Montador brasileiro tem filme concorrendo ao Oscar pela segunda vez

Montador brasileiro tem filme concorrendo ao Oscar pela segunda vez

 

Por Adriano Garrett

 

A ausência de O Som ao Redor da lista de indicados ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira não excluiu a participação do Brasil no prêmio mais midiático do cinema mundial. Ao menos indiretamente, o país terá uma pessoa muito interessada nos anúncios que serão feitos no Dolby Theatre, em Los Angeles (EUA), no próximo dia 2 de março: o brasileiro Pedro Kos, um dos montadores do filme The Square, que concorre ao prêmio de melhor documentário.

Hoje com 36 anos, Kos chegou aos EUA ainda adolescente e fixou residência no país. Depois de cursar direção de teatro na prestigiada universidade de Yale, ele iniciou sua trajetória na indústria cinematográfica como assistente de pós-produção do filme Frida, sobre a artista mexicana Frida Kahlo. Posteriormente, o brasileiro trabalhou como montador de diversos documentários, entre eles o também indicado ao Oscar Lixo Extraordinário, coprodução Brasil-Reino Unido que trata do trabalho do artista plástico Vik Muniz.

A experiência em The Square, contudo, foi diferente de seus trabalhos anteriores. O documentário de Jehane Noujaim, que foi adquirido pelo Netflix e já pode ser visto no Brasil por meio desse serviço de streaming, propõe uma imersão na vida de algumas pessoas durante o conturbado contexto político do Egito nos últimos anos, quando dois presidentes (o ditador Hosni Mubarak e Mohamed Mursi) foram depostos graças à pressão popular.

Graças ao imediatismo da situação, a quantidade de imagens coletadas foi enorme (cerca de 1600 horas de material bruto), o que explica o número de oito montadores creditados ao final do filme. O brasileiro Pedro Kos trabalhou na última fase da montagem e foi importante para que o documentário tivesse esse corte final.    

Em entrevista por e-mail ao Cine Festivais, Kos falou, entre outros assuntos, sobre a sua carreira, o trabalho em The Square e a indicação do documentário ao Oscar. Evitando o ufanismo, ele diz que, se a produção for premiada, “o troféu será de cada um que esteja lutando por um mundo mais justo”, independentemente da nacionalidade.

 

Cine Festivais: Para começar, gostaria que você contasse um pouco sobre sua trajetória profissional. Quando e por que você saiu do Brasil? Há quanto tempo mora nos EUA?

Pedro Kos: Eu moro nos EUA há 23 anos. Vim morar aqui quando ainda era adolescente, com meus pais (tinha 12 anos). Estudei da sexta série em diante aqui, e depois de terminar a faculdade fui morar e trabalhar em Nova York. Meu primeiro trabalho foi como assistente de pós-produção no filme Frida, sobre a artista mexicana Frida Kahlo. No finalzinho do meu trabalho no filme vim para Los Angeles coordenar a correção de cor, gostei bastante da cidade e decidi ficar aqui. Desde então fui trabalhando em vários filmes e comerciais, ambos na produção e pós-produção. Como já sabia editar, fui chamado para trabalhar na montagem de um documentário sobre os bastidores do filme O Novo Mundo, do Terrence Malick, e a partir daí comecei a trabalhar quase exclusivamente como montador.

 

CF: Como surgiu o convite para ser um dos montadores do documentário The Square e por que você se interessou pelo projeto?

PK: Eu conheci a diretora do filme, Jehane Noujaim, no Festival de Sundance de 2012, em uma apresentação de um documentário que eu tinha montado, The Island President. Ela adorou o filme e, como também já conhecia meu trabalho no Lixo Extraordinário, me convidou para montar o documentário. Fiquei super tentado, porque já era fã do trabalho dela (Control Room, Startup.com), mas na época eu não estava disponível.

No ano seguinte, no Festival de Sundance de 2013, onde eu estava com o documentário The Crash Reel (direção de Lucy Walker), outra vez encontrei a Jehane, que estava com uma versão inacabada de The Square no festival. Ela voltou a me convidar para terminar a montagem do filme e depois de assistir aquele corte (que me cativou muito), eu aceitei.

 

Kos foi o montador de Lixo Extraordinário, que concorreu ao Oscar em 2011

Kos foi o montador de Lixo Extraordinário, documentário codirigido por Lucy Walker (esq.) que concorreu ao Oscar em 2011

 

CF: A diretora Jehane Noujaim disse em entrevista ao site do Festival de Tribeca que o seu trabalho na montagem ajudou a tornar o filme mais profundo e mais guiado pela história dos personagens. Como você recebe esse elogio e como foi a sua experiência de trabalho com a diretora?

PK: A experiência de trabalho com a Jehane foi maravilhosa. Ela realmente é incrível, uma das pessoas mais corajosas que já conheci na minha vida. Sua dedicação ao filme é total, ela inclusive foi presa três vezes durante os dois anos e meio de filmagem. Nossa colaboração foi bem próxima porque, mesmo ela estando no Egito filmando as últimas cenas do filme, estávamos sempre de acordo com os rumos da montagem, que era tornar o filme uma experiência mais íntima e guiada pelos personagens. E o elogio me faz muito feliz, porque mostra que conseguimos atingir nosso objetivo.

 

CF: O projeto teve 1600 horas de material bruto e sete montadores além de você. Qual foi a quantidade de material que chegou para você editar? Quais são os prós e os contras de uma montagem colaborativa, com tantos envolvidos?

