Três anos depois de levar o troféu de melhor atriz coadjuvante pelo trabalho em Amor, Plástico e Barulho, Nash Laila está de volta ao Festival de Brasília do Cinema Brasileiro com participações em dois filmes que estão na mostra competitiva de curtas-metragens da 49ª edição do evento, que acontece de terça (20) até o dia 28 de setembro.

No pernambucano O Delírio é a Redenção dos Aflitos, trabalho dirigido por Fellipe Fernandes que teve a sua estreia mundial na Semana da Crítica, seção paralela do Festival de Cannes, Nash interpreta a protagonista Raquel, que tem a sua percepção sobre a realidade afetada na medida em que passa por um momento de turbulência desencadeado pela necessidade de se mudar do apartamento em que mora com a filha pequena e o marido pouco atencioso.

Em Os Cuidados que se Tem com o Cuidado que os Outros Devem Ter Consigo Mesmos, do paulista Gustavo Vinagre, Nash integra o grupo de quatro personagens que habita um apartamento em São Paulo e forma um microcosmo de pessoas marginalizadas em maior ou menor medida em nossa sociedade (a mulher transexual, a mulher nordestina, o homem negro e gay).

Nash Laila conversou por e-mail com o Cine Festivais sobre as particularidades desses trabalhos e sobre a sua relação com os curtas-metragens e os festivais de cinema.

 

Cine Festivais: O Delírio é a Redenção dos Aflitos é um trabalho todo centrado na sua personagem. O filme fala muito sobre relações de trabalho e de gênero, e parte de uma situação de opressão para construir uma subjetividade em crise, aliado a elementos de cinema fantástico. Como foi a sua preparação para interpretar esse papel, que pendula diante de uma linha entre o real e o imaginário?  

Nash Laila: O Delírio… nasceu em Fellipe (Fernandes, diretor). Acredito, entre outras coisas, que o filme veio muito da experiência dele no próprio bairro onde o trabalho foi rodado. Grande parte da equipe cresceu ou morou anos em Jardim Atlântico, em Olinda.

Para mim, este trabalho nasce com o desejo de viver no cinema aquele matriarcado – nossas mães, nossas irmãs, tias, as amigas das mães, as vizinhas -, mulheres sobrecarregadas por uma sociedade inteira, trágicas, que se movimentam pelo desejo de vida. Aquelas que abdicaram dos seus quereres mais profundos e entraram no modus operandi do consumo, do descartável, da sobrevivência; a geração de jovens mães solo, que nunca foi bela-recatada-e-do-lar, mas que pode ser que ainda não tenha superado a lógica da novela, do amor ideal.

Essa panela de pressão humana que precisa não ser conivente e quebra vidraças só para conseguir parar de pensar um pouco, deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz. Uma ação que é, na verdade, uma reação.

E aquele espaço, que possibilita isso tudo – as ruas, a quentura, a poluição visual, as placas e fachadas queimadas, descascadas, os cemitérios de prédios; o jeito de viver esse lugar no nosso tempo – a falta de perspectiva, a luta por espaço, a ansiedade.

 

Cine Festivais: Você construiu sua trajetória no cinema em filmes passados em Pernambuco, como Deserto Feliz, Amor, Plástico e Barulho e, mais recentemente, O Delírio é a Redenção dos Aflitos. Sua atuação no novo curta do Gustavo Vinagre se deu em um momento em que você já estava morando na capital paulista há algum tempo. Quais são as diferenças fundamentais entre as suas experiências de vivência em Recife e São Paulo, e como elas influenciaram o seu trabalho de atuação em Os Cuidados…?

NL: A principal diferença entre minha vida em Olinda e São Paulo é que em Pernambuco eu estava nas periferias e em São Paulo, estou no centro. Isso muda tudo. Muda o ponto de vista. Claro que carrego a periferia onde quer que eu vá, porque isso é uma construção de corpo, de experiências que ficam encarnadas na gente, mas estar no centro (não só da cidade, mas do País) faz a gente viver as coisas de outro jeito. O que é obvio é que há mais privilégios, possibilidades; o que não é, é que há uma espécie de anestesiamento geral, porque, como disse Glauber (Rocha), é preciso ter a fome.

