Quando era segundanista em Midialogia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Camila Kater fez um curso de animação fora da faculdade oferecido pelo Cine Tela Brasil. “Foi ali que eu descobri que queria fazer aquilo”, ela recorda. Quando as aulas recomeçaram, ela começou a desenvolver o roteiro do curta-metragem Flerte (coescrito por Rodrigo Faustini e dirigido por Samuel Mariani), e não mais deixou a área.

Com Carne, curta que participou da seção Pardi di Domani do Festival de Locarno no último mês de agosto e que nesta sexta (6) estreia no Festival de Toronto, Camila faz a sua primeira incursão na direção. O filme, que recebeu menção honrosa do Júri Jovem em Locarno, é um documentário animado sobre as transformações do corpo feminino. O título faz alusão à objetificação vivenciada pelas mulheres ao longo da vida, e entre os cinco depoimentos presentes na obra há relatos da atriz e cineasta Helena Ignez e da cantora Raquel Virgínia (da banda As Bahias e a Cozinha Mineira).

“A ideia do filme veio da experiência que tive desde criança com meu corpo. Desde muito cedo eu me preocupava com a minha aparência e com a maneira que o meu corpo aparecia para outras pessoas. Com seis anos prestava atenção na maneira que eu ia me sentar, em como minha coxa ia se esparramar na cadeira, coisas com as quais eu acho que nenhuma criança deveria se preocupar, né?”, conta Camila, que conversou com o Cine Festivais sobre o processo de realização de Carne.

 

Camila (a terceira da direita para a esquerda) recebe menção honrosa do Júri Jovem em Locarno

 

Cine Festivais: Carne me pareceu um filme que parte de um conceito muito bem definido. Isso estava presente desde o início do projeto.

Camila Kater: Sim, desde que começamos a escrever o projeto para o edital da Spcine tínhamos esse conceito fechado. A gente queria uma animação que tratasse do corpo feminino e da relação das mulheres com o corpo nos dias de hoje. A partir das conversas que tive com minha irmã (Bruna Kater, coautora do argumento) a gente pensou na analogia entre as fases da vida da mulher e os pontos de cozimento da carne. Pensamos que assim conseguiríamos tratar um pouquinho de cada fase da vida, ouvindo mulheres que fossem diferentes entre si.

 

A primeira fala que ouvimos no filme é “toda mulher não vive o corpo que ela tem”. Queria que você dissesse o quanto ela é representativa para a ideia do filme como um todo.

A ideia do filme veio da experiência que tive desde criança com meu corpo. Desde muito cedo eu me preocupava com a minha aparência e com a maneira que o meu corpo aparecia para outras pessoas. Com seis anos prestava atenção na maneira que eu ia me sentar, em como minha coxa ia se esparramar na cadeira, coisas com as quais eu acho que nenhuma criança deveria se preocupar, né?

Com a adolescência essa preocupação se manteve. Foi uma fase em que vi o meu corpo mudando, e essas mudanças vinham também nos olhares, principalmente masculinos. Então comecei a esconder o meu corpo, usava roupas mais largas… E acho que essa preocupação com o corpo me acompanha até hoje, embora seja menor.

Conversando com outras mulheres eu vejo que isso é muito forte, de diferentes maneiras. Por exemplo: ser gorda muda muito a relação com o corpo, com os espaços, com as outras pessoas. Eu concordo com a fala da personagem, acho difícil ser mulher e viver sem pensar no corpo, sabe? Viver o próprio corpo sem questionamento, plenamente.

 

Trazendo esse rol de personagens mulheres de diferentes gerações o filme faz com que essas experiências dialoguem. Esse era um desejo consciente de você? Como isso passa pela sua vivência?

Minha irmã, que escreveu o argumento comigo, é seis anos mais nova. Não chega a ser uma geração tão diferente, mas ela já trouxe outras questões para nossas conversas. Eu também converso com minha mãe e com a minha tia sobre menopausa, por exemplo.

Conversar com as mulheres que participam do filme foi um grande presente, pude compreender melhor muitos assuntos que antes só conhecia superficialmente. Espero que o filme gere esse espaço de diálogo entre mulheres de diferentes gerações.

 

No momento das entrevistas, vocês gravaram apenas o som? Havia um roteiro de perguntas muito estabelecido? 

