Natural de Itaúna, no interior de Minas Gerais, Juliana Antunes começou a se interessar pelo ato de filmar vendo o seu pai produzir vídeos caseiros em festas e casamentos locais. A trajetória até finalizar o primeiro filme – Baronesa, trabalho vencedor da Mostra Aurora, seção competitiva de longas-metragens da Mostra de Tiradentes – foi marcada por movimentos de resistência: aos estereótipos que associam mulheres a determinadas funções cinematográficas, à formação de uma equipe tradicional, à desconfiança inicial das personagens escolhidas e aos atravessamentos violentos da realidade durante as filmagens.

O filme começou a ser pensado em 2012 como trabalho de conclusão de curso no Centro Universitário UNA, em Belo Horizonte. A ideia sempre foi retratar mulheres que vivem em bairros periféricos da capital mineira, lugares que têm nomes femininos (como Juliana). Entretanto, o encontro com Andreia e Leid, que acabaram se tornando as protagonistas do longa-metragem, não foi imediato, e a aceitação das duas com relação à participação no filme tampouco se deu sem desconfianças – no debate em Tiradentes foi citado um receio inicial das retratadas, que levantaram a hipótese de que a equipe de filmagem fosse na realidade um grupo de policiais infiltradas.

Só depois de um período de convivência grande com Andreia e Leid que as filmagens começaram, sempre em dias de semana – a pedido das próprias retratadas. A equipe fixa que teve uma convivência intensa com as protagonistas foi formada por um grupo de mulheres que Juliana conheceu na época da faculdade: Fernanda de Sena (diretora de fotografia – vencedora do troféu Helena Ignez, para mulheres em funções cinematográficas criativas, também na 20ª Mostra de Tiradentes), Giselle Ferreira (assistente de direção) e Marcela Santos (som direto).

Após serem captadas cerca de 100 horas de material, Rita Pestana dividiu a desafiadora montagem com Affonso Uchoa, profissional que teve o seu segundo longa-metragem na direção, A Vizinhança do Tigre, premiado na 17ª Mostra de Tiradentes justamente em um ano em que Juliana Antunes compunha o Júri Jovem do evento. A amizade entre os dois nasceu ali, e a diretora aponta que a troca de ideias com Affonso foi importante para entender algumas questões do filme, embora também enxergue diferenças visíveis ente os processos desses trabalhos.

No vídeo a seguir é possível assistir à entrevista que o Cine Festivais realizou com Juliana Antunes logo no dia seguinte à exibição de Baronesa na 20ª Mostra de Tiradentes. Aqui ela fala sobre sua trajetória, a respeito do processo criativo do longa-metragem e da forte ligação que possui com o festival mineiro.

Se preferir ler o que a cineasta disse, transcrevemos abaixo os principais pontos da conversa.

 

 

Tiradentes

Tiradentes é para mim um festival que tem um caráter super formador. É o primeiro festival de cinema que eu fui, aquele que de fato me colocou em contato com esses filmes que não tinham na locadora da minha cidade (Itaúna, interior de Minas Gerais). Venho ao festival desde antes de começar a estudar cinema.

(…) Eu acho foda poder falar do filme no dia seguinte e ter esse interesse do público. Essa resposta imediata é muito interessante, muito potente. Foi de fato minha primeira experiência e… é rápido, né? A gente viu o filme, bebe, acorda e depois já está aqui para o debate. É bom ver que o filme está vivo, que está de fato nas cidades, nas pessoas. E ver as diferentes reações, ser confrontada ou não, criticada, elogiada.

 

Trajetória

Minha relação com cinema começou porque meu pai filmava festas de aniversário e casamentos em VHS. Minha cinefilia vem muito tarde. Sou do interior de Minas, e minha família não é nada cinéfila, tampouco meus amigos (daquela época). Isso veio tarde, com 18 para 19 anos. Sempre achei muito interessante o ato de filmar. Lá em casa toda semana tinha uma sessão desses VHSs do meu pai, com imagens dessas festas.

A partir disso me mudei para BH, comecei a estudar cinema e a coisa foi se desenvolvendo. Comecei a trabalhar muito cedo no cinema, minha formação é muito técnica, tanto na Escola Livre de Cinema quanto no UNA. Comecei a trabalhar em equipes e ver que as mulheres eram sempre produtoras, figurinistas, diretoras de arte… nada contra essas funções, mas o problema é que sempre era delegado… No próprio curso tinha exercício e falavam: “Ju, você produz”. E eu não queria produzir, sabe.

Esse filme foi feito pelas minhas amigas que nunca tinham filmado. Foi meu TCC e ganhou um edital pequeno para curtas e médias-metragens, no valor de R$ 56 mil. Foi a primeira assistência de direção da Giselle (Ferreira), a Fernanda (de Sena) já trabalhava como assistente de fotografia, tem uma formação mais técnica que a minha… eu quis fugir dessas equipes tradicionais. Acho que o resultado está na tela e vem disso também, de como o modo de produção de fato está associado ao resultado do filme.

 

Equipe

O desejo dessa equipe de fazer esse filme foi imenso, e a partir desse desejo a gente conseguiu chegar nesse resultado. Não sei se tivesse um homem filmando este resultado seria alcançado, porque eu não sei se um homem se dedicaria a esse filme como essas mulheres se dedicaram. O Affonso (Uchoa) montou o filme, teve uma dedicação absurda na pós-produção, o Julio Cruz fez um som adicional, mas não foi aquela coisa intensa de morar, de estar ali, de conviver.

 

Vizinhança

O filme existe desde 2012. Integrei o Júri Jovem em 2014, e depois de ver A Vizinhança do Tigre acabei ficando próxima do Affonso, que não conhecia antes. Inclusive fui assistente de direção no Árabia, que é o terceiro longa-metragem dele.

Tem uma inspiração de método. O Affonso foi essa figura que eu podia sempre recorrer por ter passado por um processo parecido… ou não, porque ele filmou amigos, vizinhos, que estavam dispostos (a serem filmados), e eu filmei mulheres desconhecidas, que os maridos não concordavam com o filme e elas também não estavam tão dispostas a fazer. Depois, sim, mas até chegar nisso, não.

 

Personagens

Fomos a esses bairros com nomes de mulheres em BH para tentar achar essas meninas, tentar entender essa periferia e esse filme possível. A priori eu chegava na periferia e as mulheres nunca estavam na rua, então eu escolhi um dispositivo que era o salão de beleza. Filmei muitos salões, mas acabou que só me eram apresentadas conversas tétricas que não chegavam onde eu queria atingir. A Andreia era cliente de um desses salões em que eu estava filmando, comecei a seguir ela, aí veio a Leid, o Negão…

 

Leia também:

>>> Texto sobre Baronesa