Cineasta com trabalhos como A Casa de Sandro e Chantal Akerman, De Cá, o carioca Gustavo Beck faz parte atualmente da equipe de programação de quatro festivais: Indie Lisboa (Portugal), Cinema Du Réel (França), Festival de Roterdã (Holanda) e Olhar de Cinema.

Neste último, que teve a quinta edição realizada em Curitiba no mês de junho, Beck ministrou uma oficina sobre Curadoria e Programação de Festivais.

Na ocasião, ele falou ao Cine Festivais, entre outros temas, sobre o cenário dos festivais brasileiros e o atual momento do cinema nacional.

 

Cine Festivais: Na sua oficina realizada no Olhar de Cinema você citou a criação da Semana dos Realizadores como exemplo de resistência a um grande festival tradicional, no caso o Festival do Rio. Há alguns casos semelhantes, como o Janela, do Recife, que faz resistência ao conceito do Cine PE. Gostaria que você comentasse como esse momento também estava ligado a um descontentamento de uma nova geração de diretores brasileiros com o espaço que eles vinham obtendo nesses eventos.

Gustavo Beck: O Eduardo Valente, criador da Semana dos Realizadores, e o Kleber Mendonça Filho, criador do Janela, são pessoas que não só atuam como cineastas, mas também como críticos e programadores.

Nessa geração dos anos 2000 houve algumas pessoas que se interessaram por abrir o leque de atividades, atuando em diferentes áreas do cinema. O Kleber está à frente do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco há bastante tempo, o Eduardo fundou o FBCU (Festival Brasileiro de Cinema Universitário) antes de fundar a Semana, trabalhou em Tiradentes e agora assumiu a curadoria do Festival de Brasília.

Até por serem realizadores, eles perceberam que existia uma produção brasileira muito mais interessante do que a que vinha sendo exibida até então. Isso trouxe uma força para que eles pudessem criar esses festivais, e aos poucos os cineastas foram acreditando no trabalho deles e passaram a confiar seus filmes a esses festivais.

Uma das coisas mais difíceis quando você cria um festival é convencer os diretores de que o festival vai ter estrutura para receber esses filmes, para servir como plataforma de lançamento. Acho que esses festivais já nascem com essa força. A Semana dos Realizadores, em especial, nasceu com uma identidade e uma vontade de cinema muito claras, com um recorte bem resolvido sobre o que seria o cinema brasileiro dos anos 2000.

 

CF: Como você acha que a criação da Mostra Aurora, dentro da Mostra de Cinema de Tiradentes, serviu como pontapé inicial dessa nova tendência dos festivais brasileiros?

GB: Acho que a Mostra Aurora foi muito importante no momento da sua criação, porque exibiu filmes que até então não eram exibidos, ou que tinham um espaço muito limitado. A Aurora se consolidou como uma casa desse novo cinema brasileiro que estava surgindo, temporariamente nomeado com Novíssimo Cinema Brasileiro.

É um festival que acontece em uma cidade agradável, traz convidados e mídia, então de alguma forma todo mundo se interessou por abraçar esse festival, todo mundo ia para Tiradentes naqueles primeiros anos, tendo um filme ou não.

Como cineasta eu exibi um curta (Ismar) lá em 2008 e um longa (A Casa de Sandro) em 2009. Para mim foi importante porque era um lugar em que eu passava meu filme junto com outros cineastas que me interessavam, ou então que eu nunca tinha ouvido falar, mas tinha a oportunidade de descobrir.

A Mostra de Tiradentes teve um momento muito bom, enfraqueceu um pouco ao longo dos anos, mas ainda segue sendo um dos melhores espaços para exibir filme no Brasil hoje em dia.

 

CF: Quais seriam as suas principais críticas ao momento atual da Mostra de Tiradentes?

GB: Acho que o festival ainda consegue trazer muitos bons filmes e cineastas interessantes. O que eu acho é que de alguma forma ele vive uma ressaca de um apogeu que alcançou, em minha opinião, entre 2008 e 2011, mesmo que depois ainda tenham surgido filmes melhores, como os casos do Adirley Queirós (A Cidade é Uma Só? e Branco Sai, Preto Fica) e do Affonso Uchoa (A Vizinhança do Tigre).

Houve um momento muito forte que trouxe a confiança para os cineastas entenderem que aquele era um lugar para estrear os seus filmes. Acho que hoje o cineasta brasileiro vai a Tiradentes e estreia seu filme lá, entre outros festivais, porque acredita, sabe o que é, conhece, vê os filmes que estiveram lá nos últimos anos. Penso que o festival se consolidou um pouco dessa forma.

