Figura recorrente entre os frequentadores da Mostra de Tiradentes, seja na plateia, nos debates ou apresentando curtas, o mineiro Léo Pyrata esteve no centro dos holofotes na edição deste ano, quando apresentou Subybaya, seu primeiro longa-metragem solo na direção, na Mostra Aurora (seção competitiva de longas).

Na edição de 2008 da Mostra de Tiradentes, como mero espectador, Pyrata – que iniciou sua trajetória artística na literatura – assistiu a dois filmes que lhe incentivaram a se matricular na Escola Livre de Cinema de Belo Horizonte e começar a vislumbrar uma carreira como cineasta: Falsa Loura, de Carlos Reichenbach, e Cleópatra, de Julio Bressane.

Até chegar a Subybaya, filme realizado graças à verba de um edital estadual de 2013, Léo Pyrata codirigiu um longa (Estado de Sítio), realizou curtas experimentais e trabalhou em diversas funções em filmes dos pernambucanos Sergio Oliveira e Renata Pinheiro, parceria que ele considera seu maior aprendizado na área.

O novo trabalho, apresentado em Tiradentes em janeiro, gerou o debate mais acalorado desta edição do festival. Os questionamentos, vindos todos de mulheres, se referiam ao modo como o diretor tentou problematizar – em forma e conteúdo – a representação de mulheres sob a perspectiva do olhar masculino.

No vídeo a seguir é possível assistir à entrevista que o Cine Festivais realizou com o Léo Pyrata no dia seguinte à exibição de Subybaya na 20ª Mostra de Tiradentes. Aqui o cineasta fala sobre sua trajetória, a respeito do processo criativo do longa-metragem e das questões estéticas e políticas que o filme levanta.

Se preferir ler o que o cineasta disse, transcrevemos abaixo os principais pontos da conversa.  

 

 

Repercussão em Tiradentes

Houve uma reação muito forte, mas também muito esperada. Estou muito feliz porque o filme coloca questões em debate, e isso tem reverberado bastante desde a exibição. As pessoas estão falando bastante. Não está em questão se gostam ou se não gostam. Acho que o filme não tenta ser conclusivo nesse sentido, e eu estou muito feliz de poder me colocar no meio desse debate, principalmente para ouvir – para falar também -, mas para estabelecer o diálogo.

Já imaginava aqui como lugar de debate muito intenso com relação a isso (temática da representação feminina sob a perspectiva masculina). Por ser um epicentro dessa produção contemporânea, e com todos os problemas que isso implica, o ideal era que se passasse aqui mesmo. Claro, o filme não foi feito pensando em passar em Tiradentes, ele foi feito pensando em colocar essas coisas em questão, mas eu sabia que o lugar onde isso viria com maior potência de debate em um primeiro momento seria aqui.

 

Problematização

O filme passa pela questão desse olhar masculinizado da câmera, do homem e do espectador para a mulher, que é uma coisa histórica no cinema e é algo muito problemático. De uma certa maneira eu me sirvo de um arcabouço teórico da teoria crítica feminista – Laura Mulvey, Ann Kaplan, na literatura a Elódia Xavier – e com todas essas questões, incontornáveis e históricas, de como a câmera, esse objeto, fálico enxerga a mulher como espetáculo, como objeto de significado, e não como produtora de sentido, de discurso. Eu achava que era interessante tentar minar isso de algum jeito, demonstrando de uma forma até pedagógica tudo o que isso acarreta, e também sem tirar da reta todos os pontos mais problemáticos desse gesto meu, que vai vir com a minha impressão digital, onde existe sim um constructo social e cultural de machismo arraigado, e que não seria fazendo esse filme que eu estaria livre disso.

Na verdade para mim o mais importante desse gesto é justamente demonstrar essa contaminação da minha fala, do lugar de onde eu falo, e de todos os problemas que isso tem. Não é um filme para as pessoas curtirem, não é um filme para ser aceito, é um filme para ser questionado, problematizado e discutido. Acho que isso é importante não só para mim, mas para todos os outros diretores homens heteronormativos que tentam colocar seu olhar sobre aquilo que eles não entendem, e que têm uma dificuldade que vai ser sempre incontornável dessa representação e dos problemas desse privilégio que a gente tem com relação a essa representação. E sobre como isso pode ser perpetuado culturalmente através da imagem.

 

Ruptura do olhar

Foram quatro roteiros até chegar ao Subybaya. Desde o primeiro essa ruptura narrativa já existia. No primeiro roteiro já havia essa coisa de “nossa, mas eu estou contando a história de uma heroína ou ela é simplesmente uma pessoa que está reproduzindo um arquétipo masculino”. Isso nesse primeiro approach de roteiro, que não tinha nem esse personagem, nem essa história. No segundo roteiro isso também já foi problematizado por conta da questão de multifoco narrativo, que é uma coisa que está presente no último roteiro.

Também existia desde a novela (escrita pelo próprio Pyrata, texto que deu origem ao filme) a questão do deus ex machina e do coro, só que era em uma outra chave, com outros personagens, mas estruturalmente eu achava que isso era importante para o filme, porque ele sempre girou muito em torno dessa questão de se pensar esse lugar do espectador e do público. De certa maneira acho engraçado que um pouco de cada um desses approachs distintos de roteiro estão nesse resultado final.

 

Feminismo

No filme existe a figura desse diretor-personagem. Eu incorro com ele, enquanto personagem, em erros propositais. Ele tem um contato muito superficial com o feminismo, e essas citações não estão ali por acaso, é uma maneira de ilustrar nesse filme toda uma precariedade de relação com questões do feminismo, e de algumas tradições.

Começa com a Virginia Woolf, depois tem uma citação da Simone de Beauvoir, que já é uma coisa que já chega a ser tão pop que ela já é distorcida – essas cartelas estão ali para ser equivocadas -, e tem um ápice disso com a Camille Paglia, que é uma pessoa que tem uma visão muito dissonante e disjuntiva com relação ao feminismo – claro, o feminismo são vários, existem varias perspectivas… Ela é uma crítica de arte que tem muito embate com feministas, como se isso fosse exatamente também um estopim desse equívoco, dessa perspectiva, ainda que o que ela fale também entre em contradição com o próprio conjunto da obra dela.

 

*O repórter viajou a convite da organização do festival