No documentário paulista Meu Corpo é Político a diretora Alice Riff acompanha a rotina de quatro pessoas: o homem transexual Fernando Ribeiro, as mulheres transexuais Giu Nonato e Paula Beatriz e a artista queer Linn da Quebrada. A atenção está voltada a gestos banais dos personagens, como tomar banho, comer, esperar o ônibus, estudar, trabalhar, se divertir com os amigos… O contato deles com o ambiente urbano ganha um cuidado especial.

“Queríamos que pessoas trans vissem nessas imagens outras referências, diferentes das que a TV produz diariamente. O mesmo vale para as pessoas cisgêneras, no sentido de romper essa barreira, porque a exclusão é tão grande que a gente muitas vezes não convive. Então a ideia era justamente produzir imagens que vão ao encontro do espectador muito mais pela via da semelhança do que da diferença”, comenta a diretora em conversa com o Cine Festivais em Curitiba, onde seu filme estreou nacionalmente como integrante da mostra Outros Olhares do 6º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba.

Meu Corpo é Político chegará ao circuito comercial brasileiro neste ano como integrante do projeto de distribuição Sessão Vitrine. Na entrevista a seguir, Alice Riff falou sobre algumas questões que se relacionam direta ou indiretamente ao projeto.

 

Cine Festivais: Você apontou a existência do festival Periferia Trans, em São Paulo, como evento que impulsionou o projeto do documentário. Como se deu esse processo de pesquisa?

Alice Riff: A gente descobriu uma militância que estava bastante articulada e pensando em ocupar e disputar espaços dentro da educação, da arte e de outros campos. A ideia do festival era de lidar com essas questões de fora para fora, na periferia, sem precisar ir até o centro para criar meios de dialogar e debater essas questões.

Os personagens retratados em nosso documentário já estavam conectados ao festival desde a primeira edição. Na parte de pesquisa a ideia sempre foi dar visibilidade para pessoas trans por um viés pelo qual elas não costumam ser retratadas, por exemplo, através de profissões como quaisquer outras.

Quando a gente começou a filmar foi um processo meio natural. Elas eram as pessoas que já estavam meio próximas, e aí a gente foi conversando e entendendo como poderia construir esses quatro personagens para dar conta de falar de tudo o que a gente achava importante.

 

Por que você escolheu personagens que tinham consciência do espaço marginalizado que ocupam na cidade e das reflexões gerais produzidas pela militância LGBT?

Havia o desejo de fazer o filme ser um espaço de tempo, uma possibilidade para pessoas verem imagens que elas não estão acostumadas a ver. Um exemplo é a Paula, que ocupa uma função de poder dentro de uma escola pública. Através desse ato banal de ela assinar os papéis é como se o ordinário virasse extraordinário, porque é raro ela – como mulher negra trans – estar naquele lugar, é uma coisa que você nunca viu sendo retratada.

Queríamos que pessoas trans vissem nessas imagens outras referências, diferentes das que a TV produz diariamente. O mesmo vale para as pessoas cisgêneras, no sentido de romper essa barreira, porque a exclusão é tão grande que a gente muitas vezes não convive. Então a ideia era justamente produzir imagens que vão ao encontro do espectador muito mais pela via da semelhança do que da diferença.

 

Mesmo os personagens coadjuvantes do documentário utilizam expressões próprias de um ambiente consciente das lutas LGBTs e de outras minorias, como “empoderamento” e “que vergonha de gente branca”. Nesse momento em que há uma divisão política radical no País, e até pelo fato de você dizer que um dos objetivos do filme é atingir grupos diversificados de espectadores, como você acha que o filme pode tocar pessoas que não estão acostumadas ao discurso predominante em nossas “bolhas” sociais?

Eu pensei nisso durante o projeto, e acho que o filme justamente quebra as pernas desse espectador (fora da “bolha progressista”), pois ele não é agressivo, não é violento. Eu vejo que o filme vai lentamente, nas entrelinhas, aproximando qualquer pessoa da vida daqueles personagens. Nos primeiros dez minutos do documentário o Fernando acorda, toma banho e coloca sua roupa, a Paula toma café com a mãe dela ouvindo o Padre Marcelo Rossi, a Giua acorda, a Linn faz um discurso que tem também um lado de humor. São personagens que estão construindo um diálogo.

Um dos primeiros espectadores do filme foi meu pai, que de algum modo é uma pessoa fora dessa nossa “bolha”, e ele falou que esperava que iria se chocar com o documentário, e não se chocou. Havia esse desejo meu e dos personagens de não ter nada de agressividade. A agressividade que cada um deles recebeu durante a vida não é devolvida da mesma forma.

Acho que no final ele é um filme que olha com muito respeito para aqueles personagens, e independente do que a pessoa que for assisti-lo pense, está clara essa ideia de ter respeito pelas pessoas. O filme não é agressivo com ninguém.

 

Pensando nisso que você acabou de colocar, o titulo Meu Corpo É Político não traz em si uma ideia de embate? Ele não pode retirar o interesse de um público que não esteja consciente previamente de determinadas ideias?

Eu não tinha pensado muito nesse sentido, de qual espectador ele chama. Para mim o nome era muito uma assinatura. Coisas simples como ocupar lugares, pegar um ônibus, etc., podem não ser tão simples assim. Para qualquer lugar que você vá estará carregando esse corpo.

Eu vejo assim: todos os corpos são políticos. O corpo do Michel Temer é politico, o corpo da Fátima Bernardes é politico. Para quem está fora dessa discussão, que não está pensando nisso, eu não sei o quanto que (o título) aproxima ou distancia.

 

Na equipe do filme havia pessoas trans?

Até então eu não conhecia nenhuma pessoa trans do audiovisual. Quando a gente começou a fazer o filme não tinha (nenhuma pessoa trans na equipe), e isso diz sobre as contradições que a gente vive. Todo mundo da equipe é cisgênero, e a maioria da equipe é formada por homens, mesmo tendo eu como mulher na direção. Foi uma coisa que eu olhei, que percebi fazendo o filme, o quanto que eu não conhecia profissionais trans, e agora passei a conhecer.

Acho muito importante nas nossas equipes, em qualquer profissão, começar a pensar nisso, porque eles e elas existem, só que a gente não conhece. E contratar, porque é um dos grandes problemas. Fica difícil ter uma inclusão se pessoas não são contratadas, se as pessoas não estão estudando.

Quando a gente começou a fazer o filme a equipe já estava meio formada, e aí a gente se tocou disso. Eu aprendi muito ao longo desse processo. Eu não tinha contatos, não tinha amigos e amigas trans, então foi uma coisa muito de aprendizado. E fui sendo cobrada ao longo de todo o processo por todas essas coisas, e é um fato. É uma pena ter feito um filme desse e não ter nenhuma pessoa trans na equipe.

 

*O repórter viajou a convite da organização do festival