Sempre que se tenta traçar uma história do cinema brasileiro, é nítida a quantidade e diversidade das crises pelas quais o meio audiovisual passou. Dessa forma, deve ser motivo de alegria presenciar a abertura de uma 47ª edição de um festival de cinema. O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é o mais antigo de nossos festivais e nasceu na Universidade Nacional de Brasília (UnB). Presidindo a Fundação Cultural do Distrito Federal, em 1965, Cleantho Rodrigues Siqueira formou uma comissão de intelectuais liderada pelo historiador e crítico Paulo Emílio Salles Gomes, então professor de cinema na UnB. O grupo criou a Semana do Cinema Brasileiro, uma mostra de filmes brasileiros seguida de premiação e que logo alteraria seu nome para o título que cultivamos hoje.

Com o prêmio principal para A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, Brasília consagraria, já em seu debute, Arnaldo Jabor, pela direção de seu curta Circo, e Fernanda Montenegro, por sua primeira atuação para o cinema em A Falecida, de Leon Hirszman. O longa, sobre uma mulher obcecada pela morte e desejosa de todos os luxos possíveis em seu velório, tinha como roteirista uma das figuras mais importantes da história do cinema brasileiro: Eduardo Coutinho, que, ainda no terreno da ficção, voltaria à Brasília alguns anos depois, em 1968, com seu primeiro longa na direção, O Homem que Comprou o Mundo. Em ano forte, disputou com A Noite do Meu Bem, de Jece Valadão, e O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, que ganharia os principais prêmios.

Os problemas mais evidentes com a censura começaram em 1971, quando o regime militar vetou o longa Nenê Bandalho, de Emilio Fontana, e impôs a exibição de Brasil Bom de Bola, de Carlos Niemeyer. Desautorizar a comissão de seleção ocasionou protestos e o festival foi interrompido durante três anos (de 1972 a 1974). A reativação do festival foi bem sucedida e, já no ano seguinte (1976, edição em que Xica da Silva, de Cacá Diegues, sagrou-se vencedor), o evento foi turbinado com uma mostra retrospectiva, uma exposição sobre cinema, debates e encontros, em um formato geral próximo ao que o festival é hoje. Contudo, apesar dos rumos otimistas, a 10ª edição do festival, em 1977, ainda seria tensa. Elia Kazan e Geraldine Chaplin, possíveis presenças, não vieram, e um inflamado Ruy Guerra roubou a cena ao dizer que a censura estava acabando com o cinema brasileiro.

Mesmo sob inovações como a Mostra do Horror Nacional (para títulos de suspense e terror), em 1978, grandes discussões a respeito da necessidade de espaço para o experimentalismo agitaram a edição, muito criticada pelos cineastas e críticos. A bronca mais enérgica aconteceu quando Ivan Cardoso, premiado pelo roteiro do curta documental O Universo de Mojica Marins, esbravejou contra as escolhas do júri, que, para ele, deveria ser reformulado a partir da troca de “velhinhos sonolentos por pessoas ‘de cinema’”. Os selecionadores haviam deixado de fora da competição, por exemplo, o filme Dama do Lotação, de Neville Almeida.

 

Brasília, lugar da ousadia

Era o começo de anos turbulentos para a Fundação Cultural do Distrito Federal, mantenedora do Festival e bastante questionada por seus vetos, pela burocracia, pela recusa ao novo e por ter tentando extinguir o festival algumas vezes. Aos poucos, a gestão foi cedendo em diversos pontos e reconquistando boa reputação para o festival. Tanto que a década de 80 viu o Candango parar nas mãos de importantes nomes do cinema brasileiro, como Joaquim Pedro de Andrade (com O Homem do Pau-Brasil), Murilo Salles (com Nunca Fomos Tão Felizes) e Suzana Amaral (com A Hora da Estrela), além de notáveis experimentalistas, como Jorge Bodanzky (com Iracema – Uma Transa Amazônica) e Júlio Bressane (com Tabu). Bressane é quem mais ganhou em Brasília, com quatro Candangos.

Um episódio revelador do bom humor dos frequentadores e da calmaria pela qual passava o festival aconteceu em 1987, na exibição de Anjos da Noite, de Wilson Barros. O responsável pela projeção se atrapalhou e inverteu os sétimo e oitavo rolos do filme, alterando a ordem da narrativa. Após a sessão, muito aplaudida, Barros furiosamente protestou e perguntou à plateia se gostariam de ver o filme novamente, de maneira correta. Ouviu um “não” e diversos comentários de que “o erro melhorou o filme”. O longa ganharia o prêmio principal naquela edição.

 

O preferido

O começo dos anos 90 foi apagado e contou com resultados contestáveis – o controverso Candango para O Corpo, de José Antônio Garcia, por exemplo. Mas a crise pela qual passava o cinema brasileiro na época deve ser levada em consideração, e os bons títulos logo apareceriam, caso do festejado Alma Corsária, de Carlos Reichenbach, em 1993. Uma década depois, já com o cinema nacional em melhor estado produtivo e artístico, Eduardo Coutinho (com Santo Forte, em 1999, e Peões, em 2004) e Cláudio Assis (com Amarelo Manga, em 2002, e Baixio das Bestas, em 2006) ganhariam em dose dupla, Laís Bodanzky (com Bicho de Sete Cabeças, em 2000) e Luiz Fernando Carvalho (com Lavoura Arcaica, em 2001) seriam extremamente aplaudidos.

Hoje, os inscritos em Brasília concorrem a um total de R$625 mil em prêmios, sendo R$250 mil para o Melhor Longa . O ano de 2011 deu outro passo importante em direção a um festival mais inclusivo: antes restritas ao Cine Brasília (tradicional sala que abrigava as projeções), as mostras aconteceriam, simultaneamente, em outras regiões próximas como Sobradinho, Ceilândia e Taguatinga. Agora, para concorrer, as produções não precisam mais ser inéditas e a seleção aboliu a distinção entre os gêneros documentário e ficção.

O carinho na fala dos diversos realizadores que se dizem muito conectados ao que Brasília promove não mente: trata-se de um festival vivo, aberto ao diferente e investidor do cinema mais livre possível, aquele que valoriza a imaginação.