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Terror lançado em Tiradentes combate visão infantil do folclore brasileiro

26/01/15 às 12:45 Atualizado em 31/07/15 as 11:57
Terror lançado em Tiradentes combate visão infantil do folclore brasileiro

Se você é daqueles que pensa no Saci como uma figura travessa e brincalhona do folclore brasileiro, prepare-se para mudar de ideia. Em As Fábulas Negras, filme de terror com episódios dirigidos por Rodrigo Aragão, Joel Caetano, Petter Baiestorf e José Mojica Marins que teve a primeira exibição pública durante a 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes, a criatura ganha a sua representação mais assustadora.

“A gente tem uma visão um pouco infantil do folclore, e acho que isso se deve muito à maneira que o Monteiro Lobato (escritor de Sítio do Picapau Amarelo) retratou essas lendas. Eu já ouvi depoimentos de pessoas idosas dizendo que o Saci era terrível, fazia maldades, então tentei resgatar um pouco dessa visão no filme”, explica Rodrigo Aragão, idealizador do projeto e diretor de dois dos cinco episódios do longa-metragem.

Além do Saci, há episódios que tratam da Loira do Banheiro e do Lobisomem. Nos outros dois segmentos, ambos dirigidos por Rodrigo Aragão, as histórias do Monstro do Esgoto e da Casa de Iara partiram de inspirações autobiográficas.

“O episódio do esgoto veio graças a um vazamento ocorrido na porta da minha casa por quase dois anos. Alguns dos diálogos mais surreais dali existiram mesmo, como o do fiscal querendo me multar. E o episódio da Iara também é biográfico de certa forma, porque eu cresci em uma aldeia de pescadores, brincava na mata e realmente existia aquela casa, assim como a história dessa mulher que largou o marido pelo diabo”, explica Aragão.

Trabalhando sempre com produções independentes, sem auxílio de editais ou de grandes patrocinadores, o diretor é o grande nome de uma nova geração que tem como foco os filmes de terror. Foi através das viagens que realizou por conta das exibições de seus outros três longas-metragens (Mangue Negro, A Noite do Chupacabras e Mar Negro) que ele conheceu os cineastas que iriam se juntar ao projeto de As Fábulas Negras, entre eles o criador do terror brasileiro, José Mojica Marins, eternizado pelo personagem Zé do Caixão.

“Eu tinha pensado no Mojica para apresentar os episódios do filme. Quando eu falei que havia um episódio sobre o Saci ele disse: ‘o Saci é muito legal, é coisa nossa! Eu dirijo’. Eu adaptei um pouco o roteiro que havia escrito, mas o trabalho de direção foi todo dele. A única coisa que ficou a meu cargo foi a concepção do monstro”, conta o diretor.

 

Quebrando barreiras

A exibição de As Fábulas Negras na Mostra de Tiradentes é um passo importante na inserção de filmes de terror no cenário nacional. “Ter passado o filme aqui é uma grande vitória. Quando comecei, eu nem inscrevia meus filmes em festivais, sempre achava que não iriam entrar, porque o terror muitas vezes é tratado como um gênero menor. Mas com essa exibição em Tiradentes e com a seleção de Mar Negro para o Festival do Rio, a gente vai quebrando essas barreiras. A desconfiança também existe porque a produção do gênero no Brasil ainda é muito pequena”, opina Aragão.

Na opinião de Petter Baiestorf, os trabalhos com gêneros populares como o policial e o cangaço, além do terror, são ainda muito incipientes no Brasil, e deveriam ser incrementados. Já Joel Caetano vê dificuldades constantes para se fazer terror no Brasil, e acredita que a melhora da qualidade técnica é um desafio que os diretores do gênero tem conseguido lidar.

A ideia de Rodrigo Aragão é de que As Fábulas Negras tenha várias continuações, com outros diretores podendo entrar no projeto.

“Eu já tenho várias histórias na gaveta. Nas cidades por onde passo, sempre tem alguém que me conta alguma coisa, então a gente tem muito material. O Brasil é cheio de fãs do gênero e nosso folclore é rico em personagens e lendas. Temos campo para produzir clássicos mundiais de terror”, conclui Aragão.

 

*O repórter viajou a convite da 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

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>>> Crítica do filme As Fábulas Negras

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