O filme de Gustavo é bem revelador nesse sentido. O nome é enorme e diz bastante: Os Cuidados que se Tem com o Cuidado que os Outros Devem Ter Consigo Mesmos. Sinto São Paulo em um lugar complexo entre a anestesia, o fazer, o desejo pelo delírio, mas também o fetiche do delírio, o engajamento.

Nesse filme, a família são os amigos. Existe a intimidade, mas também existe a superficialidade das intimidades e a necessidade de estar entre os outros; o sentir-se só nessa metrópole, em que há coisa para fazer a cada duas horas; a vontade de chorar e nem saber por quê.

 

CF: No filme do Gustavo há a criação de um senso de comunidade entre os quatro personagens, que formam um grupo representativo de pessoas vítimas de preconceito em diferentes medidas (gays, negros, mulheres…). Há uma separação do mundo exterior, que está sempre fora de campo, do lado de lá da tela da janela ou do muro do prédio vizinho. Por outro lado, o final do filme tenta não idealizar esse “cinema de afetos”. No seu papel de atriz, como você interiorizou essas discussões trazidas pelo curta e de que maneira relaciona essas situações com o tipo de relações humanas e de separações radicais entre diferentes grupos presentes no Brasil atual?

NL: Acho que não por acaso Gustavo chamou nós quatro pra fazer esse filme. Se não me engano, ele já escreveu pensando na gente – mesmo que intuitivamente, o que considero ainda mais valioso. Acho maravilhoso quando ele pega as nossas caras, a mulher-trans-oriental, a mulher-cis-nordestina, o homem-branco-bode, o homem-negro-gay, e coloca em um microcosmo da sociedade, dentro de um apartamento.

Os conflitos e inversão de papéis revelam, para mim, essa nossa geração de agora, parte conciliadora, apática, medrosa, parte consumida e também amorosa e desejosa. Ao mesmo tempo em que há uma necessidade do outro, há um sufocamento com o outro. É puro centro de São Paulo, a cidade onde encontramos mais gente e ainda assim nos sentimos vazios, divididas em guetos, numa feijoada de guetos.

As relações com o estrangeiro, com os que falam e não falam a nossa língua. Até que ponto nos aproximamos uns dos outros. Até que ponto cuidamos ou estamos só seguindo a cartilha do politicamente correto nos interesses? Como nos juntar, por exemplo, enquanto sociedade e assumir a força que isso pode ter? Quando extrapolaremos a fronteira?

 

CF: Quais são as principais razões que a levam a escolher os projetos de cinema em que irá atuar? Em que medida você acompanha a nova leva de curta-metragistas nacionais? Pretende continuar atuando em filmes do formato?

NL: O afeto me leva a fazer cinema. O ponto de vista que eu ainda não experimentei, também, assim como a reflexão e a projeção sobre nosso tempo e sociedade.

Vejo bastante curta-metragem, vou às mostras, acompanho com frequência. Gosto de ver e fazer. Nem consigo pensar em um esquema de formato, porque para mim é tudo cinema e pronto.

 

CF: Em 2013 você ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival de Brasília, e neste ano retorna ao festival com dois curtas. Que tipo de relação você possui com esse ambiente dos festivais de cinema?

NL: Festival é lugar de encontro, de juntar força com os outros, saber o que estão pensando e, sobretudo, de reexistência. Encaro os festivais como lugares de projeção dos mundos todos em que vivemos. É nosso dever mostrar o Brasil (não na lógica do consumo), que são tantos mundos, tantos planetas e que a TV e outras mídias não alcançam e nem desejam. É nosso dever discuti-los para que haja representatividade e possibilidade de diálogo real.

Quanto mais lenha de fogo o festival for, melhor, um fogo especialmente estético. A revolução é cultural. Brasília tem um publico muito ativo, atuador, mesmo em exibição de filmes. Estive ali de novo no início do ano, com o Teatro Oficina, e foi uma loucura! Um desejo de respiro em meio a tanta mediocridade acontecendo na cidade. Tomara que neste ano a gente aproveite bem esses encontros.