Em sua prolífica carreira, na qual atuou em mais de cem filmes, além de inúmeras peças de teatro e aparições na televisão, Grande Otelo (1915-1993) firmou a imagem de artista popular nas chanchadas da produtora Atlântida, mas também mostrou versatilidade ao atuar em trabalhos importantes de diretores tidos como autorais.

A mostra O Maior Ator do Brasil – 100 Anos de Grande Otelo – tem como um de seus objetivos apresentar essas diferentes facetas do artista mineiro. Com curadoria de Breno Lira Gomes e João Monteiro, o evento acontece em São Paulo de 8 a 21 de outubro, no Caixa Belas Artes, e depois segue para o Rio de Janeiro (de 17 a 29 de novembro, na Caixa Cultural RJ).

“O grande ator mescla, não fica preso a um só gênero, e o Grande Otelo fez isso quando trabalhou com Nelson Pereira dos Santos e Joaquim Pedro de Andrade, por exemplo. Eram diretores que acreditavam no trabalho dele, que sabiam que o seu talento não se resumia às parcerias com Oscarito, Ankito, Dercy Gonçalves ou Zé Trindade”, opina o curador Breno Lira Gomes.

Muitos filmes que contaram com a participação de Grande Otelo já não existem mais hoje em dia graças a um trabalho ineficaz de preservação. Além disso, alguns longas-metragens importantes, como a maior parte das comédias da Atlântida e Fitzcarraldo, de Werner Herzog, não puderam ser exibidos na mostra por motivos diversos. Apesar desses empecilhos, o evento do Caixa Belas Artes vai exibir 23 filmes com o ator.

Em encontro em São Paulo, os curadores da mostra e o filho de Grande Otelo, Mário Prata, falaram ao Cine Festivais sobre a trajetória e o legado do artista.

 

Cine Festivais: Como surgiu o projeto para esta mostra em homenagem a Grande Otelo?

João Monteiro: A ideia surgiu quando eu estava fazendo minha monografia na faculdade. Depois passei a pesquisar sobre o Grande Otelo e vi que o centenário de nascimento dele seria neste ano, e não havia nenhuma homenagem do tipo programada. A partir daí me reuni com o Breno (Lira Gomes), com quem já havia feito outros projetos, e passamos a desenvolver o que viria a ser esta mostra.

 

CF: A má preservação e a perda de muitos filmes foi um empecilho para a curadoria?

Breno Lira Gomes: Na nossa lista inicial de filmes havia muita coisa do início da carreira do Grande Otelo que foi perdida, como Moleque Tião, primeiro longa-metragem que ele protagonizou. Dos filmes da (produtora) Atlântida, nós vamos exibir somente o Matar ou Correr, porque havia uma pendência com o Ministério da Cultura na época que pedimos autorização para exibi-los.

Por isso não vamos poder passar alguns filmes que o público que conhece Grande Otelo talvez esperasse, mas por outro lado fomos descobrindo muito material de qualidade, como O Barão Otelo no Barato dos Bilhões, um filme produzido pelo Luiz Carlos Barreto.

Acho que a gente conseguiu fazer um panorama bem interessante da carreira do Grande Otelo, pegando desde as pequenas participações, os filmes que ele protagonizou, até os trabalhos realizados nos anos 80, já no finalzinho da carreira.

 

CF: Você vê algum tipo de semelhança entre o tipo de cinema feito por Grande Otelo na época das chanchadas e as comédias brasileiras que fazem sucesso hoje em dia, que já foram batizadas de globochanchadas?

BG: Na época do Grande Otelo os espetáculos de teatro de revista, dos quais ele fazia parte, eram muitos populares no Brasil inteiro. Acho que o que muda entre as chanchadas e as neochanchadas – ou globochanchadas – é a troca dessa influência do teatro de revista pela televisão. Hoje a TV é para o ator a janela mais popular, a novela é o que dá mais visibilidade, e a partir daí você consegue atrair o público para algo às vezes um pouco diferente do que se faz na TV.

 

CF: Houve uma reavaliação crítica sobre as chanchadas em relação à recepção que esses filmes tiveram na época de lançamento?

BG: As chanchadas tiveram o auge nos anos 40 e 50, e, como costuma ocorrer nesse país com tudo que é muito popular, parte da intelectualidade e da crítica torceu o nariz para elas. As próprias neochanchadas sofrem disso. Às vezes penso se daqui alguns anos tudo isso que todo mundo detona vai estar sendo valorizado, pois o cinema tem muito disso.

