Através de dois projetos, o curta-metragem Fantasia de Índio, já finalizado, e a série de documentários Vizinhos Ancestrais, que está sendo desenvolvida, a cineasta Manuela Andrade vem voltando o seu olhar para as etnias indígenas do estado de Pernambuco. O curta teve estreia no Janela Internacional de Cinema do Recife e agora participa da mostra competitiva Foco na 21ª Mostra de Tiradentes, com exibição na próxima quarta (24). No filme, Manuela parte de uma inquietação pessoal para fazer uma reflexão mais ampla sobre a invisibilização que o imaginário urbano impõe a respeito das populações indígenas.

Hoje são apenas 12 os grupos indígenas que vivem em PE, todos eles no interior. Uma dessas etnias, a dos Xukurus, teria parentesco com a cineasta, que ouviu algumas vezes sobre essa possibilidade, mas só recentemente tentou comprová-la em termos documentais. Essa busca serviu como uma das linhas narrativas do filme, mas se mostrou inócua no decorrer do processo.

“Ao conhecer mais a fundo a história do povo Xukuru, me encantei e senti uma energia muito potente em tudo que vivi. Então passei a considerar os papéis, os documentos, irrelevantes diante da magia das relações humanas que me atravessaram lá”, conta a diretora.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Cine Festivais, a diretora Manuela Andrade falou sobre suas motivações para a realização do curta-metragem Fantasia de Índio e refletiu sobre algumas das questões suscitadas pelo projeto.

 

Adriano Garrett: Como foi a sua relação com a suposta ascendência indígena ao longo da vida, e em que momento veio a ideia para o curta-metragem Fantasia de Índio?

Manuela Andrade: Nos encontros da minha família por parte de mãe essa ascendência sempre vinha à tona nas conversas com meu tio. Essa memória vem do meu avô, mas antes da pesquisa do filme nunca tinha conversado sobre isso com o próprio, pois ele sempre manteve uma relação mais afastada com a família, depois da separação da minha avó. Dentro da família era algo que ficava restrito aos dois, os demais nunca tinham se aprofundado nessa questão.

Com o passar dos anos, com a maturidade, fui começando a despertar um interesse maior em entender mais sobre essa árvore genealógica e acreditava que essa busca merecia ser registrada. Sentia que muito além de se tratar de uma história familiar, era um ensaio sobre essa lacuna invisível que parece nos separar dos povos originários desse país, era algo muito maior.

Antes de fazer o argumento, em alguns encontros com meu tio, ele me contava que quando conversava com o meu avô esse assunto sempre surgia. Tanto da parte dele, como de alguns pacientes seus. O fato de o meu avô ser médico e lidar com muitas pessoas diariamente também possibilitava essas trocas de lembranças.

Meu tio decidiu começar uma busca também já mais velho: em um aniversário seu, foi à Pesqueira e chegou a conhecer Xicão Xukuru, o cacique que foi assassinado na luta pelas demarcações. Nas duas vezes em que foi, tentou procurar por parentes a partir dos nomes do meu bisavô e da minha tataravó, mas como a população lá é grande (mais de oito mil pessoas), ele não conseguiu uma confirmação.

O meu avô me contou que o meu bisavô veio morar em Recife e teria trazido ele ainda criança, muito novo, para cá. Eles teriam vindo junto com a minha tataravó. Ele também me contou de um chá de casca de abacaxi que o pai costumava fazer. O fato de o meu bisavô ter morrido muito jovem também contribui para essa escassez de informações. Tudo que nós tínhamos, eu e meu tio, eram essas memórias do meu avô e os nomes e sobrenomes dos nossos familiares.

Acredito que esse ensaio, esse ponto de vista, era um caminho único para tentar tecer um pensamento sobre a memória do País quando se trata de apagamento. Esse ponto de vista urbano e meu contexto familiar traziam possibilidades de diálogo muito ricas. Pude descobrir junto com os Xukurus o filme que achava que deveria ser feito, e aprendi muito com eles em todo o processo e com todo o restante da equipe, que teve bastante sensibilidade para chegar no resultado que alcançamos. As obras documentais de Patrício Guzmán, Werner Herzog e Agnès Varda também foram grandes inspirações.

