Dono de uma trajetória multifacetada no cinema, com experiências como diretor (No Meu Lugar) e crítico de cinema (editor das revistas eletrônicas Contracampo e Cinética), o carioca Eduardo Valente deixou recentemente o cargo de assessor internacional de Agência Nacional do Cinema (Ancine), no qual permaneceu entre 2011 e 2016, e foi anunciado como o novo curador do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que nesse ano está marcado para ocorrer entre os dias 20 e 27 de setembro.

As inscrições de filmes para o mais longevo entre os grandes eventos de cinema brasileiro vão até o dia 15 de julho, e a ideia de estabelecer a figura do curador chega em um momento em que as edições recentes do Festival de Brasília foram marcadas por mudanças visíveis de perfil da programação ano após ano.

“O meu maior desejo é que cineastas, críticos, pesquisadores, professores, curadores, seja do Brasil e até de fora (mas com interesse por cinema brasileiro), entendam que não podem não estar em Brasília no festival para ficar em dia com o que de mais relevante o cinema brasileiro traz hoje como propostas e questões urgentes”, planeja Valente.

Em entrevista por e-mail ao Cine Festivais, Eduardo Valente traçou a sua visão sobre o lugar que Brasília possui hoje no cenário dos festivais brasileiros e explicou a concepção de curadoria que pretende implantar no evento.

 

Cine Festivais: Em 2009 você fundou a Semana dos Realizadores, que me parece o início da resistência de uma nova geração de cineastas à concepção artística de eventos tradicionais. Falando de alguns exemplos, cito a Semana como resistência ao Festival do Rio, o Janela Internacional de Cinema do Recife como resistência ao Cine PE e o Fronteira como resistência ao Fica. Tudo isso veio na esteira da criação da Mostra Aurora em Tiradentes, da qual você também foi curador. Pensando no contexto desses últimos oito ou nove anos, qual foi o impacto que essa nova configuração de eventos (e da produção nacional) teve para os festivais mais tradicionais, tomando o caso de Brasília em particular?

Eduardo Valente: Claro que não posso falar em nome dos outros eventos, mas, no caso da Semana dos Realizadores, a carta de fundação que fizemos na época deixava claro que entendíamos que o cinema brasileiro tinha se multiplicado de uma maneira que os festivais mais tradicionais não pareciam estar dando conta. Havia uma quantidade muito maior não apenas de filmes como de propostas de cinema, e os festivais pareciam ter dificuldades de incorporá-las ao seu programa, ao menos com verdadeira atenção e destaque.

No caso específico do Festival do Rio, trata-se de um festival enorme, com mais de 300 filmes entre brasileiros e internacionais. Acreditávamos que certas propostas de cinema precisavam de espaços dedicados a elas, que olhassem com carinho e atenção para filmes realizados em condições muitas vezes frágeis (no sentido econômico), e que teriam poucas oportunidades de estar em destaque – embora fossem também os filmes que, no geral, se destacavam nos circuitos internacionais de cinema mais inovadores e arriscados.

Dar protagonismo a um cinema que nunca tinha tido, essa era nossa pauta – e creio que de alguma maneira, com diferenças, destes outros eventos também (somaria aí o Olhar de Cinema, em Curitiba; o Panorama Coisa de Cinema em Salvador; o Cine Esquema Novo em Porto Alegre e a Mostra do Filme Livre – todos com especificidades de recorte).

 

O curador do Festival de Brasília, Eduardo Valente

 

CF: O Festival de Brasília tem um sistema de rodízio que convoca a cada ano novas comissões de seleção para as escolhas dos curtas e dos longas das mostras competitivas. Para ficar apenas nos dois últimos eventos, esse sistema resultou em 2014 em uma seleção de filmes considerada radical em termos de linguagem cinematográfica, com muitas pessoas apontando para uma “tiradentização” da programação; já em 2015 o caminho trilhado foi bem diferente, e as críticas foram à baixa pretensão ou à má execução de alguns concorrentes. Neste ano, quais são as principais intenções e desafios seus nesse novo papel de curador, de alguém para o qual agora podem ser direcionados mais diretamente os comentários sobre a seleção? Qual foi o pensamento que você teve ao escolher os nomes que compõem as comissões que irão ajudar na escolha dos longas e dos curtas das mostras competitivas?     

