A ideia de valorizar o aspecto multidisciplinar dos espaços e favorecer a circulação de pessoas está muito presente no projeto arquitetônico do Centro Cultural São Paulo (CCSP). Por essa particularidade, os organizadores da mostra Arquitetura como Autobiografia: Filmes de Heinz Emigholz, que acontece no CCSP de 30 de julho a 13 de agosto, sempre pensaram no local como o palco ideal para exibição dos trabalhos desse cineasta alemão.

Com grande parte de seus filmes focados no retrato de construções realizadas durante o século XX, Emigholz já participou de grandes festivais, como o de Berlim, mas nunca havia tido seus filmes exibidos no Brasil. A mostra no CCSP vem para mudar este cenário, e irá exibir 24 títulos do cineasta alemão, entre longas e curtas-metragens (conheça a programação).

“Seria ótimo para um frequentador da mostra passear pelo Centro Cultural entre as sessões e se sentir estimulado a refletir sobre os usos possíveis de espaço público que estão sendo revelados tanto dentro da sala de cinema quanto fora dela”, dizem Aaron Cutler e Mariana Shellard, curadores do evento.

Cutler e Shellard falaram por e-mail ao Cine Festivais sobre as particularidades do cinema de Heinz Emigholz e sobre o que o público poderá encontrar na mostra do Centro Cultural São Paulo, que também chegará ao Rio de Janeiro de 8 a 16 de agosto, no Instituto Moreira Salles.

 

Cine Festivais: Quais são as principais atrações da mostra no CCSP?

Aaron Cutler e Mariana Shellard: Vamos destacar quatro:

- A programação de filmes: 24 tesouros inéditos no Brasil, todos trazidos da Alemanha e da Áustria em seus formatos originais de projeção.

- A presença do próprio Emigholz para dois eventos abertos ao público. No sábado, dia 1º de agosto, às 19h30 (logo após a primeira sessão do maravilhoso filme O Bando Sagrado), ele vai conversar com Aaron Cutler sobre a carreira dele. Na quinta, dia 6 de agosto, também às 19h30 (logo após a segunda exibição de O Bando Sagrado), ocorrerá um debate entre Emigholz, o crítico de cinema Filipe Furtado, e o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU – USP) e urbanista Renato Cymbalista, com moderação do Aaron.

- O catálogo da mostra de quase cinquenta páginas que contém um ensaio crítico e sinopses dos filmes da mostra escritos por nós, uma filmografia geral do Emigholz, uma entrevista com ele, e textos e desenhos dele. Este livrinho pode ser retirado gratuitamente com a apresentação de um ingresso para qualquer sessão da mostra.

- O espaço do próprio CCSP, que dialoga muito com os filmes de Emigholz na sua construção arquitetônica, nas suas características heterogêneas e nas suas maneiras distintas de incorporar um grande fluxo da vida ao seu redor. Seria ótimo para um frequentador da mostra passear pelo Centro Cultural entre as sessões e se sentir estimulado a refletir sobre os usos possíveis de espaço público que estão sendo revelados tanto dentro da sala de cinema quanto fora dela. Nós dois e a produtora da mostra Mila Zacharias (da Anamauê) estamos planejando o evento há mais de dois anos, e sempre queríamos que ele acontecesse lá.

 

CF: Qual é a importância dada pelos grandes festivais de cinema do mundo para o cinema de Heinz Emigholz? É possível dizer que ele ainda é pouco valorizado mesmo nesse nicho?

AC e MS: Quase desde o começo da carreira do Emigholz, o seu “festival-base” tem sido o de Berlim, em particular na seção Forum. A maioria dos filmes que serão exibidos na mostra do CCSP recebeu suas estreias mundiais lá, inclusive o longa experimental O Prado das Coisas, que ganhou um prêmio importante na edição da Berlinale em 1988 e está recebendo sua estreia internacional agora na nossa mostra com uma nova restauração, e seu longa mais recente, A Pista de Pouso, que viajou para festivais ao redor do mundo depois de suas sessões lotadas em Berlim.

Não queremos entrar em uma polêmica sobre a valorização internacional de Emigholz. Basta dizer que ele é um cineasta bem importante no cinema mundial há muito tempo. Fora de Berlim, os filmes dele já passaram em festivais importantes em grandes cidades como Buenos Aires, Jerusalém, Locarno, Nova York, Roterdã, Toronto e Viena, mas nunca passaram em lugar nenhum no Brasil. Até agora.

 

CF: Falem sobre a trajetória de Heinz Emigholz como cineasta. Como foi o início como diretor de ficções e que elementos dessa época ele trouxe para o seu cinema de documentário?

AC e MS: Em nosso ensaio introdutório no catálogo da mostra escrevemos o seguinte: “A trajetória dos filmes de Emigholz até o presente consiste em um movimento que iniciou com a ação e se deslocou gradualmente para a observação. Em suas primeiras experiências cinematográficas a ação existiu na manipulação mecânica do tempo. Em seguida, nos filmes de ficção, o tempo se metamorfoseou em histórias diversas, que abriram caminho para a observação direta de locais que poderiam por si só contar histórias sobre sociedades e sobre a vida do próprio artista.”

 

CF: É possível apontar outros cineastas como referências estéticas/temáticas para o cinema de Heinz Emigholz? Quais são os principais traços de autoria no trabalho de Emigholz? 

AC e MS: É possível consultar uma lista recente com os filmes preferidos de Emigholz. Dois outros cineastas cujos trabalhos são importantes para ele são Kurt Kren e Dziga Vertov (em particular Um Homem com uma Câmera). Ele também era ou ainda é amigo de diversos diretores bacanas, como Thom Andersen, Cynthia Beatt, Ken Jacobs, Derek Jarman e Klaus Wyborny, e apesar de Emigholz não ter falado muito em entrevistas sobre as relações entres os filmes dele e os dos seus amigos, vemos muitas semelhanças.

O Emigholz não é estritamente um documentarista. Ele faz documentários, filmes de ficção, filmes experimentais, instalações em vídeo, e videoclipes, e também já publicou diversos livros de escrita, desenho, e fotografia.

A grande maioria das obras dele que conhecemos conta histórias bem estruturadas. O cinema dele em particular sempre traça a vida de uma pessoa. Às vezes esta vida é a vida do próprio artista, e às vezes é a vida de uma figura que já morreu. Mas você sempre se sente que a vida cuja história está sendo contada nos filmes poderia ser a vida de qualquer um.

 

CF: Os filmes de Heinz Emigholz não costumam recorrer às entrevistas como fonte de informação. Qual é o lugar do ser humano nesses trabalhos? De que forma a arquitetura diz muito sobre as pessoas e sobre a passagem do tempo nos filmes de Emigholz? 

AC e MS: A humanidade está sempre presente nos filmes de Emigholz. Para achá-la, você só tem que olhar e escutar.

 

Serviço

Mostra Arquitetura como Autobiografia: Filmes de Heinz Emigholz

Data: De 30 de julho a 13 de agosto de 2015

Local: Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso – São Paulo – SP)

Ingressos: R$ 1 (taxa de manutenção, sem direito a meia-entrada)

Site:http://www.centrocultural.sp.gov.br/programacao_cinema_arquitetura_como_autobiografia.html

Telefone: (11) 3397-4002