O cenário da produção audiovisual brasileira foi reconfigurado a partir dos suportes do vídeo analógico e, pouco adiante, do digital. Tal processo impactou não só a produção nacional, mas também todo um circuito de festivais tradicionais que se mostrava reticente a abrigar outros tipos de cinema e de modos de produção. Nesse sentido, a Mostra do Filme Livre, criada em 2002, foi pioneira na proposição de novos espaços para a discussão e exibição de filmes, algo que ganhou corpo anos depois através de um boom de novos festivais de cinema (como a Mostra Aurora – dentro da já existente Mostra de Cinema de Tiradentes, a Semana dos Realizadores, o Janela Internacional do Recife, o CachoeiraDoc, o Olhar de Cinema, entre outros eventos).

“Nossa motivação [para criar a MFL] foi dar espaço a trabalhos, principalmente realizados em vídeo, que não circulavam em outros festivais porque, naquela época, só eram aceitos filmes em 35mm. Essa limitação aumentava vertiginosamente os custos da produção cinematográfica e levava os realizadores ao baile perfumado dos editais públicos, um processo que tornava ainda mais restrito – e elitista – o lugar do realizador e suas possibilidades de expressão”, comentam Diego Franco, Gabriel Sanna, Guilherme Whitaker e Scheilla Franca, curadores da 17ª edição da Mostra do Filme Livre. O evento acontece nos Centros Culturais Banco do Brasil de Rio de Janeiro (21 de março a 15 de abril), São Paulo (22 de março a 16 de abril) e Brasília (de 24 de abril a 20 de maio).

Em 2018 a Mostra do Filme Livre recebeu 1.140 inscrições de filmes, sendo que apenas 186 deles (ou 16%) tiveram apoio de editais e/ou leis de incentivo, o que demonstra que o festival segue coerente com a sua proposta inicial. No total, foram selecionados 140 filmes e outros 60 foram convidados, resultando em 26 longas-metragens e 114 curtas e médias-metragens na programação.

O Cine Festivais entrevistou por e-mail a equipe de curadoria da Mostra do Filme Livre. Em pauta, mais do que a edição deste ano, esteve a concepção do festival ao longo destes 17 anos.

 

Cine Festivais: O acolhimento de filmes e propostas de cinema que não estavam sendo incorporadas pelos festivais tradicionais foi algo realizado pela Mostra do Filme Livre desde o seu início, antecipando, assim, um movimento que se intensificaria nos anos seguintes à sua criação. A motivação inicial para a criação da MFL era essa mesma, ou havia outros intuitos?

Curadoria Mostra do Filme Livre: Sim, era exatamente essa. Nossa motivação foi dar espaço a trabalhos, principalmente realizados em vídeo, que não circulavam em outros festivais porque, naquela época, só eram aceitos filmes em 35mm. Essa limitação aumentava vertiginosamente os custos da produção cinematográfica e levava os realizadores ao baile perfumado dos editais públicos, um processo que tornava ainda mais restrito – e elitista – o lugar do realizador e suas possibilidades de expressão.

Começamos a exibir e discutir o cenário independente em um momento em que a internet no Brasil ainda era discada, precária, e no qual não era, portanto, tão desenvolvido o processo de compartilhamento audiovisual em plataformas online, como é hoje em dia. Apesar disso, naquela época houve uma profusão de cineclubes onde apresentávamos e discutíamos os muitos filmes produzidos graças às transformações tecnológicas intensificadas pelo vídeo. Eram espaços capazes de alargar o possível e o imaginável do fazer cinematográfico, estimulando trocas que germinavam ideias para novos filmes, ao mesmo tempo em que expandiam o repertório de referências visuais e sonoras dos realizadores, dos espectadores. Falamos agora sobre isso – e hoje produzimos o maior circuito cineclubista do país – também porque nascemos de um antigo cineclube na Fundição Progresso, ainda em 1999.

Nesse sentido, nosso esforço, desde antes de nos constituirmos enquanto MFL, foi auxiliar na difusão e criar janelas de acesso ao cinema brasileiro mais independente, fosse estética ou economicamente. Buscamos, ao longo do tempo, propor espaços para pensar sobre esses filmes, independentemente dos seus formatos. Com a transformação da perspectiva subordinada à película, nossos gestos e olhares se voltam, ainda mais intensamente, para a experimentação, para a pesquisa destes suportes enquanto linguagem, enquanto alternativa de produção, enquanto possibilidade estética e política. Nos interessam os saltos no abismo, a ampliação das potências do olhar através dos encontros mediados pelas obras, pelas sessões.