EV: Quando aceitei esse convite, deixei claro que minha maior discordância com a metodologia anterior era o fato de que eu acho que curadoria e seleção de filmes é um trabalho específico, que acredito que requeira não só uma “vocação”, por assim dizer, como inclusive uma série de pré-requisitos de quem o exerce (como um certo conhecimento da história do cinema que aquele festival exibe – no caso de Brasília, o brasileiro; um acompanhamento muito próximo da produção contemporânea por alguns anos, um conhecimento sobre os nomes de diretores e produtores que estão ativos hoje na cena, seja em quais gerações ou regiões do País, etc.).

Brasília vinha montando comissões cujo problema, para mim, não era serem plurais, e sim serem de pessoas que trabalham em cinema nas mais distintas capacidades, mas a maioria dela sem experiência constante nesse trabalho da curadoria. Isso num dos principais festivais do País, creio que seria como contratar pessoas sem experiência para dirigir uma grande produção no cinema, ou sem vocação para dar aulas num importante curso universitário, etc.

Ademais, essa troca anual de todos impede que haja um compromisso das pessoas com o festival no sentido mais amplo – sua história, sua tradição, seu desejo de cinema como evento. Seleções não são apenas ver um monte de filmes e “escolher melhores” (até porque qualquer pessoa sã sabe que isso não existe, não é objetivo: não são “os filmes melhores”, são os que sejam os melhores para aquele festival naquele ano).

Por isso, minha maior proposta para o Festival de Brasília era antes de tudo essa: compor uma comissão plural sim, de pessoas de gerações e regiões diferentes (toda boa comissão deve ter olhares diferentes, para que eles iluminem uns aos outros), mas todos trabalhando de maneira constante com a ideia de curadoria, programação, no máximo crítica (que embora não seja curadoria, pede alguns dos mesmos requisitos, como atualização e conhecimento histórico). E ter um entendimento comum do que entendem que deveria ser o Festival de Brasília, como ideia.

 

CF: O aumento do número de longas de seis para nove foi a sua primeira medida como curador do Festival de Brasília. Qual foi o propósito da mudança? Com esse número, aumenta ou diminui a possibilidade de se fazer uma seleção mais coesa, com um conjunto de filmes que faça sentido como um todo, e não apenas individualmente?  

EV: Não diria que foi “minha primeira medida”, mas sim minha primeira proposta prática, que a coordenação do festival achou que fazia sentido. Não tenho autonomia no Festival de Brasília, por ele ser ligado a um ente público (a Secretaria de Cultura do DF), de tomar decisões sozinho, e acho isso ótimo desde que esteja (como estou) trabalhando com pessoas lá que sejam apaixonadas pelo festival e entendam o seu papel – e é o que eles são.

Então, eu trago propostas, discutimos, e, se eles concordam, seguimos adiante. Nesse caso, creio que esse aumento atende àquilo que disse no começo, e que eles já vinham sentindo: o cinema brasileiro aumentou muito sua produção, em números absolutos de filmes, mas também em propostas de cinema, em regiões de onde se originam os filmes, em quantidades de realizadores potentes, de gerações distintas.

Seis longas, como eles já vinham sentindo nos últimos anos (tanto que ano passado houve uma mostra paralela pela primeira vez, para poderem mostrar mais filmes), não dava conta de sequer traçar um panorama significativo frente à quantidade de inscritos que recebem. Era preciso um recorte muito redutor, que deixava de fora muitas propostas de cinema. Inclusive não custa lembrar que há apenas três anos Brasília exibia 12 longas em competição, divididos entre documentários e ficção (o que eu não acho a melhor solução para esse festival).

Ou seja, visto por aí, o festival ainda está menor do que era há poucos anos. E a verdade é que há filmes suficientes por aí hoje para que Brasília exiba nove, Gramado exiba de sete a dez, o Rio exiba quase 40 nas suas várias mostras, os festivais com perfil mais independente exibam vários outros. Alguns se repetem aqui e ali, normal, são os filmes inescapáveis de cada ano, mas tem muito filme inédito e precisando de espaço, e nem esses números todos dão conta disso.

