Já não é segredo para ninguém que a animação brasileira está em alta. Depois de vencer por duas vezes consecutivas o Festival de Annecy, principal evento para filmes que utilizam esta técnica, o país terá agora um competidor no importante Festival de Veneza, que acontece entre os dias 27 de agosto e 6 de setembro de 2014. Trata-se de Castillo Y El Armado, curta-metragem dirigido por Pedro Harres que estará na mostra Orizzonti, seção competitiva destinada a filmes de novos diretores e à busca por novas tendências cinematográficas.

Como o próprio nome sugere, o filme não é falado em português, mas sim em um dialeto fronteiriço do Uruguai com o Brasil. Ele conta a história de Castillo, um homem que, em uma noite de ventania, encontra sua própria brutalidade na linha do anzol.

O Cine Festivais conversou com Pedro Harres a respeito do filme, da seleção para Veneza e do bom momento da animação brasileira. Leia a seguir a entrevista completa.

 

Cine Festivais: Qual é a sua trajetória profissional? Quantos filmes já dirigiu?

Pedro Harres: Sou formado em Realização Audiovisual pela UNISINOS e Filosofia pela UFRGS. Dirigi 3 curtas durante a faculdade e esse é meu segundo filme profissional. O anterior, Um Animal Menor, ganhou muitos prêmios e esteve em vários festivais. Tenho trabalhado com animação desde 2007, principalmente na Otto Desenhos. Esse filme é minha estreia como diretor em animação. Em paralelo aos filmes, tenho um projeto de video instalação interativa chamado EgoMáquina.

 

CF: Como surgiu a ideia para fazer o filme? Quanto tempo demorou o processo de produção e quais foram as dificuldades para realizá-lo?

PH: Faz anos que desejava fazer uma parceria com o artista uruguaio Ruben Castillo, cujo traço e estilo singular sempre me fascinou. Certo dia ele me contou uma história de pesca vivida por ele e na hora senti que ali estava o filme que buscávamos.

O filme demorou aproximadamente um ano para ser feito e foi bastante trabalhoso. Quando se trata de animação, só pela quantidade de trabalho, terminar já é uma dificuldade em si. Ainda bem que tinha uma equipe realmente apaixonada pelo projeto. Talvez o principal desafio tenha sido fazer com que os animadores e artefinalistas assimilassem o traço do Ruben, mais sujo e esboçado; um pouco distante do que se costuma fazer em 2D tradicionalmente. A questão da língua nos diálogos também foi um complicador extra para o casting das vozes.

Castillo y el Armado é o primeiro curta de animação de Pedro (foto: Evelyn Lima)

 

CF: O filme é falado inteiramente em espanhol? Por quê?

PH: Na verdade o filme é falado num dialeto fronteiriço do Uruguai com o Brasil. Como queríamos assumir o caráter confessional da história, que havia se passado no Uruguai, achamos interessante manter essa característica. Além disso, a idéia de fazer um filme brasileiro que possa ser visto em outros países da América Latina sem “parecer estrangeiro” me agrada.

 

CF: Ao ler a sinopse do filme, relacionei-o ao livro O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Você já leu esse livro? Ele é uma referência para o filme?

PH: A obra literária em si não nos influenciou diretamente, mas sua adaptação para o cinema na animação do Aleksandr Petrov foi uma referência obrigatória. Quase toda a equipe já tinha visto o filme muito antes do Castillo y el Armado existir. Alguns planos são inclusive releituras de quadros de Petrov.

 

CF: A seleção para o Festival de Veneza foi uma surpresa? O que ela significa para o filme e para sua carreira?

PH: Com certeza, mesmo acreditando em seu filme, a gente inscreve nesses mega festivais com poucas esperanças, pois sabe o quão competitivo é o processo de seleção. Para o filme, acredito que essa é a melhor world premiere que ele poderia ter; espero que isso facilite sua entrada em outros festivais. Para minha carreira é difícil dizer exatamente o que significa. Como pensei esse filme como meu debut como diretor em animação, espero que essa seleção seja o primeiro passo na direção de meu longa animado.

 

CF: A seleção se torna mais importante por ocorrer em um festival que privilegia filmes live-action, no qual a animação ainda tem pouco espaço?

PH: Não saberia dizer se isso torna a seleção mais importante. O bom de estar numa janela onde você é a exceção é que teu filme tende a ser visto com mais atenção, isso sempre pode trazer oportunidades.

 

CF: Como essa seleção reflete o bom momento da animação brasileira, que saiu premiada nos dois últimos festivais de Annecy?

PH: Acredito que a “buena onda” que a animação brasileira vem ganhando com os dois prêmios consecutivos em Annecy está abrindo os olhos dos festivais (e espero que também dos produtores) em relação ao nosso potencial criativo nesse campo. A verdade é que aqui há histórias, temáticas e visualidades diferentes do que o resto do mundo costuma produzir. Nós temos escapado do já gasto binômio aventura/comédia que estrutura a grande maioria dos longas animados. Cada filme nosso tem uma cara nova a oferecer e, além disso, propomos argumentos com reflexividade e consciência social. Acho que o Castillo y el Armado também se insere nessa tendência.

 

CF: Pelos vídeos disponibilizados no canal da Otto Desenhos Animados no Youtube, é possível ver que o filme foi realizado com técnicas tradicionais de animação. Em entrevista recente concedida ao Cine Festivais, Alê Abreu criticou a estética ultrarrealista das animações de grandes estúdios e disse que utiliza uma estética de sonho para falar de algo muito realista. Você se identifica com essa afirmação? Como define o seu estilo de animação?

PH: Falando especificamente do Castillo y el Armado, ele realmente bebe na escola do cartoon clássico, seus cenários possuem um certo aspecto de pesadelo e seu conflito central é bem realista. No entanto, dada a peculiaridade geográfica do filme e o fato de se basear numa história real (e violenta), sentimos que seu universo não poderia ser 100% onírico. Precisávamos de algum “lastro”. O desenho do Ruben é repleto de coisas velhas, pesadas, enferrujadas, cortantes e sujas. Queríamos que o espectador as sentissem como reais e apostamos bastante no som para isso. Além disso, o roteiro não recorre a simbolismos para representar suas disputas, é bem literal. Então, a identificação com a afirmação do Alê nesse caso é parcial.

Acho sinceramente ainda difícil definir um estilo de animação como “meu”, pois estou em meu primeiro curta animado e tenho idéias para projetos bem distintos, alguns inclusive de caráter mais experimental.

 

CF: Você montou Até que a Sbórnia Nos Separe, de Otto Guerra, e agora teve o seu filme produzido por ele. Qual é a sua relação com o Otto e o que você aprendeu com ele, que é um dos veteranos da animação brasileira?

PH: Mais importante do que montar o Até que Sbórnia nos Separe foi ter feito sua assistência de direção. Trabalhando em proximidade com o Otto Guerra, Ennio Torresan Jr, Marta Machado, Fabiano Pandolfi e vários outros, tive na Otto Desenhos minha grande escola de cinema de animação. E como entrei no filme ainda na época dos primeiros storyboards e terminei editando, posso dizer que foi um curso completo. Foi fazendo o Sbórnia que conheci 80% da equipe do Castillo, com quem tive a chance de crescer junto ao longo da produção. Sou grato ao Otto pela confiança que ele sempre depositou no meu trabalho.

 

Para conhecer mais sobre Castillo y el Armado, acesse o site oficial do filme.