Não quero criticar a Mostra de Tiradentes, porque acho que ela é um bom festival que teve um papel importantíssimo para o cinema brasileiro, mas acho que de alguma forma ela precisa propor uma renovação também. Já não é tão novidade, como foi em algum momento.

Hoje em dia esses filmes, se não estrearem em Tiradentes, vão para outros lugares: Semana, Janela, Olhar de Cinema, Brasília, Fronteira… Já não é algo único, aquela coisa especial de ter que ser exibido em Tiradentes, se não o filme não vai mais para lugar nenhum.

 

CF: O Olhar de Cinema é um festival que tem uma proposta ambiciosa, com exibição de filmes internacionais e de mostras retrospectivas. Qual é a sua visão como programador do festival?

GB: Acho que o Olhar de Cinema tem um programa pequeno. São quase 100 filmes, mas metade deles são curtas ou clássicos, então estamos falando de algo em torno de 40, 50 longas, o que dentro da produção mundial de hoje é uma fatia muito pequena, gostaria de exibir muitos outros filmes.

O Olhar tem uma equipe de programação bem pequena, há um recorte bem específico dos filmes que nós queremos exibir, porque os filmes maiores, de cineastas badalados que nos interessam, vão acabar indo para o Rio ou São Paulo. É muito difícil trazermos um filme de competição de Cannes ou de Berlim.

O que a gente tenta fazer é agrupar da melhor maneira possível esses filmes que normalmente não encontrariam ao espaço no circuito de festivais brasileiros. Acho que é por aí que o Olhar vem se destacando, por ter um diálogo direto e urgente com o cinema que é feito hoje no mundo.

Os filmes desta edição foram exibidos pela primeira vez no Brasil, quase todos pela primeira vez na América Latina. Olhamos o que está acontecendo no mundo e trazemos os filmes para cá imediatamente. Nossa proposta é a de conseguir colocar o cinéfilo brasileiro a par do que está acontecendo em tempo real, e não esperar para exibir o que todo mundo já assistiu em outros festivais.

 

CF: Por não ter uma programação tão grande, você acha que o Olhar de Cinema pode dar maior destaque aos filmes selecionados do que os festivais que exibem um número bem maior de títulos?  

GB: É isso que oferecemos para os filmes que aceitam o nosso convite. Nossa competição de primeiros longas tem sete títulos; a mostra competitiva tem dez. Em compensação, se o um filme vai para a Mostra de São Paulo ou para o Festival do Rio, ele cai em uma mostra panorâmica com outros 100, 200 trabalhos, e pode acabar sem destaque algum. O público desses festivais fica completamente perdido, sem saber o que ou por que deve ver um. Acho importante nossa tentativa de fazer um recorte bem mais específico.

 

CF: Você costuma frequentar os festivais mais famosos do mundo, como Cannes. Qual é a sua opinião sobre eles?

GB: Esses festivais maiores, como Cannes e Veneza, ficaram muito caretas. Eles são voltados para um circuito de distribuição comercial, então quem não tiver esse potencial de público não vai entrar.

Posso citar o caso do Pedro Costa, um cineasta importantíssimo para o mundo nos anos 2000, mas que eu acho que nunca mais estar em uma mostra competitiva de Cannes, simplesmente porque o cinema dele não vende, não interessa aos mercados consumir um filme como Juventude em Marcha.

Festivais menores, como Locarno, Roterdã e outros, souberam se aproveitar desse espaço para oferecer uma programação melhor para o seu público; são os espaços em que você pode encontrar um cinema mais autoral e independente, que não passa pelos grandes festivais e que não vai ser distribuído comercialmente.

 

CF: Você acompanhou a exibição de Aquarius, do Kleber Mendonça Filho, na competição oficial do último Festival de Cannes. Você acha que esse pode ter sido um ponto de inflexão para essa nova geração de cineastas brasileiros, ou damos muito peso para uma seleção como essa?

GB: Acho que são as duas coisas. A gente dá muito peso para um festival como o de Cannes, que tem uma programação péssima. Ele consegue ter bons filmes porque é o maior festival do mundo; porque se você exibe o filme na competição oficial, ele será vendido para quase todos os países.

O caso de Aquarius é um pouco isolado. Vem de um trabalho construído pelo Kleber ao longo de muitos anos: ele frequenta o festival há quase 20 anos, já exibiu curta em Cannes, então acho que há uma trajetória que ele trilhou e que consequentemente ajudou muita gente, abriu portas para muitos cineastas no Brasil, mas vejo como um caso bem único.

