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Filme traz Hamlet para São Paulo e discute atualidade da peça

22/07/14 às 16:27
Filme traz Hamlet para São Paulo e discute atualidade da peça

“Eu já vi muita coisa feia no mundo, presenciei ações ignóbeis. Tenho conhecimento de causa para dizer que o ser humano é capaz de realizar qualquer ato”, diz o diretor Cristiano Burlan. Em Mataram Meu Irmão, documentário premiado no festival É Tudo Verdade de 2013, o cineasta lançou-se em uma jornada pessoal acerca do assassinato de um de seus irmãos. A história familiar trágica – que inclui ainda a morte brutal de sua mãe – pode ter guiado Cristiano na escolha por adaptar uma das principais tragédias da dramaturgia mundial para o cinema. Sua versão de Hamlet, livre adaptação da peça de William Shakespeare, terá a primeira exibição pública durante o 9º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, no dia 24 de julho, às 21h, no CineSesc.

“A obra de Shakespeare é atual até hoje por falar de três coisas que são inerentes ao ser humano: amor, ódio e separação. Hamlet, especificamente, traz questões que são muito próximas a mim: a tragédia familiar, a violência, a hesitação de uma certa vingança. Às vezes, mesmo não pensando de maneira racional sobre esses temas, eu acabo me debruçando sobre eles”, explicou o diretor em entrevista ao Cine Festivais.

Para realizar o filme, Cristiano não se espelhou em nenhuma das inúmeras adaptações da obra para o cinema. Ele nem considera que seu trabalho seja uma adaptação literal da peça, já que se interessou mais em descobrir aquilo que está nas entrelinhas do texto de Shakespeare.

Visando estabelecer semelhanças da peça com os dias atuais, o cineasta trouxe parte da trama do filme para as ruas de São Paulo e optou por inserir falas dos atores sobre os próprios personagens que representam. Henrique Zanoni, que faz o protagonista, diz que, nos dias de hoje, ele imagina que Hamlet teria gosto por heavy metal, música eletrônica e cocaína, intervenção que é devidamente incorporada à linguagem do filme.

 

Limitações e parcerias

A produção de Hamlet foi realizada de maneira totalmente independente, com dinheiro do diretor Cristiano Burlan e de alguns amigos que apoiaram o projeto. “Quando se tem poucos recursos, você tem que ser um bom produtor, não pode hesitar demais. Eu acho que o cinema brasileiro se aburguesou um pouco. Às vezes a gente esquece da nossa própria historia, que mostra que a falta de recursos está diretamente ligada a nossa estética. O fomento público é importante, mas a história mostra que o cinema se reinventa principalmente por causa de pessoas que têm um desejo e uma paixão tremendas e realizam filmes. A falta de recursos não pode ser impedimento para se fazer cinema”, opina o cineasta.

A limitação orçamentária aumentou ainda mais a importância da uma boa parceria entre Cristiano e seus atores. O protagonista, Henrique Zanoni, é figura recorrente nos filmes recentes do cineasta, e participou de um tríptico que começou com Sinfonia de Um Homem Só, passou por Amador e se encerra agora com Hamlet. Em comum, além do diretor e do protagonista, esses filmes têm características estéticas parecidas (como a fotografia em preto e branco) e fazem parte de uma reflexão do realizador acerca da relação entre cinema e teatro, com foco no trabalho de interpretação.

“Acho que o trabalho do ator no cinema brasileiro ainda tem muito a caminhar. Há uma má formação dos diretores, que se interessam muito pouco pelo trabalho do ator, e isso acabou criando um novo tipo de profissional, o preparador de elenco, que eu acho uma aberração. Tenho refletido sobre a relação entre diretor, ator e dramaturgia, e o filme foi construído em cima de encontros e parcerias. Eu não costumo dar o roteiro para os atores. O que proponho é uma situação dramática a partir de um conflito objetivo, e aí dou possibilidade para que eles improvisem”, explica Cristiano, que também é professor de interpretação para cinema.

 

Ato de fé

Como realizador independente, Cristiano Burlan tem como principal, e muitas vezes único, espaço para exibição de seus filmes o circuito de festivais. Além de ter sido premiado em 2013 no festival de documentários É Tudo Verdade por Mataram Meu Irmão, ele lançou no início do ano o filme Amador na Mostra de Cinema de Tiradentes, e agora estreia Hamlet no Festival de Cinema Latino-Americano.

“Não me interessa entrar no festival para ir à festinha de abertura e ganhar prêmio no final. Isso também é legal, mas o principal é conhecer outros filmes e debater com outros realizadores. Não consigo perceber o ato de se fazer filmes se ele não for acompanhado de reflexão”, diz Cristiano.

Fora dos festivais, Cristiano conseguiu colocar Mataram Meu Irmão no circuito comercial graças a uma distribuição própria. O filme foi exibido em São Paulo e em outras dez cidades, mas a experiência mostrou a ele como é difícil encontrar espaço para exibir filmes brasileiros independentes.

“É um ato de fé tentar distribuir e colocar em cartaz um filme. Existem muitas pessoas com visão um pouco diferente sobre o assunto, como o pessoal do CineSesc, o Adhemar Oliveira (Espaço Itaú), o Jean-Thomas Bernardini (Reserva Cultural e Imovision). Há também distribuidoras diferentes, como a Vitrine Filmes, mas acho que falta um diálogo entre os realizadores para se exigir uma postura diferente do mercado exibidor”, conclui Cristiano, que pretende exibir Hamlet no circuito comercial.

 

Serviço

Exibição de Hamlet no 9º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo

Local: CineSesc (Rua Augusta, 2075 – Cerqueira César – São Paulo – SP)

Data e horário: 24 de julho de 2014, às 21h

Telefone: (11) 3087-0500

Entrada gratuita

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