Hoje a chanchada é referência, mas passou por um grande processo de achincalhamento na época. Algumas pessoas do Cinema Novo criticavam muito as chanchadas, e queimaram a língua, porque Grande Otelo fez Rio, Zona Norte, de Nelson Pereira dos Santos, que é um de seus melhores trabalhos como ator; fez Macunaíma, do Joaquim Pedro de Andrade, que ficou muito marcado, apesar de o Paulo José ser o protagonista.

Virou cult você assistir a filmes de chanchada, e passamos a entender como elas influenciaram o que veio a seguir. Na televisão, por exemplo, quem melhor soube levar a chanchada foi o Silvio de Abreu, que no meu modo de ver assinou uma trilogia do gênero com Cambalacho, Sassaricando e Guerra dos Sexos.

Nos dias de hoje surgiu uma nova intelectualidade que começa a ver a chanchada com um olhar diferente. Acredito que um crítico dos tempos atuais que está na casa dos 20, 30 anos, sabe muito mais a importância da chanchada do que um critico com a mesma idade que trabalhava à época em que esses filmes estavam sendo lançados.

 

CF: O trabalho com nomes como Joaquim Pedro de Andrade e Nelson Pereira dos Santos fez com que Grande Otelo tivesse que dar um novo tom às suas atuações?

BG: Grande Otelo falava que era ator acima de tudo. A mostra se chama “O Maior Ator do Brasil”, e quem disse isso foi o Orson Welles. Quando descobrimos essa frase, chegamos à conclusão de que esse título resume tudo.

O grande ator mescla, não fica preso a um só gênero, e o Grande Otelo fez isso quando trabalhou com Nelson Pereira dos Santos e Joaquim Pedro de Andrade, por exemplo. Eram diretores que acreditavam no trabalho dele, que sabiam que o seu talento não se resumia às parcerias com Oscarito, Ankito, Dercy Gonçalves ou Zé Trindade.

 

Mário Prata: Dentro dessa coisa de mesclar vários gêneros eu pude acompanhar o interesse do meu pai por fazer o papel de Sancho Pança em um espetáculo ocorrido no Teatro Adolpho Bloch, no Rio de Janeiro. Ele ligou para várias pessoas, queria porque queria pegar este personagem, e acabou conseguindo.

Havia muita desconfiança, a crítica falou que nunca havia tido um Sancho Pança negro em uma peça, mas acabou sendo um sucesso; ele reverteu as expectativas negativas. Aí você pode ver como (Grande Otelo) era realmente um cara de vanguarda.

 

CF: Depois de alguns anos do falecimento de Grande Otelo, como você enxerga a representatividade do negro no cinema brasileiro hoje?

MP: Meu pai sofreu muito para chegar onde chegou. Na época dele, por melhor que os atores negros fossem, eles encontravam pessoas muito reticentes em lhes dar oportunidades. Meu pai foi o primeiro apresentador negro de programas de TV. Hoje você vê bons atores negros sendo reconhecidos, mas isso só foi possível a partir do respeito que o velho Otelo impôs dentro do meio artístico. Esses caras são filhos do meu pai.

 

CF: Mas o protagonismo dos atores negros não é muito pequeno ainda?

MP: É muito pouco porque, por melhores que sejam, eles não são tão ousados quanto era Grande Otelo. Essa história de ele querer fazer o Sancho Pança mostra como o velho era abusado. Hoje em dia, embora os negros tenham avançado bastante e amadurecido na profissão, eu acho que eles precisam ser mais ousados, assim como meu pai. Não existe o que o afro não possa fazer hoje em dia; ele precisa ousar para conseguir o que quer.

 

CF: Como você lida com a ideia de preservar o legado de Grande Otelo?

MP: Todo o acervo do meu pai foi recuperado e, assim que houver um espaço definido para a fundação que estamos criando, ele será transferido. Acho que Grande Otelo merece essa fundação, por tudo que fez. A burocracia é grande, mas a fundação está em processo de abertura.

Essa instituição que estamos criando no Rio de Janeiro vai ficar para as novas gerações. Todo mundo que quiser saber quem foi Grande Otelo vai poder obter a resposta ali. Claro que gostaria que tivesse mais homenagens a ele, acho até que vão existir, mas eu me dou por satisfeito com a criação da fundação.

 

Serviço

Mostra O Maior Ator do Brasil – 100 Anos de Grande Otelo

Data: De 8 a 21 de outubro de 2015

Local: Caixa Belas Artes (Rua da Consolação, 2423 – Consolação – São Paulo – SP)

Telefone: (11) 2894-5781

Ingressos: R$ 14 (inteira) e R$ 7 (meia-entrada prevista em lei e vantagens para clientes CAIXA)

Site: https://www.facebook.com/omaioratordobrasil/timeline