A protagonista de Animal Político leva uma vida normal para uma jovem de classe média. Faz compras no shopping, vai à academia, come em um restaurante sofisticado… O que a diferencia é um simples detalhe: ela é uma vaca.

“Você falar sobre o vazio de alguém que está em um restaurante pode dar em um filme incrível, mas eu queria que a presença da vaca fizesse a gente ter um distanciamento para pensar sobre nós mesmos, e que ela tornasse nosso pensamento sobre essas ações mais claro, mais fresco”, explica o diretor Tião, que antes de realizar este primeiro longa-metragem teve uma carreira multipremiada em festivais com os seus curtas Muro e Sem Coração (este com codireção de Nara Normande).

O filme fez a sua estreia mundial na 19ª Mostra de Tiradentes e posteriormente foi exibido no Festival de Roterdã, na Holanda. Em conversa com o Cine Festivais um dia após a sessão na cidade mineira, o diretor pernambucano comentou as suas motivações para o trabalho, falou sobre as dificuldades de produção e apontou as suas principais influências.

No vídeo abaixo, realizado em parceria com a produtora Babuíno Filmes, você pode ver as principais falas da entrevista com Tião. Se preferir ler o que o diretor disse, transcrevemos abaixo a entrevista na íntegra.

 

 

Cine Festivais: Pensando nos seus últimos curtas, no Muro há uma tendência mais experimental e no Sem Coração há uma proposta mais narrativa. Talvez o Animal Político seja uma mistura das duas coisas. Como você acha que esses trabalhos contribuíram para o pensamento dessa questão da linguagem?

Tião: Em tudo, né? Além da bagagem que você tem, do que você vê e gosta, essa experiência do fazer é onde você realmente se descobre e aprende. Apesar de eu achar que são filmes muito diferentes, as questões que estão no Animal Político sempre estiveram nos meus outros filmes. Essa coisa de como a gente vive, como se dá o indivíduo em relação à sociedade.

Sobre a forma, acho que eu sentia o Muro como um prefácio, de eu ter que falar algumas coisas que estavam ali para poder fazer outros filmes. No Sem Coração, por contraste – porque eu acho massa você não ficar se repetindo – eu quis fazer ele dessa forma com a Nara (Normande, codiretora do curta), que trouxe a história e o universo do filme. Esse contraste de universos e formas me encantou muito. Foi uma coisa: “eu fiz o Muro, me relaciono bem com ele, mas como que eu ficaria com o diálogo com uma narrativa um pouco clássica, mas sempre tentando propor alguma coisa?”.

Para o Animal também, é uma narrativa que eu acho até um pouco estranha, porque a espinha dela é clássica, mas tem umas interferências e umas saídas… Até por causa da relação da vaca dentro de um ambiente normal. Eu acho isso importante, porque depois dos anos 30 a 50, que a galera fez os clássicos, acho importante que hoje em dia você tente propor outra coisa também.

 

CF: Essa ideia do Animal Político já estava na sua cabeça quando você fez os curtas?

T: A ideia eu tive bem na época do Muro, quando estava viajando com o filme. Era isso de falar sobre a gente, sobre a sociedade, e colocar esse elemento desestabilizador, que é uma vaca do tamanho que ela é dentro daquelas cenas, então foi uma ideia que surgiu faz bastante tempo, em 2009. Já em 2010 a gente começou a filmar bem aos poucos, e terminamos grande parte do filme até 2013.

 

CF: A própria condição da vaca como protagonista pedia um orçamento maior. Como foi o processo de produção de Animal Político?
T:
Quando comecei a pensar no roteiro do filme estava abrindo um edital, mas eu não ia conseguir desenvolver um (roteiro de) longa a tempo, e naquela época o edital era mais restrito. Achei que deveria coloca-lo como curta, escrevi um roteiro em três dias, quase uma sinopse do filme, e a gente teve dinheiro de curta para a filmagem.

É um filme que em tese precisaria ser feito com muito dinheiro, porque tem uma estrutura um pouco grande, o que era inevitável por causa da vaca, até por questão de logística. A gente não podia gravar mais do que dois dias seguidos com ela, porque se não ela ficava cansada, e a gente tinha que respeitar isso e lidar com isso. Às vezes ela passava um dia para fazer dois planos, e às vezes fazia um plano de primeira que a gente nem sabia o que fazer depois, era muito imprevisível. Foi assim que a gente começou. A produção foi bem difícil, quase impossível. A gente descobriu no meio que era impossível e dissemos: “vamos nessa, já estamos aqui”.

 

CF: Por que razões simbólicas você escolheu a vaca como protagonista e como você decidiu lidar com as questões de gênero no filme?

T: A questão da vaca é primeiro um elemento para causar estranheza em uma situação normal. Você falar sobre o vazio de alguém que está em um restaurante pode dar em um filme incrível, mas eu queria muito que a gente colocasse situações comuns e que a presença da vaca fizesse a gente ter um distanciamento para pensar sobre nós mesmos, e que ela tornasse nosso pensamento sobre essas ações mais claro, mais fresco.