 

O que lhe atraiu nas imagens das crianças fantasiadas de indígenas que abrem o filme? O fato de esta ser a imagem que as pessoas não-indígenas possuem sobre os índios é fruto de uma visão fetichizada propagada pela mídia? Em que medida trabalhos audiovisuais como Fantasia de Índio e a série documental Vizinhos Ancestrais, que você tem desenvolvido, pretendem servir como contraponto nesta disputa de imaginário?

A minha referência na infância dos indígenas era de algo que pertencia ao passado, ao período da colonização. Na minha percepção de criança, os indígenas pareciam restritos aos livros de história do Brasil e ao Dia do Índio. Em minha escola, o 19 de abril sempre costumava ser um dia de venda de artesanato e de uma pequena apresentação de “dança”, que descobri mais velha tratar-se de um toré. Tudo restrito a esse caráter “artístico”, eles não tinham lugar de fala ao microfone ou um espaço para um protagonismo, de fato. Sem falar de algumas representações equivocadas, como aquela apresentação da Xuxa trajando roupas Cherokees que nada tem a ver com a cultura daqui e colocando no palco indígenas totalmente deslocados.

Queria pontuar essa exotização da figura do índio e trazer uma provocação no início do filme sobre esse imaginário. Naquelas imagens iniciais estão amigos e amigas muito queridos. Acho importante e necessário esse exercício de autocrítica constante para entendermos as problemáticas que implicam esse tipo de “fantasia” também utilizada no Carnaval. Qual o propósito de se fantasiar de índio? Acho que pode se assimilar ao “blackface” [termo surgido no século XIX, nos EUA, em referência à prática teatral de atores brancos que se pintavam para representar, de forma exagerada e estereotipada, a população negra] em certo sentido. Vivemos um momento em que é preciso estar muito consciente dos lugares que se ocupam, o Carnaval também pode ser um lugar de afirmação de posicionamentos políticos, mas não percebo essa intenção quando a fantasia é de indígena.

Acredito que tanto o filme como a série em desenvolvimento pretendem, em primeiro lugar, colocar o que se chama de perspectivismo indígena – que em poucas palavras seria entender uma lógica indígena de ver o mundo – , conceito [do antropólogo Eduardo] Viveiros de Castro. Pretendo chamar um(a) indígena para co-dirigir comigo a série. Acredito que será essencial para o processo. Também acho crucial a produção de conteúdos voltados para crianças, posto que existe um número muito pequeno de produções que tratam dos povos originários no País e a legislação que garantia a obrigatoriedade deste tipo de conteúdo nas escolas está sendo dizimada pela atual gestão golpista.

 

O espelho é objeto símbolo do modo de dominação exercido pelos homens brancos sobre os indígenas desde a chegada dos portugueses ao território que atualmente faz parte do Brasil. Ao mesmo tempo, o espelho simboliza também o modo como um indivíduo ou sociedade se vê. Pensando nisso, gostaria que você comentasse com que intenções utilizou o espelho em três momentos distintos de Fantasia de Índio?  

Os espelhos surgem no filme num momento mais avançado da pesquisa, quando já estava definido que o foco maior trabalhado com os Xukurus seria a cosmologia, a religiosidade. E, para eles, ela está intimamente ligada a uma noção não-antropocêntrica do mundo. Para os Xukurus, as matas da serra do Ororubá carregam os espíritos ancestrais. O espelho trazia essa ideia de que eles fazem parte daquele lugar, daquela terra, tanto quanto as árvores, por exemplo. E essa conexão traz uma sinergia muito bonita que se reflete na forma como eles concebem a agricultura e realizam um trabalho de reflorestamento da área que foi cruelmente devastada por anos de exploração de monoculturas e pela Fábrica Peixe.

Em contraponto, na imagem que eu seguro o espelho na cidade eu procuro propor outra questão. Se somos reflexos do nosso meio, o que nos restou numa cidade repleta de não-lugares?

 

Em dado momento de Fantasia de Índio você reconhece a busca por provas de sua origem indígena como algo inócuo. Por esse caminho é possível ver o título do curta-metragem como algo que você fantasiava para si, no sentido da imaginação. Acredita que o título transmite essa ambiguidade? De que maneira, ao longo do processo do filme, você buscou um equilíbrio entre um anseio individual e uma abordagem de reverberação coletiva?

