mais conhecido do movimento por seu trabalho nos EUA, onde ganhou dois Oscar. Quais são as características dos filmes do início da carreira do diretor, principalmente dos três que serão exibidos na mostra? Como eles se relacionam com a sua obra posterior?

GL: Um dos grandes temas de Milos Forman é a loucura. Ele atinge o ápice do que poderia retirar cinematograficamente deste tema em Um Estranho no Ninho, mas já podemos notar um ensaio deste auge de 1975 em filmes como Os Amores de Uma Loira, Pedro, O Negro e O Baile dos Bombeiros. Em Um Estranho no Ninho o personagem é explicitamente enquadrado como louco, mas nos filmes anteriores os personagens já se sentem perturbados, só que essa loucura é trabalhada de forma menos literária (como quando é atribuída ao personagem) e mais pictórica – no modo como o diretor articula os espaços, intercalando cenas de multidão (em bailes, um de seus contextos cenográficos preferidos) com cenas que focam em pequenos gestos.

Adula, a personagem principal de Os Amores de uma Loira não é considerada “louca”, mas o filme nos é contado a partir de uma história fragmentada narrada por ela, e a loucura está no cerne dessa fragmentação, na angústia que fica entre os planos. Sem querer apelar muito para a psicologia, mas já apelando, é impossível, ao ver este filme e conhecendo a história da Tchecoslováquia, não pensar na angústia de não poder ser “jovem” num país estreitamente vigiado.

O personagem de Pedro, o Negro é um adolescente que começa a trabalhar numa loja e precisa vigiar as pessoas que são suspeitas de furtar, mas ele se sente extremamente constrangido ao fazer isso. Aí temos o velho tema do sujeito (literalmente) oprimido pelas instituições que vai culminar em Um Estranho no Ninho e depois em O Povo contra Larry Flint e O Mundo de Andy. É legal prestar atenção no modo como o diretor trabalha os espaços para alcançar essa tônica opressiva, desde os primeiros filmes. Não podemos esquecer de Jaroslav Papousek e Ivan Passer, grandes parceiros de Forman nestes 3 filmes exibidos na mostra e que certamente o influenciaram. A julgar por Iluminação Íntima, Passer talvez tenha exercido uma influência em Forman que é maior do que pensamos.

 

Serviço

Centro Cultural Banco do Brasil – São Paulo

Mostra Nouvelle Vague Tcheca – O Outro Lado da Europa

Endereço: Rua Álvares Penteado, 112 – Centro

Telefone: (11) 3113-3651/3652

Site: www.bb.com.br/cultura

Ingressos: R$ 4,00 e R$ 2,00 (meia-entrada)

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