PK: O processo de montagem de The Square foi muito comprido, complicado e feito em etapas. Foram cinco editores, uma editora associada, cinco editores adicionais, mais seis assistentes de edição ao todo. Quando eu entrei no projeto, em 2013, trabalhei somente com um outro montador, Christopher de la Torre, e a editora associada Dalia Ali. Os outros montadores eu nem cheguei a conhecer, pois já tinham terminado seu trabalho. Fui o último montador no projeto e fui responsável por remontar grandes partes do filme e incluir as últimas filmagens, que equivalem aos últimos 15 minutos. O trabalho dos montadores anteriores foi essencial para mim, pois eles já tinham filtrado grande parte das 1600 horas de material. E, como estava correndo contra o tempo para terminar o filme, não poderia revisar todo o material bruto.

 

CF: Qual era o seu conhecimento a respeito da situação política egípcia antes de trabalhar no documentário? Como a sua visão sobre o Egito mudou após The Square?

PK: Meu conhecimento da situação no Egito era limitada ao que eu lia e via em noticiários. Acompanhei as notícias desde que a revolução começou, mas quando entrei no projeto minha visão mudou completamente. Entendi que o que nós vemos nos noticiários é uma versão extremamente simplificada dos acontecimentos. Quando você acompanha o dia a dia de indivíduos que estão vivendo aquela luta, a realidade se torna muito mais complexa e cheia de paradoxos, como vemos na pessoa de Magdy (um dos personagens do filme). Apesar de ser membro da Irmandade Mulçumana, ele questiona a organização e suas posturas, mas no final não deixa de ser fiel a ela. É esse tipo de dicotomia e de complexidade que nós não vemos nas noticias, onde tudo é preto ou branco, mas a realidade, como sempre, é muito mais cinza.

 

CF: Há quem diga que os protestos no Egito e em outros países árabes incentivaram uma série de outras manifestações pelo mundo. Você acompanhou os protestos ocorridos em junho passado no Brasil? Como você relaciona os dois eventos?

PK: Acompanhei muito os protestos no Brasil. Aliás, foi bastante surreal para mim, porque eu já estiva montando o The Square quando a onda de protestos começou aí em junho. Talvez por este fato, relaciono muito os dois eventos (ou eu diria movimentos). Mesmo tendo trajetórias totalmente diferentes, no fundo a luta é a mesma. É a luta pelos direitos fundamentais de cada pessoa, é a luta por um governo mais justo, igual, e menos corrupto. É a luta por um sistema de governo que sirva o povo, e não a si mesmo. Estamos vendo isso acontecer no mundo inteiro hoje em dia, na Ucrânia, na Venezuela, na Tailândia, na Turquia, até aqui nos EUA de certa maneira, com o movimento Occupy Wall Street.

 

CF: Você foi o montador do documentário Lixo Extraordinário, que foi codirigido pelo também brasileiro João Jardim e concorreu em 2009 ao Oscar de Melhor Documentário. Qual foi a importância daquela indicação para a sua carreira?

PK: O Lixo Extraordinário foi um grande marco na minha vida. Com a ajuda de todos os prêmios e indicações que recebeu, o filme teve um enorme alcance na indústria cinematográfica, e ajudou a abrir muitas portas para mim. Não só conheci uma grande colaboradora, a diretora Lucy Walker, mas também foi como consegui os dois filmes em que trabalhei em seguida, o The Island President e o Elemental (e, de certa maneira, também o The Square). Sem dúvida, o Lixo foi um divisor de águas na minha carreira.

 

CF: A indicação de The Square ao Oscar de melhor documentário era esperada? Qual é a sua expectativa para a premiação? Você vai à cerimônia?

PK: Para mim, nenhuma indicação ao Oscar é esperada. É um feito tão difícil e raro que qualquer expectativa normalmente só gera decepção. 2013 foi um ano de documentários incríveis, mais de 150 estavam concorrendo à indicação, e ser incluído entre os cinco indicados é muito além do esperado. Também não tenho nenhuma expectativa para a cerimônia, acho que a indicação já é um grande prêmio e ajudará muito para divulgar o filme e manter o diálogo vivo sobre a revolução do Egito e seus ideais. E não irei à cerimonia, só às festas.

 

CF: Parte da imprensa brasileira tem obsessão pelo Oscar e pelo fato de o Brasil nunca ter ganhado uma estatueta. Você acha que esse fator tem alguma relação com a qualidade do cinema brasileiro?

PK: Claro que não, o Brasil tem uma indústria cinematográfica de altíssima qualidade e com grandes mestres reconhecidos mundialmente. Acho que o fato de que ainda não ganhamos um Oscar se deve somente à falta de exposição do nosso cinema em Hollywood. O que precisamos é um trabalho mais forte de lobby aqui, pois a qualidade do nosso cinema já é fato.

 

CF: Como montador de The Square, você pensa que o troféu será um pouco brasileiro se o documentário for premiado no Oscar?

PK: Acho que, se o The Square ganhar o Oscar, o troféu será de cada um que esteja lutando por um mundo mais justo, quer ele esteja no Egito, no Brasil, na Ucrânia, ou em qualquer outra parte do mundo.

 

CF: Quais são os seus próximos projetos?

PK: Estou me preparando para dirigir um documentário de curta-metragem na Espanha, e logo em seguida vou dirigir um documentário longa-metragem aqui nos EUA.

 

CF: Você pensa em seguir a sua carreira nos EUA ou tem intenção de trabalhar em filmes brasileiros? Você deseja trabalhar em filmes de ficção ou pretende seguir montando apenas documentários?

PK: Adoraria trabalhar em filmes brasileiros se pintar a oportunidade. Meu sonho e meu objetivo desde pequeno é dirigir; tenho planos de curto e longo prazo para dirigir filmes, tanto documentários quanto ficções.

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