Eu acredito que a fantasia refere-se a diversas questões. Fala dessa crítica à exotização amplamente reproduzida até hoje, mas também trata da minha fantasia de que encontraria esses vestígios de maneira formal e pragmática, através de sobrenomes, por exemplo. Trata da fantasia de que o Governo Federal tivesse algum trato mais cuidadoso com estes documentos e arquivos, também.

Sempre existiu um respeito muito grande aos Xukurus em todo o processo e em pontuar um lugar de fala. Ao conhecer mais a fundo a história do povo, me encantei e senti uma energia muito potente em tudo que vivi. Então passei a considerar os papéis, os documentos, irrelevantes diante da magia das relações humanas que me atravessaram lá.

Mas também passei a entender que o reconhecimento da identidade para aquele povo estava atrelado a diversos processos de muita luta. Muitos foram perseguidos e assassinados, e para mim essa identidade Xukuru é indissociável de todo essa história. Ser Xukuru, para mim, é ter passado todas as dificuldades vividas para a retomada daquele território e continuar lá dentro, na luta até hoje. Portanto, era uma questão de respeito deixar sempre enfatizado o lugar que eu ocupava ali para as lideranças.

Acredito que a causa das demarcações das terras indígenas e a reivindicação pelos direitos básicos aos nossos povos originários deveria ser uma questão nacional e não exclusiva aos indígenas. Precisamos propor esses lugares de troca e diálogo tanto para aprender mais com todo o conhecimento indígena que não conhecemos tão bem, como para fortalecer a luta pela memória desse País e pela sobrevivência e qualidade de vida de quem já estava aqui muito antes.

 

Os letreiros que aparecem antes dos créditos finais informam que os Xukurus entraram com uma ação na Corte Interamericana de Direitos Humanos contra o Estado brasileiro. Em que momento do processo do filme vocês tiveram conhecimento desta ação judicial? Optar por comentar sobre este fato apenas nos letreiros finais é mais um modo de reiterar que o processo histórico de invisibilização e aniquilação das populações indígenas continua em andamento? 

Desde o início da pesquisa acompanhei o trabalho da antropóloga Vânia Fialho, que auxiliou na demarcação do território Xukuru. Soube da ação através dela e pude acompanhar a transmissão ao vivo (os julgamentos da Corte Interamericana de Direitos Humanos são transmitidos em sua página). A própria Vânia foi junto ao Cacique Marcos defender os Xukurus nesse processo. Procurei tratar no filme da questão da identidade como algo relacionado a um existencialismo, a um questionamento mais espiritual sobre o lugar que ocupamos aqui. E essa espiritualidade para os Xukurus está extremamente ligada à luta. Esses espaços de rituais são lugares onde eles pedem orientação aos Encantados para os próximos passos a serem dados. Acreditava que era importante dar ênfase a essa questão política no final, como um sinal de que não está tudo bem. E lembrar que o próprio território Xukuru foi demarcado depois de muita luta dos próprios indígenas. Se fosse para depender unicamente do Estado, nada teria acontecido.

 

Quais foram as principais repercussões que chegaram até você após a estreia do filme no Janela Internacional de Cinema do Recife? 

Acho que a repercussão mais importante para mim foi a dos próprios Xukurus. Os rapazes do coletivo audiovisual que participaram da equipe do filme estiveram presentes na sessão e participaram do debate. Um deles é Diego, o neto de Xikão. Eles pontuaram esse preconceito que ainda existe com os indígenas do Estado, visto que os estereótipos acabam incutindo a ideia de que os indígenas brasileiros tem que ter cara de boliviano e estariam restritos à região Norte do país. Eles ainda falaram com muito carinho sobre todo o processo do filme e que me acolhem hoje de braços abertos. Acredito que o filme foi um pontapé interessante para os meninos levarem adiante os próprios projetos do coletivo.

Vânia Fialho, a antropóloga, também elogiou a obra e acredita que pode ser um conteúdo a ser utilizado em sala de aula.  A legitimidade que o filme tem para essas pessoas é bastante importante pra mim. Em fevereiro voltarei lá para realizar uma sessão mais ampla com os indígenas que ainda não assistiram ao filme.