Um primeiro desejo era o de deixar as entrevistadas muito à vontade. Pensando nisso a gente reduziu bastante a equipe de gravação, que foi composta apenas por mulheres. Não houve nenhum registro de imagem, até pela questão do conceito: a ideia era de que a animação trouxesse um conforto para essas mulheres; o corpo delas não estaria ali na imagem.

Cada entrevista durou cerca de uma hora. Eu participei de todas elas, e em algumas a Lívia (Perez, produtora) também esteve presente, até por ela ter uma experiência maior com documentários – eu conheci a Lívia depois de assistir Quem Matou Eloá?, que é um filme que ela dirigiu sobre a questão do feminicídio. E a abordagem com as entrevistadas sempre foi mais no sentido de uma conversa. Havia uma lista de perguntas e algumas questões específicas para cada uma, mas muita coisa elas falavam sem que a gente precisasse perguntar.

 

 

Queria que você falasse sobre como pensou a concepção de cada segmento do filme com relação às técnicas de animação, que são bem heterogêneas.

Escrevi o roteiro junto com a Ana Júlia Carvalheiro, e no meu caso funcionou melhor desenhar essas histórias antes de escrever; as técnicas foram surgindo daí.

O primeiro segmento, “Crua”, fala sobre gordofobia. A mãe da personagem é nutricionista, então essa relação com comida era muito presente no relato dela. Por isso pensei em fazer as animações a partir de um prato, e as técnicas foram criadas a partir disso.

O segundo segmento, “Mal Passada”, fala da adolescência. Foi uma fase que deixou de fazer parte do projeto durante um período; nós chegamos a pensar no filme com apenas três personagens, mas depois retomamos essa ideia. A Larissa é amiga da minha irmã e conta a história da primeira menstruação dela. A técnica veio do próprio sangue. Queria algo fluido, e a Giovana Afonso, animadora que fez o segmento, trabalha muito com aquarela e com ilustração infantojuvenil, então funcionou muito bem.

A fase “Ao Ponto” foi a mais difícil de pensar na técnica. A animação não tinha tanto da história da Raquel (Virgínia, cantora da banda As Bahias e a Cozinha Mineira). Talvez o digital se relacione com o fato de ela ser uma artista moderna. Lembro que no começo queria retratar algo sobre assédio antes e depois da transição dela, mas durante a conversa a Raquel trouxe várias outras experiências e não foi preciso fazer essa comparação. Ela fez a história dela.

Na fase seguinte, “Passada”, que fala do climatério, a gente queria desde o começo que fosse uma mulher lésbica, e tínhamos pensado em ter um foco na sexualidade, mas depois do depoimento isso ficou um pouco de lado. A Valquíria falou muito mais da transformação do corpo dela nessa fase e trouxe a questão de como os médicos a tratam. A técnica veio muito dessas transformações do corpo, a argila veio nesse sentido.

E a última fase, “Bem Passada”, que tem a Helena Ignez como personagem, a técnica esteve bem ligada à história dela no cinema. Tem o uso da película, a ideia de uma animação mais rústica, que também traz essa cor vermelha, da carne. Tudo relacionado com a fala dela.

 

Dentro do formato do documentário animado, quem mais te influenciou durante a realização de Carne? 

Fui muito influenciada pelo trabalho da Jennifer Serra, pesquisadora que atualmente está fazendo pós-doutorado na USP e tem uma pesquisa bem grande sobre documentário animado. Em termos de filmes, as referências mais fortes foram animadoras autorais como Nádia Mangolini (Torre), Nara Normande (Guaxuma), Elizabeth Hobbs (The Old, Old, Very Old Man), Michèle Cournoyer (The Hat).

 

Carne foi selecionado por dois festivais com grande repercussão midiática/crítica, Locarno e Toronto. O que isso pode proporcionar para a continuidade da sua carreira?

Acho que as seleções podem abrir várias portas. Tenho o desejo de crescer o projeto do Carne e pensá-lo em outro formato, talvez uma websérie, talvez um longa. Minha ideia é que as personagens sejam cada uma de um lugar do mundo, e que as animadoras também sejam de diferentes países, representando essas personagens. Ainda não pensei muito bem em quais temas abordar, mas a divisão seria parecida com a do curta, pensando nas fases da vida de uma mulher. Gostaria de dar mais tempo para as personagens falarem, acho que funcionaria bem. Mas por enquanto tudo é apenas uma ideia.

 

 

Assista ao curta-metragem Flerte, com roteiro de Camila Kater.