 

Vocês acham que a importância da Mostra do Filme Livre costuma ser minimizada quando festivais posteriores (como a Semana dos Realizadores e a Mostra Tiradentes – a partir da criação da Mostra Aurora) são citados como marcos dessa transformação no cenário de festivais brasileiros, em detrimento da MFL? Por quê?

Muitas histórias pairam na neblina que envolve os marcos de transformação. Pensamos que a importância da MFL esteja na possibilidade que tem para sensibilizar, engajar olhares que não atravessam o circuito dos festivais de cinema independente, como os que são citados na sua pergunta. São espaços de ação distintos. Desenvolvemos a mostra em um centro cultural onde há diversos eventos, de diferentes naturezas artísticas, acontecendo ao mesmo tempo. Eles mobilizam um grande fluxo de pessoas que não trabalham, estudam ou necessariamente têm proximidade com o fazer cinematográfico. Criamos formas de apresentação e diálogo da MFL com este público que, ao transitar pelos espaços, decide acompanhar parte da programação nos debates, oficinas ou sessões, seja na sala de cinema tradicional ou nas cabines. Apresentamos propostas de um cinema possível que permitem criar interfaces mais porosas entre o pensamento sobre o cinema e as práticas e experiências audiovisuais, algo que dialoga também de forma muito próxima com um público que não necessariamente seja de estudantes ou profissionais do cinema.

Seria incoerente nos preocuparmos ou colocarmos de forma comparativa, discutindo legitimação, em relação a outros espaços de difusão do cinema brasileiro, quando este é o maior problema da nossa produção audiovisual. Espaços para assistir filmes coletivamente, salas de cinema, cineclubes e mostras não são suficientes para solucionar a matemática cruel entre produção e exibição que se arrasta na história do cinema brasileiro. Não estamos, portanto, interessados nos discursos acerca dos festivais. Importante é agirmos, usarmos de forma interessante nossas potencialidades.

Temos, na MFL, um espaço-tempo de festival que nos permite exibir mais de 200 filmes em várias capitais, durante meses, além da experiência dos cineclubes livres. Podemos ainda contribuir para ampliar e discutir referências que, para o cinema que nos interessa, são muito caras. Podemos falar de Tonacci, Rosemberg, Baiestorf, Sette, Helena Ignez, Sergio Ricardo, Burlán, Paula Gaitán, Capovilla, Luiz Paulino dos Santos, Edgar Navarro, entre muitos outros artistas que já homenageamos. Esta configuração e possibilidade enquanto evento cultural foi conquistada junto ao trabalho de muita gente que esteve conosco nestes 17 anos, na concepção e produção da MFL, na curadoria, fazendo filmes, acompanhando as sessões, apoiando nossa proposta e nos ajudando na divulgação. É isso que nos interessa.

 

O tamanho do festival (não só em termos de números de filmes exibidos, mas dos espaços que eles ocupam e, principalmente, da repercussão jornalística e crítica promovida a partir do evento) sempre esteve de acordo com a ideia de vocês?

O tamanho do festival, tanto a um nível de produção e seleção de obras quanto do impacto que a MFL causa nas mídias, é coerente com a sua proposta e com a sua possibilidade de viabilização. Nosso objetivo de exibir, discutir e fomentar o pensamento sobre o audiovisual independente brasileiro, com sessões diárias e gratuitas, é materializado no maior espaço-tempo que nos é possível, justamente para que possamos contemplar, da forma mais abrangente, o espectro de produções mais marginalizadas dentro do circuito de festivais de cinema brasileiro.

Não sei se temos exatamente, nesse sentido, um forte apelo para a mídia, sobretudo nos veículos mais tradicionais e maiores. Nos esforçamos para manter uma certa coerência com os desejos que nos possibilitaram existir um dia, e não exatamente para fomentar ou medir o discurso gerado sobre nós na mídia, na academia ou onde quer que seja. Se hoje somos a mostra brasileira que exibe o maior número de filmes brasileiros e por mais tempo e em mais cidades, foi algo que aconteceu natural e organicamente. Dividimos essa conquista com os milhares de filmes que já exibimos, sem eles não resistiríamos tanto tempo.

