Foi por acaso, através de um amigo, que o diretor Getsemane Silva chegou ao filme Brasília: Contradições de uma Cidade Nova, realizado pelo cineasta Joaquim Pedro de Andrade em 1967. Além de apreciar o documentário, que, apenas poucos anos após a criação da capital federal, já mostrava uma abordagem crítica a respeito da exclusão social verificada nos arredores da cidade, Getsemane se interessou pelos bastidores conturbados que marcaram a produção e a exibição deste trabalho de Joaquim Pedro. Surgiu assim o interesse por realizar o documentário Plano B, que foi lançado no último Festival de Brasília.

“Podemos dizer que o meu filme utiliza a desculpa de falar sobre a história deste trabalho do Joaquim Pedro de Andrade para tratar da Brasília de hoje. As contradições sociais da cidade hoje em dia não são idênticas, mas são uma evolução daquelas encontradas em 67”, afirmou Getsemane em conversa com o Cine Festivais durante a 9ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, evento que foi encerrado com o seu documentário.

Recifense formado em Jornalismo, o diretor veio para a capital federal há 15 anos e realizou trabalhos para a televisão. Seu primeiro longa-metragem voltado para o cinema é Plano B, que ganhou os troféus Câmara Legislativa do Distrito Federal (concedidos a filmes locais) de melhor longa-metragem e montagem no Festival de Brasília.

O filme de Getsemane terá pré-estreia nesta terça-feira, 10 de junho, no Cinusp Paulo Emílio (Cidade Universitária – Rua Do Anfiteatro, 181 – Colméia, Favo 04 – Butantã), em São Paulo. Plano B foi adquirido pelo Canal Brasil e deve ter a primeira exibição na TV paga no próximo mês de agosto.

Leia a seguir a entrevista do Cine Festivais com o diretor Getsemane Silva.       

 

Cine Festivais: Como você conheceu a história do filme de Joaquim Pedro de Andrade e por que teve interesse em realizar o documentário Plano B?

Getsemane Silva: Eu não conhecia o filme Brasília: Contradições de uma Cidade Nova e nem a história dele. Há uns cinco anos, quando ele foi lançado como um extra do DVD de Macunaíma, um amigo me mostrou o documentário e eu fiquei encantado, primeiramente porque eu nunca tinha visto imagens em cores de Brasília em seus primeiros anos. Me chamou atenção o rigor cinematográfico do Joaquim Pedro, os planos, os movimentos de câmera e a narrativa irônica.

Logo depois, esse mesmo amigo me contou que o filme tinha sido patrocinado pela Olivetti (empresa italiana de maquinas de escritório) e que, exatamente pelo fato de eles mostrarem o subúrbio da cidade, a própria empresa proibiu a exibição do filme. Eu achei essa história ótima e resolvi que tinha que contá-la em um documentário.

 

CF: Como jornalista, a realização do documentário foi uma espécie de reportagem investigativa, já que pouco se sabia dessa história?

GS: Foi também isso, mas eu vejo mais como uma busca do que como uma reportagem, até pelo fato de eu aparecer e me envolver no filme. O documentário foi uma tentativa de mostrar minha busca pela história, mas ele também traz elementos de hibridismo na linguagem. Misturo linguagem observacional, filme-ensaio e filme de busca do autor. Digamos que é um filme de cinema contaminado pela televisão.

 

CF: Como morador de Brasília, como você enxerga as contradições sociais da cidade?

GS: Todas as cidades brasileiras são excludentes, mas talvez em Brasília isso seja um pouco mais forte porque ela foi feita para ser uma capital federal, e de certa maneira todo mundo se importa com ela. Lá a exclusão é muito mais forte porque a cidade é espacialmente muito dividida. Como Joaquim Pedro diz no filme de 1967, nesta cidade os problemas brasileiros “se revelam com insuportável clareza”.

Podemos dizer que o meu filme utiliza a desculpa de falar sobre a história deste trabalho de Joaquim Pedro de Andrade para tratar da Brasília de hoje. As contradições sociais da cidade hoje em dia não são idênticas, mas são uma evolução daquelas encontradas em 67.

O Plano B é um filme também de metalinguagem, porque eu misturo muito os dois filmes e os dois tempos, refaço planos idênticos. O que você encontra hoje nas periferias mais distantes de Brasília, o Joaquim Pedro encontrou numa periferia que estava mais próxima do centro.

 

CF: Como foi a recepção do filme no Festival de Brasília e qual será a trajetória dele?

GS: Como era um filme que falava sobre a cidade, eu sabia que as pessoas podiam gostar ou odiar, mas a resposta acabou sendo bem bacana. A sessão foi emocionante, houve muitos aplausos e a recepção na mídia foi super legal.

Depois de Brasília ele foi para o México, onde recebeu Menção Honrosa na categoria Memória do Festival Documental Iberoamericano, e depois veio para a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto. Optamos por exibir o filme em um circuito de cineclubes em nove estados, já que no circuito comercial ele provavelmente seria colocado nos dois primeiros horários do dia e ficaria em cartaz por apenas uma ou duas semanas. Agora ele deve ser exibido em agosto no Canal Brasil.

 

CF: Você conhece o cinema do Adirley Queirós? Qual relação você faz entre os filmes dele e o Plano B?

GS: Eu acho que A Cidade é uma Só? e Plano B são filmes complementares que falam da mesma coisa a partir de pontos de vista diferentes. Eu cheguei na cidade já adulto para trabalhar e não vivi o que o Adirley presencia em Ceilândia (cidade-satélite da capital federal). Já participei de alguns debates com ele e a gente concorda na maioria dos pontos, só que eu trago a visão de fora e ele traz a de dentro para as mesmas questões.

O Adirley é um dos cineastas mais criativos que a gente tem hoje em dia. É como se ele estivesse dizendo nos filmes dele que a verdadeira cidade está em Ceilândia, e não no Plano Piloto, e isso é algo que eu sinto muito no meu dia a dia.

É em Ceilândia, Taguatinga e nas outras cidades-satélites que as pessoas estão nas calçadas fazendo hip-hop, teatro, cinema. O Plano Piloto é uma pequena cidade de pouco mais de 200 mil habitantes que tem muitos moradores que ficam dois ou três anos, trabalham no governo e depois vão embora. Ele não tem uma identidade como a de Ceilândia, que pode ser vista com muita força na obra do Adirley.

 

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* O repórter viajou a convite da 9ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto