Não é errado dizer que o principal destaque brasileiro no Festival de Berlim desse ano é o filme Praia do Futuro, de Karim Aïnouz, que está na seleção oficial e concorre ao cobiçado Urso de Ouro (leia mais aqui). A participação do país no evento, porém, está longe de terminar por aí. Outras seis obras, entre curtas e longas-metragens, trazem a assinatura de diretores brasileiros.

O próprio Aïnouz dirige um dos episódios do filme coletivo Cathedrals of Culture, que retrata seis construções arquitetônicas relevantes ao redor do mundo e tem como objetivo explorar como elas refletem nossa cultura e guardam nossa memória coletiva. A obra, que será exibida na seção Berlinale Special, foi filmada em 3D e tem a participação de nomes importantes, como Wim Wenders e Robert Redford.

Na seção Panorama, dois longas brasileiros serão exibidos. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, é um desdobramento do curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, do mesmo diretor. O filme conta a história de Leonardo, um adolescente cego que busca a independência e descobre mais sobre sua sexualidade ao se apaixonar por um colega de classe. Já em O Homem das Multidões, Cao Guimarães e Marcelo Gomes se baseiam em um conto de Edgar Allan Poe para filmar a história de dois personagens solitários: um condutor e uma controladora do metrô de Belo Horizonte.

“Berlim é um dos três grandes festivais de cinema, junto a Cannes e Veneza. Você tem ali uma multiplicidade de olhares, uma polifonia cultural de gente para ver o filme e muitos especialistas que respiram cinema. Para um filme, esse ambiente é muito rico. É um momento em que temos um crítico marroquino vendo um filme ao lado de um crítico americano, todos ali, respirando aquela entidade fílmica. Então a polifonia de respostas ao filme é muito importante. A quantidade de olhares que o filme irá ganhar é, para mim, o mais interessante”, declarou o diretor Cao Guimarães em entrevista concedida ao Cine Festivais durante a 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

O Homem das Multidões, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes

O Homem das Multidões, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes

O outro longa brasileiro a ser exibido no evento é Castanha, de Davi Pretto (mostra Forum). Entre os curtas-metragens, o Brasil terá dois representantes no Festival de Berlim. Na mostra Generation, que traz filmes que retratam a infância e a adolescência, o país será representado por Eu Não Digo Adeus, Digo Até Logo, de Giuliana Monteiro. A obra tem como protagonista um garoto que vive com a mãe e pouco sabe sobre o seu pai.

Na mostra Forum, que dá ênfase a trabalhos com experimentações de linguagem, será exibido o filme Fernando que Ganhou um Pássaro do Mar, de Helvécio Marins Jr. e Felipe Bragança. A obra tem como protagonista um homem que divide seu tempo entre um pequeno café e a sua casa em uma vila operária na cidade do Porto. Um dia, ele recebe um presente do Brasil e começa a imaginar o paraíso.

A ideia para a realização de Fernando que Ganhou um Pássaro do Mar surgiu depois que Marins Jr. realizou um curta-metragem a convite do Festival de Vila do Conde, em Portugal. Baseado em um personagem real (o Fernando do título), vítima da crise econômica por que passa o país europeu, o diretor criou, em parceria com Bragança, uma ficção em que índios, papagaios, sereias e estudantes fazem parte de uma história que brinca com a imagem que os portugueses têm dos brasileiros, e vice-versa. Um cineasta de cada país foram as maiores influências para o filme: o brasileiro Rogério Sganzerla e o português João César Monteiro.

“A gente tem uma grande amizade com os portugueses e admira o cinema deles, então isso vinha povoando um pouco nosso universo. Ao mesmo tempo, eu tinha muita vontade de relacionar os dois países, até pelo aspecto natural da História, e botar o Brasil no meio dessa história. É o filme mais delirante que eu já fiz”, afirma Marins Jr.

Em conversa com o Cine Festivais durante a 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o diretor disse ver o bom número de filmes brasileiros selecionados para o Festival de Berlim como resultado de um bom momento artístico, que vem sendo acompanhado por iniciativas como o programa Cinema do Brasil, realizado pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura em parceria com outras entidades com o objetivo de promover o cinema brasileiro no mercado externo.

“A Ancine (Agência Nacional do Cinema) tem feito um trabalho interessante nesse sentido (de promover os filmes), mas eu acho que a gente tem chegado com uma presença mais marcante lá fora porque o cinema brasileiro evoluiu mesmo. Acho que faltava trocar um pouco esse disco para a gente tentar dar novos voos e novos passos em direção a esses festivais. Eles estão muito abertos para ver filmes nossos, mas os filmes brasileiros estavam muito estigmatizados lá fora. Agora se começou a ter um ar novo, e isso é muito positivo”, opina o diretor.

 

Leia Mais:

Entrevista com o diretor Cao Guimarães