 

No texto de apresentação da mostra deste ano vocês apontam como um objetivo “descobrir onde estão as diferenças em nosso tão cativante cinema não comercial”. Isso é com certeza um desafio, mas que traz características diferentes se compararmos a 1ª Mostra do Filme Livre com a 17ª Mostra do Filme Livre. Como as diversas mudanças ocorridas nesse período (com o aumento expressivo tanto de filmes produzidos quanto de festivais e mostras para exibi-los) afetaram a curadoria da MFL ao longo de sua trajetória?

Em essência o que nos motiva são os encontros, entre nós da curadoria, os filmes, os realizadores, o público. Isso não mudou. Apesar do aumento significativo do número de festivais e mostras de cinema, podemos pensar que ainda é muito pequena a difusão desses trabalhos porque muitos dos filmes que ocupam esse circuito têm nessas opções a única possibilidade de circularem, de serem exibidos.

Nossa programação se configura como um caleidoscópio de modos de operar o audiovisual, de elaborar experimentos de linguagem que escapem do formalismo convencional e usual, seja televisivo ou hollywoodiano. Queremos tensionar a relação com as áudio-imagens. A curadoria coletiva torna o processo de seleção e programação muito interessante porque é graças à multiplicidade de olhares para o mundo e, consequentemente, para o cinema, que as sessões conseguem desenhar tantas constelações. Além disso, somos um espaço em eterna reconfiguração. Caminhar, transformar-nos no trajeto, errar, retomar rotas, assumir outras cartografias e desejos faz parte do processo de existir da MFL, de cada um de nós e dos nossos encontros.

 

Nos últimos anos, boa parte dos festivais deu sinais (fajutos ou concretos) que foram ao encontro da visibilidade conquistada por movimentos identitários no atual cenário do País. No caso do cinema, nota-se uma cobrança por representatividade (não só na frente e atrás das câmeras, mas também nas curadorias de festivais etc.) e por novos modos de representação de personagens contra-hegemônicos. No caso da MFL, como a curadoria lida com essas demandas? Quais reverberações delas podem ser sentidas na programação deste ano do festival?

O cinema se faz na relação entre sujeitos, entre desejos, entre urgências, e são sempre importantes as discussões que o colocam em um espaço expansivo e o faz romper bolhas. Nesse sentido, entendemos como essenciais as lutas para que sujeitos, grupos e comunidades que sofreram processos de apagamento ao longo da história possam encontrar no cinema – e consequentemente na programação dos festivais e mostras de cinema – um lugar onde possam ecoar seus gritos.

Os mecanismos históricos e institucionais de violência, tortura e silenciamento infligiram contra todos nós, brasileiros, um entorpecer sobre nossa percepção acerca de nós mesmos, enquanto povo. Na medida em que o cinema – seja por meio da produção, seja em debates, na curadoria dos festivais, nos cursos de formação – é ocupado pelos gritos de nossos silêncios históricos e atuais, ou seja, quando filmes constituem a força de sua experiência nesta luta, buscamos, enquanto curadoria, ter disponibilidade e sensibilidade para perceber o que estas obras propõem, fazendo-as reverberar.

Na programação deste ano, em específico, recebemos e selecionamos muitos filmes que existem enquanto experiências potentes neste espaço em comum tecido entre a estética e a política, em diversas sessões da MFL. Não porque precisávamos, por demanda ou pressão externa, tê-los na programação, mas porque eles nos tocaram profundamente e era possível sentir uma costura sutil e forte que unia os filmes.

Estas questões provocaram um maior cuidado na compilação dos dados ao recebermos um filme, para que pudéssemos melhor olhar e mapear os expressivos números que nos cercam. Buscamos hoje a melhor maneira de apreender estes dados, de modo a evitar controvérsias e ajudar a intensificar a discussão sobre a produção audiovisual realizada por mulheres, transsexuais, negros, indígenas e diversos sujeitos e comunidades periféricos – porque isso é falar também sobre a diversidade estética da produção nacional, sobre nossas entranhas.

Nossos afetos, enquanto pessoas, são modulados também por estes fatores identitários, e os filmes que nos interessam, desde sempre, estiveram relacionados à questão do afeto. Pensamos ser importante reconhecer as distintas formações de afetividades que mobilizam as obras. Não é um lugar tranquilo, mas o cinema que acreditamos se faz em meio a estas disputas e discussões e é fruto do transbordar entre o cinema e a vida, a estética e a política.

 

 

(Ilustração da foto: Ida Leal)