Além de ter obtido a maior bilheteria da história do cinema, o filme Avatar, de James Cameron, ditou moda ao fazer com que boa parte das grandes produções posteriores fossem exibidas em 3D. Especialista nesse formato, a francesa Joséphine Derobe, que trabalhou na equipe de efeitos visuais do documentário Pina, de Wim Wenders, apontou dois lados dessa tendência mundial em entrevista concedida ao Cine Festivais.

Avatar foi uma grande revolução e acabou sendo muito bom para todos que trabalham com o 3D porque abriu muitas oportunidades de emprego. Por outro lado, o formato passou a ser utilizado em muitos blockbusters cheios de ação, tiros e velocidade. Definitivamente, esse não é o melhor meio para melhorar a qualidade do 3D. Ele é um formato que pode ser muito sensorial, mas a maior parte dos trabalhos não dá tempo para o espectador ver o 3D”, opina Joséphine, que veio ao Brasil a convite do 25º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo para dar uma palestra sobre a linguagem 3D, além de exibir filmes nos quais trabalhou como diretora ou na captação e pós-produção de imagens do formato.

Formada em jornalismo, a francesa deixou o cargo de repórter depois que o seu pai Alain, um dos pioneiros do 3D na Europa, a convidou para trabalhar em um vídeo desse formato para um parque de diversões. “Fiquei fascinada por essa área e mudei de profissão. Naquele tempo, há uns dez anos, o 3D não era muito usado no cinema, então eu trabalhei por muito tempo fazendo vídeos para museus, parques de diversões e eventos. Até que tive essa chance de trabalhar com o Wim Wenders em Pina, filme no qual meu pai foi o diretor de estereografia”, explica a diretora.

Depois da morte do pai, Joséphine foi convidada para trabalhar com Wim Wenders também em Every Thing Will Be Fine, filme protagonizado por James Franco e Charlotte Gainsbourg que será lançado em 2015, provavelmente no Festival de Berlim. Essa parceria com o diretor alemão lhe mostrou que é possível criar uma nova linguagem cinematográfica que se adeque ao 3D.

“Trabalhar com Wim foi uma grande honra. Apenas poucos diretores pensam que a gente pode obter alguma coisa artísticamente diferente com o 3D. Por isso, é um tipo de paraiso para quem trabalha na área quando encontra alguém que quer entender, explorar e contar alguma coisa diferente com esse formato”, diz Joséphine, que também aponta Gravidade, de Alfonso Cuarón, como um raro caso de blockbuster que utiliza bem o 3D.

 

Parceria brasileira e futuro do 3D

Joséphine Derobe veio pela primeira vez à América Latina para o Festival de Curtas de São Paulo, mas já havia tido um contato com o Brasil através do cineasta Karim Aïnouz, com quem ela trabalhou como diretora de estereografia em um segmento do filme Cathedrals of Culture que teve como foco o Centro Georges Pompidou, em Paris.

Para esse trabalho, ela assistiu a alguns filmes de Aïnouz, como Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo e Madame Satã. Além disso, Joséphine ficou impressionada com o filme Histórias que Só Existem Quando Lembradas, de Júlia Murat, que descobriu quando estava fazendo uma pesquisa sobre obras que retratam conflitos geracionais visando a escrever o seu próximo filme. Ela ainda está na fase de escrita de roteiro, mas pretende que esse seja o seu primeiro longa-metragem na direção, a ser rodado em 3D.

Sobre o futuro do formato propriamente dito, ela se diz otimista. “É verdade que na maior parte dos filmes em 3D a equipe criativa não pensa em espaço, volume e na relação física entre os espectadores e os filmes do formato. Precisamos fazer muitas conferências e workshops para que as pessoas possam aprender. (O 3D) É uma grande linguagem da qual nós sabemos tão pouco. Temos possibilidade de explorar e criar outra linguagem, então acho que as pessoas criativas do cinema têm uma grande oportunidade se entenderem que podem fazer algo interessante artisticamente, mas precisamos de tempo para isso”, conclui Joséphine.

 

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