Isso era a questão principal de ter a vaca, além da expressão dela. Quando a gente foi na feira de exposição de animais para ver qual vaca a gente iria usar no filme, deu para imaginar bem nas cenas uma expressão que está muito a serviço do filme, a expressão natural dela. São questões muito mais praticas que simbólicas.

Sobre gênero, também é uma questão até um pouco prática, porque eu não queria direcionar o filme para um gênero, já que a gente estava falando sobre a humanidade. Achei interessante deixar a vaca ambígua, como uma entidade, um ser que está passando pelo filme.

 

CF: Você vê o seu filme como um trabalho cinéfilico, ou acha que ele bebe de fontes mais amplas?

T: É difícil até analisar. Acho que seria talvez um desrespeito eu me considerar cinéfilo, porque vi muito pouco. Sinto um amor grande pelas possibilidades do cinema, por ser uma plataforma que agrega de todos os campos. Pelo que eu conversei com algumas pessoas, acho que o filme tem algum debruçamento sobre questões cinematográficas, tanto de forma quanto de citação. Isso passa mais por essa relação com a pequena bagagem que eu tenho do que por uma cinefilia trabalhada, como muita gente faz questão de comentar, e que eu acho massa.

Para mim é muito importante trazer coisas de outros lugares, da pintura, das instalações – a vaca pode ser uma instalação -, da literatura, dos quadrinhos, da música. Me apego a gente como Patti Smith, Lou Reed, Robert Crumb, Roberto Bolaño. Acho que tudo isso é importante para o filme. Tem uma citação do (Fiodor) Dostoiévski, do (Alexandre) Pushkin. Tem Helena Ignez, pois me impactou muito o trabalho dela com o (Rogério) Sganzerla. Tem Melissa (Dullius) e Gustavo (Jahn), que são amigos que moram em Berlim e filmaram com a gente a parte da praia (no Animal Político). Tem também Robert Johnson, o blues.

 

CF: Claro que primeiro o filme tem que ficar pronto, mas como você lida com as inscrições de festivais? Gosta de esperar para tentar colocar em um evento que goste mais?

T: Você tem que lidar com o tempo, com as suas vontades e com isso dos festivais que proporcionam um espaço bom. Sobre guardar, a gente terminou o processo do filme agora, mas no ano passado fomos mandando para alguns festivais, com ele ainda aberto, e para mim não fazia mais sentido ficar esperando.

Acabou que tinha esses dois festivais Tiradentes e Roterdã, que de formas diferentes proporcionam coisas muito interessantes para o filme. Tiradentes com relação à forma de pensar o filme; Roterdã é um festival que propõe muito, está aberto a formatos menos clássicos. Me soou bem começar 2016 passando o filme tanto dentro quanto fora do País, acho que está no tempo certo.

 

CF: Você já havia exibido outros filmes aqui em Tiradentes. Qual é a sua relação com o festival?

T: É com certeza um festival especial, pelo que ele veio sendo construído para chegar no que é hoje. É um lugar em que as pessoas se debruçam muito sobre o filme, isso é sempre recompensador. É muito melhor que sim ou não, que gostar ou não gostar.

Estava até pensando que acho que a gente tem sorte de que esse lugar exista no meio do mundo bruto como ele é hoje. Se a gente for ter esse distanciamento, é incrível.

O primeiro filme que fiz, Eisenstein, estreou aqui em Tiradentes. Acho que todos os filmes que fiz passaram aqui de alguma forma. Eu tinha vindo em 2007 e 2009, e agora fiz a primeira projeção do Animal Político aqui. Fico bem feliz.

 

CF: Além de Tiradentes, quais são os outros festivais brasileiros que lhe chamam a atenção?

T: O Olhar de Cinema (em Curitiba) está sendo construído de uma forma interessante, pelo menos é essa visão que tenho a distância. Com o Janela acontece o contrário, estou sempre lá em Recife, e é um festival incrível.

Os festivais mais tradicionais também parecem ser legais. Nunca fui para a Mostra (de São Paulo), já que esse é o meu primeiro longa, mas acho que tem um debruçamento interessante ali. Brasília é uma coisa que não dá para saber. Fui para lá com o Sem Coração, mas na questão dos longas muda bastante o perfil. Naquele ano havia filmes bastante experimentais, tinha aquele negócio de comparar com Tiradentes… Parece que ano passado foi um pouco mais clássico, mas querendo ou não é um festival que passou coisas incríveis, como no mesmo ano Bressane e A Mulher de Todos. Então acho que são esses que eu penso primeiro.

Tem também os festivais de curtas, que sempre foram muito importantes para mim. O de Belo Horizonte, o de São Paulo, até o Curta Cinema propõe coisas interessantes. A Semana dos Realizadores também, mas nunca pude ir para lá, só acompanho a curadoria.

 

Veja também:

>>> Entrevista com Thiago B. Mendonça

>>> Entrevista com Miguel Antunes Ramos

>>> Cobertura da 19ª Mostra de Tiradentes

 

*Animal Político será exibido na Mostra Tiradentes SP, que acontece no CineSesc, em São Paulo, de 17 a 23 de março

 

** O repórter viajou a convite da 19ª Mostra de Tiradentes