É claro que a exibição de Aquarius ajuda de alguma maneira os cineastas brasileiros, mas não necessariamente implica que teremos um filme brasileiro na competição oficial de Cannes no ano que vem; acho que não é por aí.

 

CF: Tendo experiência como cineasta e programador no Brasil e no exterior, quais são as suas impressões sobre o atual momento do cinema brasileiro?

GB: Eu vejo que o cinema brasileiro caminha em muitas direções, não é possível defini-lo de apenas uma maneira. Ele vem crescendo e melhorando muito, mas ainda tem problemas. Acho que é um cinema ainda muito frágil em termos de construção de narrativa, se formos pensar em como ele dialoga com o cinema de seu tempo no mundo todo.

O cinema brasileiro tem uma certa teatralidade no trabalho com os atores que não o inclui tanto no cinema mais fluido que eu acho que é feito e celebrado hoje no mundo. Não acho também que festivais como Roterdã ou outros são parâmetros para definir o que é bom e o que não é, nem o que deva ser feito.

Estamos melhorando, mas sinto que ainda falta um grande filme brasileiro dessa nova geração, sabe. Não diria que teve um grande filme ainda. Há bons filmes, evoluímos muito ao longo dos últimos anos, mas temos muito a crescer.

 

CF: Quais nomes da nova geração de cineastas você destacaria?

GB: Acho que hoje o melhor cinema brasileiro está no curta metragem, com cineastas como Leonardo Mouramateus, Leonardo Sette, Ricardo Alves Jr., Deborah Viegas… Há também nomes que moram fora do país, como Ana Vaz e João Torres. Também é um momento em que muita gente está realizando o seu primeiro longa e consolidando o caminho que quer trilhar daqui em diante.

 

CF: Dos diretores com alguns longas no currículo, quais deles têm trabalhos que você admira?

GB: Acho que o Adirley Queirós é bastante interessante, assim como o Affonso Uchoa, o Tiago Mata Machado… Tem bastante gente, que já entende mais do seu cinema como narrativa, como o Fellipe Barbosa, o Kleber Mendonça Filho, a Juliana Rojas, o Marco Dutra e muitos outros. E também há aqueles cineastas com um volume de produção enorme, como os irmãos Pretti, o Guto Parante, o Bruno Safadi, que fazem filmes quase todo ano.

 

CF: Como programador de festivais no Brasil e no exterior, o que você busca nos filmes e que tipo de filme você considera uma descoberta em meio a tantos filmes e festivais?

GB: Acho que descoberta para mim é um filme que você tem dificuldade de lidar com ele, que você não consegue classificar ou entender exatamente onde ele se encaixa; não sabe dizer porque ele é bom, o que faz ele ficar agarrado na sua memória… São filmes que persistem e te incomodam de alguma maneira.

Como programador de cinema independente contemporâneo eu tento privilegiar filmes que conseguem construir universos próprios através de artifícios mínimos. Estou muito menos interessado em filmes que passam por laboratórios de desenvolvimento de roteiros no mundo inteiro e depois fazem grande carreira em festivais internacionais. Esses trabalhos são na verdade mais genéricos, podem atingir qualquer tipo de público.

Interessam para mim os filmes que eu tenho mais dificuldade para exibir, que vão provocar reações mais fortes, vão dividir a plateia. Acho que é por ai. O trabalho do programador tem que instigar e alimentar essa discussão.

 

CF: Para terminar, aproveitando que você é programador de um festival de documentários francês (Cinema du Réel), gostaria que você comentasse os recentes prêmios máximos recebidos pelo documentarista Gianfranco Rosi nos festivais de Veneza e, neste ano, em Berlim.

GB: Não tenho interesse particular pelo cinema dele e não acho que ele seja um exemplo a ser seguido. Rosi fez filmes que souberam trabalhar questões atuais, que foram muito bem realizados e que de alguma forma cativaram júris que se comoveram com os trabalhos e resolveram premiá-los.

Realmente é surpreendente que ele tenha ganho o Festival de Veneza e o Festival de Berlim em um curto espaço de tempo, mas o considero um cineasta menor. Ele faz filmes que são interessantes, devem ser exibidos, mas não acho que seja um grande documentarista ou cineasta.

Para mim foi um golpe de sorte, ele soube abraçar temas atuais polêmicos e construir filmes que comovessem o público. Se você pega o outro filme dele (Sacro GRA), que ganhou Veneza, cadê esse filme? Ninguém viu, ninguém sabe, é muito irrelevante para a história do cinema.

 

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*O repórter se hospedou a convite da organização do festival