Exibido pela primeira vez na prestigiosa Quinzena dos Realizadores, evento paralelo do Festival de Cannes, o curta-metragem Quintal, do mineiro André Novais Oliveira, vem trilhando uma carreira de destaque também por festivais brasileiros. Depois de ser premiado no Cine Ceará com os troféus de melhor roteiro pelo júri oficial e de melhor filme pelo júri da crítica, o trabalho está na programação da Mostra Brasil do 26º Festival Internacional de Curtas de São Paulo, e também será exibido em setembro na competição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Assim como em Ela Volta na Quinta, longa-metragem ainda inédito no circuito comercial, André utilizou os seus pais, Norberto e Maria José, como atores principais de Quintal. “Tanto meus pais quanto meu irmão já atuaram em outros filmes de outros diretores depois desses trabalhos. Eles se sentem bem e têm muita vontade de fazer outros filmes”, conta o diretor.

A novidade no curta-metragem ficou por conta do uso de elementos do realismo fantástico que interrompem o que seria apenas a pacata rotina de um casal de idosos em Contagem (MG), gerando um diálogo até mesmo com a comédia nonsense.

Com um novo projeto de longa em gestação, e tendo que lidar com problemas relacionados a direitos autorais para lançar Ela Volta na Quinta no circuito, André concedeu entrevista por e-mail ao Cine Festivais.

 

Cine Festivais: Você falou em outras entrevistas que a sua atração pelo realismo fantástico foi um dos fatores que resultaram na realização de Quintal. Quais obras, seja da literatura ou do cinema, causaram esse seu gosto pelo realismo fantástico?

André Novais Oliveira: Há muito tempo atrás, quando estava estudando para o vestibular eu tive que ler alguns livros para a prova, e um deles foi o A casa do girassol vermelho, de um escritor mineiro chamado Murilo Rubião. Gostei muito do livro e corri atrás de seus outros contos. Além disso, quando eu era adolescente, gostava muito de filmes e séries que tinham algo de realismo fantástico e ficção científica. Lembro que eu assistia muito séries como The Twilight Zone (Além da Imaginação, a mais a antiga, dos anos 50 e 60), Night Visions e Amazing Stories.

 

CF: Em relação aos seus trabalhos anteriores, além do muito apontado “realismo”, você acha que há algo de “fantástico” neles, no sentido de um diálogo com o absurdo?

ANO: Não consigo ver algo de realismo fantástico nos outros filmes. Acho que tem essa coisa da metalinguagem que aparece de forma não muito usual no Fantasmas e no Pouco Mais de um Mês, e acho que essa metalinguagem quebra um pouco com o realismo desses filmes.

 

CF: Você declarou que quis montar uma equipe pequena no set de Ela Volta na Quinta para criar um ambiente mais familiar e íntimo para a atuação de seus pais. Isso se repetiu em Quintal? Quanto tempo levou para realizar as filmagens?

ANO: No Quintal a equipe foi um pouco maior, mas mesmo assim foi pequena. A base foi de 10 pessoas. Teve assistente de direção, por exemplo, e no Ela Volta na Quinta não teve. Foi menos puxado pois não teve muito acumulo de funções. Mas houve sim uma preocupação de não ter tantas pessoas no set para deixar meus pais mais a vontade. Foram 5 dias de filmagens.

 

CF: Pensando um pouco nesse modus operandi, você acha que seus pais gostariam de/se dariam bem atuando em filmes de outros diretores, ou o trabalho deles está intimamente ligado ao seu na direção? Você acredita que vai voltar a trabalhar com eles como atores em filmes futuros?

ANO: Tanto meus pais quanto meu irmão já atuaram em outros filmes de outros diretores depois do Ela Volta na Quinta e do Quintal. Eles se sentem bem e tem muita vontade de fazer outros filmes. No caso do Ela Volta na Quinta e do Quintal as atuações são um pouco semelhantes com a personalidade deles. E acho que na prática, se surgirem mais convites, eles podem se deparar com diferentes propostas de atuações e personagens diferentes, e isso é um desafio legal.

Torço por eles e me divirto muito com tudo isso. Eles são adultos e sabem o que querem e o que estão fazendo. Do jeito deles eles adquiriram uma ideia do funcionamento do set e das cenas. E fico feliz também por que acho que eles atuam muito bem.

 

CF: Como está a previsão de lançamento de Ela Volta na Quinta no circuito comercial? Houve algum empecilho na negociação pelos direitos da música “Olha”, do Roberto Carlos, que faz parte de um dos momentos mais bonitos do filme?

ANO: Tivemos problemas sim com a música do Roberto Carlos. Infelizmente, depois de muita luta, os direitos não foram liberados. A cena será refilmada com outra música que estamos fechando a negociação. Não temos uma data certa do lançamento do filme em circuito comercial, mas a previsão é que seja nesse ano. A distribuição será da Vitrine Filmes.

 

CF: Qual é o seu próximo projeto na direção e como você imagina que ele vai se aproximar/se afastar em termos estéticos/temáticos do que você já realizou até aqui?

ANO: O próximo projeto que irei dirigir é um longa. Fomos contemplados em um edital de Minas Gerais. O filme está em processo de tratamento de roteiro e vai demorar um pouco para filmarmos. Acho que ele não vai parecer muito com os outros filmes que eu dirigi, mas creio que algumas coisas vão se manter sim. Talvez meio sem querer mesmo.

 

Veja também:

 >>> André Novais fala sobre a sua trajetória no cinema

>>> Cobertura do 26º Festival Internacional de Curtas de São Paulo