Em dado momento de O Pacto de Adriana, documentário chileno dirigido por Lissette Orozco, a cineasta olha para uma imagem da sua tia Adriana Rivas que é projetada em uma parede branca. Está representada ali a trajetória de distanciamento que foi vivenciada por Lissette com relação àquela figura familiar.

De tia querida que morava na Austrália e trazia presentes quando vinha passar férias no Chile, Adriana se tornou, em 2007, uma acusada de praticar crimes como a tortura quando atuou na polícia secreta do país durante a ditadura de Augusto Pinochet. Estando convencida, em um primeiro momento, da inocência de sua parente, Lissette começou a documentar aquela situação, o que posteriormente a levou à realização do filme.

“O que eu sabia de minha tia era uma fantasia, uma idealização que formei quando era criança. Só agora, quando adulta, que comecei a conhecê-la realmente”, conta a diretora, que começou a coletar materiais para o filme em 2011, cortou relações com a tia em 2015 e só começou a montagem final do documentário em 2016.

Nesta entrevista concedida ao Cine Festivais na capital paulista, onde esteve para apresentar o filme na 41ª Mostra de São Paulo, a diretora Lissette Orozco falou sobre o processo de realização do documentário O Pacto de Adriana.

 

Cine Festivais: A impressão que o filme passa é que no gesto de pegar a câmera e começar a documentar a situação da sua tia estava contido um desejo de defesa da imagem que você tinha dela até aquele momento. Como foi esse seu impulso inicial de começar a filmar a sua tia e a investigar aquele caso?

Lissette Orozco: Quando comecei a filmar eu não sabia que aquilo resultaria em um documentário. Foi um instinto de cineasta, porque eu sentia que o que estava acontecendo era algo único, especial, importante. E também sentia que se eu pudesse registrar tudo aquilo que a minha tia estava vivendo, em algum momento poderia ter uma prova de que minha tia é inocente. Então chegou um momento em que eu senti que tinha uma boa quantidade de material, e que poderia fazer um filme a partir dali, mas tendo inicialmente o impulso não de limpar a imagem da minha tia, mas de deixar uma janela aberta para que ela mostrasse sua visão das coisas.

 

O processo do documentário durou vários anos, tendo começado em 2011. O que foi mudando na concepção da narrativa do filme ao longo dessa trajetória?

O processo começou quando eu estava terminando um mestrado em documentário. Foi ali que me dei conta tinha uma história, uma personagem, um conflito… Tudo que precisava para fazer um filme já estava lá. No início do processo eu não era personagem do filme, mas isso mudou depois que passei por um laboratório de desenvolvimento na Argentina. Um jurado do laboratório me disse que o conflito estava em mim, não na minha tia. Ela não tinha conflitos por ter trabalhado para a polícia especial de Pinochet, mas eu tinha ali um conflito ético com relação à maneira que lidaria com aquela situação. Então a partir daí me tornei um personagem dentro do filme.

 

O filme é muito calcado nos bastidores desta sua investigação, adotando para isso o uso de várias câmeras documentando as mesmas situações, trazendo assim diferentes texturas e pontos de vista para uma história que trata em boa medida de versões (inventadas ou não) sobre uma mesma personagem: a sua tia. Como você planejou essas filmagens?

Eu gravava todas as conversas que tinha com a minha tia por Skype, com a intenção de fazer um bom primeiro corte para conseguir dinheiro de editais para ir à Austrália [onde a tia mora] fazer o filme lá. Então desde o início a ideia era gravar o processo de fazer este filme. Outra coisa que tinha clara era que não iria usar arquivos da época. Não queria utilizar imagens que todo mundo já conhece de Allende, Pinochet ou do palácio La Moneda queimando. Queria fazer um filme muito contemporâneo.

 

Algo que chama atenção quando você mostra fotos de sua família são os rostos borrados de algumas pessoas. Isto foi uma obrigação legal?

As fotos com os rostos ocultos têm a ver, a princípio, com a permissão ou não de mostrar os rostos daquelas pessoas, mas com o tempo eu gostei que houvesse essas pessoas com rostos tapados, porque isso traz uma outra interpretação ao filme, já que mostra de imediato que aquela é uma família que oculta coisas, que há segredos ali e que algumas pessoas não querem mostrar a cara e assumir esses segredos. A partir do momento que entendi isso, borrei aqueles rostos com gosto. Não precisei que alguém me pedisse isso.

 

Em vários momentos a sua tia mostra um incômodo com os rumos que o filme está tomando, uma vez que aparentemente ela entendia que a razão de ser do documentário era provar a inocência dela. Com o olhar mais distanciado de agora, como você analisa essa trajetória que a sua tia trilha como personagem em O Pacto de Adriana?

O que eu sabia de minha tia era uma fantasia, uma idealização que formei quando era criança. Só agora, quando adulta, que comecei a conhecê-la realmente. Dou um exemplo que aparece no filme: quando pergunto à minha tia por que ela havia se equivocado ao dar uma entrevista em que justificava a tortura nos tempos da ditadura Pinochet, ela responde que o erro dela foi dar a entrevista, quando obviamente o erro dela era defender algo desumano e repudiado em qualquer lugar do mundo.

Então comecei a entender que minha tia tinha uma forma de pensamento militar, no sentido de obedecer ordens, de seguir defendendo a ditadura com base na ideia de que era necessário extinguir o comunismo, etc.. Aí me dei conta que ela estava doutrinada, porque o que ela dizia era igual à fala de todos os outros amigos que trabalharam com ela.

O curioso é que minha tia imaginou um filme em que eu iria encontrar todos os seus amigos e eles iriam ajudá-la a se mostrar inocente, e a verdade é que ninguém a ajudou, justamente por seguirem essa doutrina de negação. O plano dela caiu, e acho importante que isso esteja dentro do filme.

Quando percebi que ela não assumiria nada do que havia feito, tinha dois caminhos possíveis. O primeiro era tomar o HD para mim e decidir não lançar o filme: assim não trairia minha tia e minha família. O outro era terminar o filme, tendo a ideia de educar, levantar uma conscientização histórica, algo que no fundo era o motivo para eu ter estudado cinema. Tinha a ver com meu trabalho e com minha ética; por isso terminei o filme.

Se soubesse desde o início quem era a minha tia, eu nunca teria feito este filme. Assim como não o teria feito se fosse a minha mãe sendo acusada de assassina e torturadora. Com a minha tia eu tinha uma distância maior, e isso me ajudou a fazer o filme.

 

Ao dirigir este filme você, como diretora, toma uma posição de negação em relação à defesa de sua tia contra as acusações que lhe apontam como torturadora durante a ditadura chilena. Porém, como personagem do filme, você é incapaz de dizer a ela que não acredita na sua inocência, como fica claro no último diálogo que aparece entre você e ela no filme. Por quê?

Naquela ocasião eu estava a um mês de voltar à Austrália para gravar o final do filme. Então era algo delicado dizer que ela era cínica, mentirosa, ou que eu não acredito nela. Ao mesmo tempo, olhando com minha visão de hoje, penso que naquele momento a vi muito vulnerável, débil, e tive uma sensação de compaixão. E tinha uma relação de autoridade ali também; afinal, ela é minha tia. Então lhe disse “não” quando ela me perguntou se eu duvidava dela, mas eu sempre ficava com uma sensação de “por que não lhe disse que sim?”.