Pelo estágio do julgamento no Senado, é provável que na próxima quarta, 31 de agosto, Dilma Rousseff se encontre afastada definitivamente da Presidência da República. Neste mesmo dia ocorre a última exibição no 27º Festival Internacional de Curtas de São Paulo de um filme que, pelo título, gera conexão imediata com a ocasião: Impeachment, dirigido por Diego de Jesus.

A velocidade dos acontecimentos políticos fez o curta ganhar significados não previstos quando Diego começou a trabalhar na sua concepção, em junho do ano passado. Na época, Eduardo Cunha ainda era presidente da Câmara dos Deputados e não havia aceitado nenhum dos pedidos de impedimento protocolados na Casa, mas os argumentos pró e contra a legalidade do afastamento já estavam sendo aventados no debate público.

“Já tinha um tempo que vinha querendo fazer um curta sobre políticos brasileiros e os seus jeitos de ‘fazer política’, de representar o povo e seus próprios interesses. A época turbulenta que começou ano passado me fez sair do apenas querer para o fazer, e acabei escolhendo o tema impeachment por ser algo presente em todos os mandatos presidenciais que já tivemos na democracia. Eu queria usar este tema para falar dos políticos. Na minha cabeça, era uma espécie de retrato de como eu os via”, explica o diretor em entrevista por e-mail ao Cine Festivais.

O caminho para realizar o filme passou pela visualização de um vídeo no Youtube que trazia as imagens de uma sessão de 1999 da Câmara dos Deputados, na qual o então presidente da Casa, Michel Temer, comanda uma votação que rejeita um recurso do PT contra a sua decisão de arquivamento de um pedido de impeachment em relação ao então presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB.

Como oposição e governo, na época, executavam papéis inversos àqueles que desempenharam nos governos Lula e Dilma, o que salta aos olhos do espectador é como os argumentos sobre o impeachment se repetem, vindos de figuras até hoje em holofote – além de Temer, aparecem nas imagens Aécio Neves (PSDB), Arlindo Chinaglia (PT), José Carlos Aleluia (DEM), entre outros políticos.

De posse das imagens captadas pela TV Câmara, o cineasta decidiu que faria uma montagem de intervenção, inspirada pelos chamados vídeos “poops”, peças anônimas lançadas no Youtube que usam a montagem/colagem de imagens e sons para expressar suas opiniões e desejos. Dessa forma, a desconstrução do discurso dos políticos se torna explícita no trabalho.

“Eu gosto bastante de um documentário chamado Surplus, de Erik Gandini. Em algumas sequências desse filme, a montagem descontinuada dos diálogos faz com que os políticos falem aquilo que eles não disseram realmente, mas que se deixou implícito. Para mim, há uma desconstrução daquela fala pública para revelar discursos escondidos, que estão ali nas falas, mas que os políticos não assumem. Acho que eu procurei isso no nosso curta. Deixar claro, através dessa montagem, o que está por trás de toda uma defesa e um discurso na tribuna de uma assembleia. Discurso esse que pode mudar quando que você é oposição ou situação”, explica Diego.

Não só através da montagem “picotada”, mas também do uso da música – que por vezes retrata a sessão da Câmara como uma festa -, o filme vai de encontro à imagem de seriedade e de sisudez que essa e outras casas legislativas tentam passar sobre si mesmas.

“A maioria das coisas já chegam ali decididas, mas mesmo assim há todo aquele rito. Na minha cabeça, pode acontecer o que for ali dentro que o resultado será o mesmo. Já que tudo foi decidido antes, nada impede que as coisas possam ser mais… divertidas (no filme)”, comenta o diretor.

 

Sessões de Impeachment no 27º Festival Internacional de Curtas de São Paulo:

- 26/8 – Sexta – 15h – Museu da Imagem e do Som

- 27/8 – Sábado – 19h30 – CineSesc

31/8 – Quarta – 17h – Centro Cultural São Paulo

 

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