Com uma proposta radical, sem nenhuma fala ao longo de seus 72 minutos, o longa-metragem Brasil S/A, de Marcelo Pedroso, ainda não tem previsão de lançamento no circuito comercial, mas já prepara uma novidade para se inserir no reduzido mercado do cinema independente brasileiro.

“Estamos pensando em fazer algumas sessões com música ao vivo tocada por uma orquestra, tentando resgatar esse mote do começo do cinema. Vamos incluir essa ideia em um edital de distribuição para transformar isso em um chamariz para o filme”, contou Pedroso em entrevista ao Cine Festivais.

Adotando um viés crítico sobre o ideal de progresso e sobre a lógica desenvolvimentista do país, o filme se articula em diversos blocos que fazem comentários sobre o passado, o presente e um possível futuro do Brasil. Segundo o diretor, a ausência de falas foi uma opção desde o começo do projeto, pois o que mais lhe interessava era uma discussão sobre a coletividade.

Parte de uma leva de cineastas que discutem muito as questões urbanísticas do Recife, Marcelo Pedroso tem outra obsessão. “O espaço urbano e arquitetura não me afetam tanto. Sou mais implicado com a mobilidade, com a questão do carro. Brasil S/A faz uma leitura do progresso, desses desejos cultivados socialmente que muitas vezes são completamente absurdos, que criam uma identidade a partir do carro…”, explica o cineasta.

A questão automobilística ganha no novo filme uma bem-humorada esquete em que um grande caminhão leva os carros que querem escapar do trânsito caótico, em uma espécie de transporte público individualizado. Essa preocupação pôde ser ainda mais notada no curta-metragem Em Trânsito, no qual a crítica à indústria automobilística é direta e inclui um discurso da presidente Dilma Rousseff no Salão do Automóvel de São Paulo.

“Acho que uma diferença entre os dois filmes é que no Em Trânsito havia um inimigo claramente estabelecido, enquanto que em Brasil S/A, se há um inimigo, ele é algo difuso, que já não é externo a nós. Vejo o filme como um passo para compreensão dessa sociedade, com cenas que se conectam a partir da observação desse desejo de grandeza e de um certo messianismo que existe na história brasileira”, completa Pedroso.

 

* O repórter está hospedado em Brasília a convite da organização do festival

 

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