No que tange à coesão da seleção, não diria que isso me preocupa. Não acho que uma seleção, pelo menos de um festival como eu vejo Brasília sendo (e que é bastante diferente, historicamente, de um como Tiradentes ou como a Semana dos Realizadores, eventos com recortes mais fechados), precise ser exatamente coesa – pelo menos se entendermos isso como filmes que repetem formatos ou modelos de produção ou temas.

O que não significa também que eu goste do discurso da “diversidade”, se ele significa um vale-tudo. Eu acho que um longa selecionado em Brasília deve ser capaz, antes de tudo, de propor questões que sejam pregnantes e urgentes – sejam essas questões do tipo estético, ético, político, etc.

Creio que, pela história, pela tradição dos debates e da relação com o público das sessões de Brasília, por tudo isso em suma, o que eu chamaria de coerência da seleção de Brasília deve ser a de exibir filmes que permitam que a sessão não termine quando sobem os créditos finais. Os filmes devem ficar e continuar, repercutir e fazer com que o cinema comece na sala de exibição, mas a ultrapasse.

Esse é o Festival de Brasília sobre o qual eu sempre li, o qual frequentei nos anos em que lá estive entre fins dos anos 90 e meados dos 2000, e o qual eu acho que deve se fortalecer. O meu maior desejo é que cineastas, críticos, pesquisadores, professores, curadores, seja do Brasil e até de fora (mas com interesse por cinema brasileiro) entendam que não podem não estar em Brasília no festival para ficar em dia com o que de mais relevante o cinema brasileiro hoje traz como propostas e questões urgentes.

Meu sonho é esse: um festival que as pessoas sintam que não podem perder, sob risco de perder o passo em entender como pulsa hoje o cinema brasileiro que quer pensar, ousar, cutucar, levar adiante. Esse é o cinema que deve estar em Brasília – mas isso pode ter vários formatos de produção, de linguagem, de produção, de origem, de geração. A coesão é a inquietação que deve mover quem faz, e quem assiste.

 

CF: Como mais antigo entre os festivais brasileiros, Brasília adquiriu uma aura de evento político que destacou cineastas de invenção ao longo de sua trajetória, como Rogério Sganzerla e Carlos Reichenbach. Você acha que esse perfil ainda faz sentido nos dias de hoje? A intenção da sua curadoria é retomar a importância do festival a partir desse viés?

EV: Eu acho que esse é um viés que não pode estar excluído nunca de um Festival de Brasília relevante, mas não creio ser o único. O Festival também foi o festival em que filmes como Guerra Conjugal, A Hora da Estrela ou Que Bom Te Ver Viva (todos muitos diferentes de Sganzerla ou Carlão) saíram consagrados, por motivos muitos diferentes na sua capacidade de propor um cinema brasileiro urgente nos seus distintos momentos. Ou que foi em Brasília, em 96, que Baile Perfumado e Um Céu de Estrelas anunciaram a chegada de uma nova geração de realizadores ao longa, pós-interrupção da produção. Ou ainda que um ano antes do O Bandido da Luz Vermelha ganhar o festival, Todas as Mulheres do Mundo, do Domingos Oliveira, ganhou o prêmio principal.

Domingos e Sganzerla são cineastas tão diferentes quanto se pode ser, mas ambos faziam naquele momento cinemas relevantes demais pra pautar e abrir avenidas para o cinema brasileiro que viria. Acho que é dessa diversidade (e não, de novo, uma forçada de um vale-tudo) que o festival deve e precisa se alimentar.

Para ficar no cinema dos anos mais recentes, não custa lembrar que Santo Forte, Lavoura Arcaica e Eu Me Lembro, por exemplo, ganharam o festival. Três marcos de cinema brasileiro recente, por mais diferentes que sejam. Invenção precisa ser uma das avenidas do festival, mas não creio que deva ser a única.

 

CF: Como assessor internacional da Ancine você acompanhou a trajetória de muitos filmes brasileiros ao longo dos últimos anos. Deixando de lado a questão da boa quantia de premiação, você acha que alguns cineastas deixaram de ter a estreia no Festival de Brasília como objetivo número um, já que o perfil do festival se alterava ano a ano? Quão importante é transparecer o novo conceito do festival nesse seu primeiro ano de curadoria, para que seja possível vislumbrar uma continuidade de olhar durante alguns anos, sem as interrupções costumeiras?

EV: Por enquanto, eu só posso falar do meu trabalho nesse ano, mas claro que torço que tenha a oportunidade de ajudar o Festival de Brasília o suficiente para que possa voltar a fazer esse trabalho. Isso porque é assim que trabalham os festivais internacionais mais relevantes, dando uma continuidade ao trabalho de um curador que esteja antenado com o que é melhor para o festival.

Não acho que precisem nem devam ser longuíssimas temporadas, mas que pelo menos haja o tempo de o curador e o festival, se estiverem funcionando, construírem um olhar. Vejo o trabalho do Cleber Eduardo em Tiradentes, nesse sentido, como um marco: já vai completar dez anos de um trabalho que se consolidou no tempo, que as pessoas (realizadores, críticos, etc.) foram entendendo aos poucos, e que ele mesmo foi depurando na medida em que podia testar coisas e ver se elas faziam mais ou menos sentido.

Eu acho sim que alguns realizadores, produtores e filmes importantes tinham tirado um pouco Brasília do seu radar por não terem mais um entendimento de que cinema se estava exibindo ali, de que a cada ano a proposta podia se alterar 180 graus. Eu não acho que isso foi bom para o festival, nem para os filmes e para o cinema brasileiro.

Houve filmes fortíssimos exibidos em todos os anos recentes, diga-se, mas creio que as seleções como um todo poderiam ter sido mais ricas do que foram, que o diálogo entre os filmes podia ter sido mais frutífero, e que, acima de tudo, muitos filmes que não foram a Brasília deveriam ter estado lá – pelo menos na forma como eu disse que entendo esse festival, que uma pessoa de fora sinta que pode ser um resumo das questões atuais do nosso cinema.

Acho que em muitos anos recentes ele viveu mais da exceção e do “filme a filme”, digamos assim, do que de ser um festival constante e coletivamente firme. Embora eu ache, de novo, que houve seleções de filmes fortíssimos por lá.

 

CF: Na Ancine você acompanhou o crescimento de uma nova geração de cineastas e a inserção dos filmes deles em festivais internacionais, tendo como último marco a exibição de Aquarius, do Kleber Mendonça Filho, na competição oficial de Cannes. Como você analisa o atual estágio da produção brasileira e de que modo o Festival de Brasília pretende ser um recorte crítico desse momento?

EV: A exibição do Aquarius em Cannes é um marco, de fato, por vários motivos. Representa a chegada de uma nova geração ao que é considerado o “degrau mais alto” (pelo menos em termos de visibilidade) no circuito internacional dos festivais. Mas uma chegada que veio antecedida de muitos passos rumo a esse lugar – passos do Kleber (Mendonça Filho) como cineasta, mas de outros cineastas de sua geração, de seu Estado, etc.

Nesse sentido, como eu sempre disse enquanto estive na Ancine, tudo é processo, e não dá, salvo fenômenos, cortar caminho. Hoje, pela minha conversa com os curadores dos festivais mais importantes no mundo, existe uma miríade de cineastas que eles estão sempre atentos, esperando os próximos filmes. E, de novo, gente de muitas gerações diferentes, de muitas regiões diferentes.

Vim agora mesmo da experiência de estar num júri do Olhar de Cinema, em Curitiba, junto com o Dennis Lim, chefe de programação do Lincoln Center, em Nova York, e o Dennis está atento a esse cinema brasileiro, e o fato de ele vir para o Brasil num júri indica isso.

O que eu espero é que Brasília possa entrar, bem em breve, nessa rota de eventos internacionais que sejam entendidos como “imperdíveis”. E que os sete dias do evento sejam vivos, vibrantes, questionadores, apaixonados por cinema.